terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A colonizacao de Moçâmedes, Angola, em Revelações da minha vida e memorias de alguns factos e homens meus ... Por Simão José da Luz Soriano e memorias de alguns factos e homens meus ... Por Simão José da Luz Soriano








Luz Soreano e a colonização de Moçâmedes



Colocado como Chefe da Repartição de Angola da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar de Outubro de 1842 até Junho de 1851, Simão José da Luz Soriano deixou o escrito  que segue sobre a sua contribuição para a colonização de Moçâmedes em "Revelações da Minha Vida e Memórias":



"...Reconhecendo que as nossas provincias d'Africa nada mais tem sido desde a sua descoberta até ao nosso tempo do que um simples viveiro de escravatura para a America, e feitorias commerciaes, de não grande monta para a Europa, busquei, tanto quanto em mim cabia, vêr se á provincia de Angola dava uma mais subida importancia do que aquella, que até então tivera.

É sabido que o clima d'Africa é bastante damnoso aos europeus, e tanto mais, quanto mais se aproximam da equinocial. Dizia-se que no interior do paiz alguns pontos havia, proprios para colonisação europêa, o que na pratica se não verificou, pelo malogro de algumas tentativas desta especie, provindo isto, tanto da falta das indispensaveis cautelas no transporte dos colonos, como da insalubridade de taes pontos, como aconteceu com o presidio do duque de Bragança, como acontece com o Bembe, e como acontece com o Ambriz.

Revendo o cartorio da antiga secretaria do ultramar, onde toda a correspondencia de Angola posterior ao meado do seculo passado, vi que o clima de Cabinda, ao norte do rio Zaire, ponto .onde se começara a levantar um forte, por auxilio de uma expedição, que para alli sahira de Loanda aos 17 de julho de 1783, estava effectivamente incluido na regra geral da insalubridade para os europeus, apesar da fama, que tivera em contrario, attenta a grande mortalidade, que alli soffreu a força expedicionaria.

Vi mais que a politica de alguns gabinetes estrangeiros, e particularmente o inglez, nos contestava fazer por aquella parte effectiva a nossa auctoridade, como o demonstrou a expedição naval, que a França empregou contra a nossa expedição de Cabinda, onde em 1784 fez demolir o forte, que alli começámos a levantar. A este estado de insolita e inesperada hostilidade, seguiram-se as nossas reclamações, das quaes resultou a convenção de Madrid de 30 de janeiro de 1786, pela qual a França declarou respeitar os direitos, que a coroa deste reino pertendia ter áquella parte da costa africana. Todavia a Inglaterra tem sido para nós mais severa sobre este ponto do que a propria França, a Inglaterra, que pelos tratados de 19 de fevereiro de 1810 e 22 de janeiro de 1815, e convenção addicionaJ de 28 de julho de 1817, reconheceu formalmente a reserva dos direitos da coroa de Portugal aos territorios da Africa Occidental, comprehendidos entro o quinto gráu e doze minutos, e o oitavo gráu de latitude meridional. ella a unica potencia, que com frivolos pretextos nos tem ultimamente embaraçado fazer effectiva a jurisdicção portugueza nos citados territorios.

Conseguintemente intendendo que, tanto por esta causa, como pela insalubridade do clima dos territorios ao norte de Loanda, as nossas tentativas coloniaes haviam de ser sempre infructuosas, ou mal succedidas, dediquei desde então toda a minha attenção aos territorios ao sul de Benguella, não só porque alli ninguem nos contestava o nosso dominio, mas sobre tudo por ver que, estando já bastante distantes do equador aquelles territorjos, era de suppor que o seu clima fosse já mais analogo ao do Cabo de Boa Esperança, e por tanto ao da Europa.

Reputei eu tanto mais urgente a occupação destes territorios, quanto que em França algum viajante instava com o seu governo para os mandar invadir. No quarto volume, documento n.° 13, da viagem que Mr. João Baptista Douville fez a Angola em 1827, vê-se apparecer alli bem descripto o porto e o sertão de Mossamedes. Mais se vê ter elle fortemente despertado a attenção do governo francez por meio de uma memoria, dirigida ao ministro das colonias, sobre aquelle porto, rogando-o encarecidamente para que nelle mandasse levantar um presidio para degradados. Douville dizia haver alli agua doce, serem risonhas as margens do rio, que o avisinham, serem pacificos os povos dos sertões limitrophes, e finalmente ter observado que a temperatura das costas pelas duas horas da tarde de um dia de dezembro de 1827 era de 23 a 24 gráus de Reaumur, achando igualmente que a 10 leguas da costa sobre um monte elevado, a temperatura era de 19 gráos, no mesmo momento em que o thermometro marcava 22 sobre a costa.

A leitura de tudo isto convenceu-me cada vez mais da urgencia de se segurar a todo o custo o porto e o sertão de Mossamedes, antes que o governo francez annuisse ás instancias de Douville, e nos expellissem do sul de Angola pelo mesmo modo por que nos tinham expellido do norte.

Com a leitura da viagem deste francez coincidiu igualmente achar eu no archivo da secretaria do ultramar um officio do barão de Mossamedes, que depois foi conde da Lapa, descrevendo a importante exploração, que em 1785 mandára fazer aos sertões do sul de Benguella. A respectiva expedição sahira de Loanda aos 12 de junho d'aquelle anno, e posteriormente de Benguella, dirigindo-se á chamada Angra do Negro, á qual desde então se poz o nome de Mossamedes por obsequiosa memoria de quem ordenára a expedição. Tanto a descripção desta bahia, como a da grande serra e valle do Bumbo, que d'ella dista tres dias de viagem, segundo as ultimas participações, e 28 leguas (é distancia excessiva) segundo o cumputo do chefe da expedição, o famoso sertanejo d'aquelle tempo, Gregorio José Mendes, são de attrahir a attenção do mais impassivel leitor, circumstancia que em mim se deu no mais alto gráu. Apesar dos esforços do conde da Lapa, a bahia de Mossamedes continuou a permanecer no total esquecimento do nosso governo, para d'elle sahir no nosso tempo. Para aquelle porto se emprehendeu uma outra expedição em 1839, ordenada pelo vice-almirante, Antonio Manuel de Noronha, que para ella commissionou a corveta Izabel Maria, do commando do meu fallecido amigo, Pedro Alexandrino da Cunha, que então era capilão-tenente da armada. A corveta foi até á vasta Bahia dos Tigres, d'onde voltou para o norte, por se não verem n'aquellas costas, quer olhando para o interior do paiz, quer para o sul, senão vastos campos de areia solta, sem terem um só vegetal, vindo finalmente ao porto de Mossamedes, cujo aspecto e vantagens foram muito elogiados pelo commandante deste vaso O. Ao vice-almirante Noronha succedeu-lhe, como governador de Angola, Matiuel Eleuterio Malheiros, que em fe ver eiro de 1840 mandou levantar um forte em Mossamedes, dando-lhe por governador o tenente de artilheria de Benguella, João Francisco Garcia Moreira, que para lá partiu com 26 praças de pret, e duas peças de artilheria. Entretanto o forte quasi que não passava dos alicerces, quando alli tocou em fms de setembro de 1842 o governador geral d'aquella provincia, José Xavier Bressane Leite, successor de Malheiros. As noticias officiaes de Mossamedes, que a instancias minhas se pediram a Bressane, e ao seu successor, Lourenço Germak Possollo, e as repetidas ordens, que pelas minhas rogativas para alli expediram os ministros da marinha com quem servi, para se dar importancia áquelle*porto, cada vez me convenceram mais de que elle não só era salubre, mas que até tinha

(i) Os que quizerem ver o interessante relatorio desta viagem, consultem os Ensaios Statisticcs de Lopes Lima no volume 3.°, parte de Benguella, png. i i e seguintes, ou o n.° i dos Annaes Maritimos o Coloniaes de 1845.
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todos os elementos de se constituir n'um importante ponto commercial, com relação aos sertões, que o avisinbam, apesar de estar cercado de areias, como é todo o littoral de Angola. Todos estes sertões se apresentaram aos officiaes de marinha, que os visitaram, com os mais lisongeiros auspicios para o estabelecimento de colonias europeas, particularmente a liuilla, Gambos, e Humpata, a mais de 30 ou 40 leguas de Mossamedes, todos situados além da notavel serra de Chella, cujos territorios tem logaresmuito ferteis, e de excellente clima. De todos estes sertões o da Huilla foi o que por si teve melhores informações, considerandose como um paiz muito apto para o estabelecimento de caudelarias, em razão das vastissimas pastagens, que tem, onde os indigenas pastoream numerosas manadas de gado vaccum.
Attentas pois todas estas vantagens, não admira, que me deixasse preoccupar por todas as descripções, que me chegaram á mão, e incessantemente instasse com todos os ministros da marinha e ultramar para que não deixassem ficar em abandono um porto, que tanto se recommendava para uma colonisação europea. Com a falta de recursos, que para tal lim se dava, coincidiu tambem o esmorecimento de alguns especuladores, por não terem correspondido ás suas vistas os interesses das feitorias commerciaes, que lá tinham mandado estabelecer. Bem longe disto me desvanecer das ideas, que concebi em favor de Mossamedes, cada vez mais me convenci da necessidade da sua colonisação, pela firme persuasão de que a rivalidade de Benguella era uma das poderosas causas do malogro de similhantes feitorias. Mas quando os interesses commerciaes, e os da projectada colonisação não correspondessem ainda assim á minha espectativa, intendia que mesmo neste caso era indispensavel assegurar Mossamedes, pela urgente necessidade que tinhamos de assegurar todo o littoral, que vae desde a enseada de Moeni-Calanga, assente em doze gráus e cinco minutos de latitude sul, e que de facto se considerava então como o ultimo limite á beira-mar do districto de Benguella, até á bahia de Mossamedes, assente em quinze gráus e dez minutos. Com a occupação defmitiva de mais estes tres gráus, ou 54 leguas de costa, mais outra vantagem tinhamos, tal era a de assegurar igualmente no interior do paiz os sertões correspondentes a esta occupação do liltoral, e tanto mais, quanto qtiiytK nosso presidio de Quilengues se achava quasi abandonado pela viva guerra, que então os negros lhe faziam. Além do que fica exposto, linha, e ainda presentemente tenho a crença de que dentro de um seculo ou seculo e meio, aquelles nossos sertões terão de ser demarcados com relação aos dominios dos Boêrs, ou as possessões inglezas da colonia do Cabo da Boa Esperança, c tratar de obviar desde já futuras contestações, assegurando de facto o que de direito nos pertence, aconselhava-o a prudencia, e exigia-o a politica. Por conseguinte, encarada por qualquer modo que fosse esta questão, era para mim manifesta a necessidade de tornar cada vez mais forte a occupação da bahia de Mossamedes, necessidade reclamada por todas as considerações, que sobre este objecto se podiam fazer.

Obvias eram portanto as razões, que me levavam a cuidar com lodo o empenho na segurança d'aquella bahia, e tão obvias e patentes, que todos os ministros, com quem disto tratei, as julgaram sempre attendiveis, e effeclivamente as attenderam, tanto quanto estava ao seu alcance, não emprehendendo coisa mais séria pela inteira falta de meios pecuniarios, que o orçamento geral do estado lhes não facultava. D'uma grande somma de escravos, apresados a bordo do brigue brasileiro Caçador, ordenou-se em 4 do agosto de 18í4 que cincoenta casaes marchassem como libertos para Mossamedes, a fim d'alli se empregarem nos trabalhos da agricultura. Mais se ordenou em 22 d'aquelle mez que em Mossamedes se organisasse uma companhia de linha debaixo do mesmo plano, que a dos mais presidios da provincia, devendo entrar nella não sómente os brancos, mas lambem os homens de cor. Para este fim auctorisou-se o respectivo governador geral a nomear para ella os officiaes que precizasse. Em conformidade com estas medidas foi para Mossamedes alguma artilheria, e outros mais objectos, necessarios para se guarnecer o respectivo forte, pondo-o em estado de fazer respeitar o porto, quer por mar, quer por terra. Finalmente d'uma grande porção de degradados, que a charrua Princeza Real conduziu para Angola em setembro de 1845, ordenouse que quarenta desembarcassem em Mossamedes para fazerem parte da respectiva companhia de linha, devendo o commandante da charrua deixar alli com elles a maior porção de mantimentos que lhe fosse'possivel. Sei muito bem que o porto de Mossamedes é geralmente cercado de areas e alturas agrestes, como todas as costas d'aquellas paragens, e por conseguinte destituido de grandes porções de terreno vegetal. Sabia igualmente que, no tempo a que me refiro, o commercio do sertão limitrophe ainda para elle não estava encarreirado, de que resultára o facto, já citado, de haverem alguns especuladores mandado retirar algumas feitorias, que lá tinham estabelecido. Alguns officiaes de marinha houve, que fortemente murmuraram da presistencia do governo em querer dar importancia a um ponto, que, segundo elles, a não podia ter por aquellas circumstancias. Eu mesmo, entrando casualmente n'uma casa de pasto, ouvi estarem-se fazendo ao governo por aquelle motivo censuras um pouco asperas e desabridas; mas pela minha parte nenhum peso lhes dei, não só pelas razões, que já acima expuz, mas tambem pela convicção, que tinha, de que o tempo havia de atenuar no todo, ou em parte o que dizia respeito aos inconvenientes allegados, como actualmente vae acontecendo, não perdendo da lembrança de que area.es são igualmente os territorios de Loanda, e além disso sem agua potavel, o que não acontece a Mossamedes, e nem por isso deixa de ser aquella cidade a mais importante povoação da Africa Occidental. Os cuidados, quo prestei á segurança do novo porto, não me embaraçaram de attender á dos seus sertões limitrophes, convencido que o dominio das costas é sempre ephemero, em quanto se não asseguram os seus respectivos sertões. Com estas vistas de assegurar o littoral e interior de Mossamedes se mandaram embaixadores aos regulos do Bumbo e da Huilla para se presentearem, e se levarem a prestar vassalagem á coroa portugueza, como praticaram, assentando-se com elles pazes, confirmadas pelos competentes tratados.

 Para garantir o dominio da Huilla, talvez o mais importante dos sertões de Mossamedes, como já disse, para lá se mandou ir a gente de que foi possivel dispor, e que ao principio consistiu em um sargento com quatro paisanos com uma mulher e seis casaes de libertos. Mesquinho era similhante presidio; mas em fim já era um nucleo para maiores empresas de colonisação, quando no futuro se quizessem levar a effeito. Os trabalhos a que me entreguei para a segurança e colonisação de Mossamedes, não se reduziram sómente aos do um simples official de secretaria do ultramar, chefe de repartição; mas até a tomar tambem sobre mim os de escriptor publico. Nas vistas pois de provocar alguma emigração para Mossamedes confeccionei uma memoria, descriptiva deste porto, das suas vantagens para a navegação e commercio, da salubridade do seu clima, o melhor de toda a provincia de Angola, e fmalmente das vantagens e fertilidade dos sertões lemitrophes. Esta memoria acha-se impressa no n.° 3 da 6.a serie dos Annaes Maritimos c Cotoniacs do anno de 1846.

Sem embargo do que fica exposto confesso que da minha parte havia ainda bastante falta de confiança na proficuidade dos esforços, empregados para a segurança e colonisação de Mossamedes, por que em fim desanimado o commercio de tirar d'alli as vantagens, que dos mais pontos da provincia tirava, o progresso da colonisação havia de ser sempre ephemero. Uma circumstancia imprevista veio porém fortificar e engrandecer aquelles meus esforços. Os partidos politicos, que em differentes pontos do Brasil se debatem, e particularmente em Pernambuco, tornam-se geralmente oppressores dos portuguezes ali i residentes, aos quaes os brasileiros perseguem por toda a forma ao seu alcance. Offendidos e desgostosos por aquella causa muitos dos nossos concidadãos, que se achavam em Pernambuco, lembraram-se de ir fundar na nossa Africa uma colonia agricola, e neste sentido officiou um delles ao nosso governo na data de 13 de julho de 1848, communicando-lhc aquella resolução, e pedindo se lhe enviassem as memorias, relatorios, ou quaesquer escriptos, que no ministerio do ultramar houvessem, descrevendo os pontos, que na nossa Africa se olhavam como adequados para aquelle fim. Entre os documentos collegidos, e mandados para Pernambuco, foi lambem a minha memoria, e por ella é que se guiaram os que se resolveram a ir fundar na nossa Africa a sua projectada colonia. O governo nomeou uma commissão em Pernambuco para tratar dos aprestos, adequados ao embarque dos colonos, auctorisando-a a sacar pelas respectivas despesas, e remettendo-lhe além disso ordens da commissão liquidataria das companhias do Grã-Pará e Maranhão, Pernambuco e Parahiba, para pelo seu respectivo cofre se fazerem os precisos adiantamentos. Para occorrer a"s despesas de todos estes arranjos, o governo fez tambem uma proposta ás cortes, da qual resultou a carta de lei de 3 de julho de 1849, pela qual foi auctorisado a despender até á quantia de dezoito contos de réis com a colonia de Mossamedes.   

 A bordo da galera brasileira, Tentativa Feliz, comboiada pelo brigue de guerra Douro, sairam fmalmente de Pernambuco em 23 de maio do mesmo anno 1849 coisa de 300 colonos de ambos os sexos, chegando todos ao logar do seu destino no dia 4 de agosto. Para governador daquelle ponto fora nomeado um official de marinha de muito bom nome, reputação e intelligencia, tal como o capitão de fragata, Antonio Sergio de Sousa, ao qual se deram umas instrucções, por mim feitas e elaboradas, as quaes, verdadeiramente fallando, nada mais são do que uma segunda memoria, complementar da primeira, sobre o modo de realisar a colonisação de Mossamedes. Alguns engenhos de assucar, comprados por conta do governo, acompanharam esta primeira expedição colonial, á qual se seguiu depois uma segunda, que de Pernambuco saiu no dia 13 de outubro de 1850 a bordo da barca Bracharense, igualmente comboiada pelo dito brigue Douro, chegando a Mossamedes no dia 26 de novembro. As despesas desta segunda expedição não as costeou o governo, mas sairam do producto de uma subscripção, tirada por entre os cidadãos portuguezes, residentes em Pernambuco.

Por infelicidade dn colonia do Mossamedes muitos individuos acompanharam estas duas expedições, sendo inteiramente inuteis para uma empresa destas, d'onde resultou que, chegados ao seu destino, immediatamente abandonaram a colonia, infundindo assim um grande desalento pelas murmurações e queixas, que imprudentemente levantaram, algumas vezes com razão, outras sem ella. Além destas, outras contrariedades experimentou a colonisação de Mossamedes, sendo a de maior vulto a guerra, que por uma mal intendida rivalidade lhe levantaram os commerciantes de Loanda c de Benguella. A estes males se vieram depois reunir uma espantosa esterilidade, resultado da fnlta de chuvas e innundações do rio Bero, o mau sustento que o estado fornecia* aos colonos, a mortalidade que por estas causas os perseguiu, a ignorancia dos tempos de semear, e finalmente a falta de sementes. A natural consequencia do tudo isto foi o desalento de quasi todos os colonos, c o imminente risco de se perderem todos os esforços e despesas, que para tão importante fim se tinham feito. Felizmente o tempo e a presistencia de alguns dos referidos colonos por tal modo venceu estas contrariedades, que hoje já nenhum receio me infunde a colonisação de Mossamedes, cujo progresso tem sido bastante sensivel nestes ultimos annos.

A agricultura tem alli tido um successivo augmeuto, particularmente depois que a pratica tem feito conhecer, que as especulações commerciaes nem sempre são tão solidas e proficuas, quanto o amanho das terras. Quatro engenhos de assucar se acham presente"mente montados no districto de Mossamedes, um na povoação deste nome, que o decreto de 26 de março e a carta regia de 7 de maio de 1855 elevaram á cathegoria de villa; outro no Bumbo, onde ha o melhor estabelecimento agricola da colonia, com relação á cultura da canna sacarina e da mandioca ; outro na Equimina, assentando-se o quarto no sitio da Boa Vista, em local onde ha bastante canna, com a outra vantagem de offerecer bons commodos aos lavradores. Além da cultura da canna, os colonos de Mossamedes tambem se tem entregado á cultura do algodão, cuja plantação não tem lido maior desenvolvimento em razão das más colheitas, que houveram ultimamente, não pagando o trabalho do agricultor. Os generos necessarios ao sustento dos colonos não só chega já para alli se manterem, mas até mesmo para exportação, em vista das remessas, que d'alli se tem feito para Loanda, e do que já se vende aos navios balieiros americanos, que em numero consideravel frequentam aquclle porto, para receberem refrescos de vegetaes e gado, do qual tambem ultimamente se tem feito alguma exportação para a ilha de Santa Helena. O facto é que em quanto em quasi toda a parte da provincia de Angola se fez consideravelmente sentir a falta de subsistencias nos annos de 1856, 1857, e 1858, no districto de Mossamedes não só houve para as necessidades dos seus moradores, mas até alguma coisa se exportou dos generos alimenticios. Com tudo isto ha coincidido o desenvolvimento do fabrico do azeite de peixe, pelas muitas feitorias de pesca, que lá se tem estabelecido, o accrescimo das construcções urbanas, e o incessante pedido de terrenos para mais casas.
Segundo a memoria, lançada nos annaes do municipio de Mossamedes, com relação ao anno de 1857, vê-se que a mortalidade fora nulla nos ultimos colonos, idos para aquelle ponto, quando n'outro tempo regulava na razão de 20 por cento. Nos mesmos annaes, com relação ao anno anterior de 1856, se lia já o seguinte, debaixo do ponto de vista de salubridade: « O clima de Mossame«des é hoje um paraiso, em comparação do que ainda era no « anno de 1850; é seguramente o melhor de toda a Africa, é su«perior ao de todo o Brasil, superior ao de muitos logares de « Portugal, e igual ao melhor e mais temperado deste ultimo paiz.» Todo o territorio da circumferencia da villa é agreste e montanhoso, como já disse, sendo apenas susceptivel de cultura nas margens de alguns rios. No Bumbo, distante a E N.E. tres dias de viagem de Mossamedes, já se encontra uma vegetação muito desenvolvida,, tendo arvores e matas não somenos ás do Brasil, com bellas madeiras, tanto em qualidade, como em dimensões. O paiz do Bumbo consiste n'um extensissimo valle, que a E., ou nascente, tem a serra de Chella, assaz elevada, correndo do norte ao sul. A escabrosidade desta serra a torna de difficil subida, tendo para o conseguir de se passar pela beira de muitos precipicios. Galgada a serra, encontra-se o sobado da Umpata, cujo terreno é fertilissimo, e abundante de aguas, com bellissimas campinas, onde os respectivos pretos cultivam milho, massamballa, massango, batata ingleza, e outros legumes, havendo aqui e no Bumbo bastante gado vaccum, e ovelhum. A duas ou tres legoas de distancia da Umpata, c na direcção de E., está o sobado da Huilla, paiz que igualmente tem ferteis terrenos, sendo cortado por muitas ribeiras e rios, cujas margens tem bellas pastagens, onde os indigenas pastoream bastantes manadas de gado vaccum. Ao sul da Huilla fica o sobado do Jau, cujos terrenos, apesar de mais extensos, são todavia de vegetação menos luxurienta, que os da Umpata e Huilla. Outros sobados se seguem ainda, como Mucuma, Hay e Cambos, sendo este um dos maiores em população. A E. dos Cambos encontramse as povoações de Mulondo, Camba e Humbe, na margem d'aquem do Cunene, que por estas terras corre n'uma curva, para ir desaguar no Oceano, pela bahia dos Tigres. O mais extenso e povoado dos sertões, além do Cunene, é o Coanhama, onde poucos brancos tem ido em procura do marfim, que alli se diz abundante. A E SE.

do Coanhama fica a terra do Donga, d'onde em distancia de 4 a 5 dias de viagem para o S. se encontram as grandes minas de cobre, que abastecem todos os sertões limitrophes. Deste metal, que os indigenas fundem, formam elles um vergalhão de um quarto de pollegada de grossura, com cinco palmos de comprido, de que fazem bracelletes para as mulheres, e que enrolado nos braços, a começar do pulso, vae em espiral até ao cotovello.
Por esta rapida descripção do littoral e sertões do districto de Mossamedes poderá-o leitor ajuisar do importante serviço, que fiz ao paiz, em provocar, tanto como empregado, como escriptor publico, a colonisação de um ponto com que assegurei á coroa portugueza tão vastos e ferteis territorios. A este impulso, que provoquei, quanto em mina coube, se tem posteriormente seguido as proficuas medidas, que se tem ultimamente ordenado para aquelle ponto. Considerando a Huilla, em vista das informações, que d'alli lhe tem vindo, como o mais adequado ponto para nelle se fundar uma colonia agricola, para alli se mandaram, a bordo do brigue Sado, vinte e nove colonos allemães, que, por arribada do navio, que do Baltico os conduzia para a America, tinham entrado no Tejo. Chegados a Mossamedes, de lá partiram para a Huilla, cujo terreno lhes agradou summamente, vendo-o tão cortado de ribeiras, e riachos, um dos quaes passa pela frente, e outro pela retaguarda do local das suas respectivas habitações. Escolhida uma varzea fertil, e pouco distante da respectiva fortaleza, deu-se começo á povoação desta nova colonia, procedendo-se ao alinhamento e demarcação das ruas no dia 19 de julho de 1858. O nome de Vista Alegre foi o destinado para esta nova e esperançosa povoação. Pelas recentes noticias, que o governador de Mossamedes dirigiu ao ministerio da marinha e ultramar, datado da Huilla aos 15 de julho do mesmo anno 1858, soube-se que n'aquelle ponto se achava elle residindo para regular os negocios da colonia portugueza o allemã. Entre as obras, a cuja construcção procedéra para beneficio d'ella, figuravam : l.° um moinho de agua paia cereaes; 2.° uma olaria para fabricar tijolo e telha; 3.° uma fabrica de cortumes, propriedade particular; 4.° finalmente uma machina movida por agua para serrar madeira. O mesmo governador affirmava que as colheitas do trigo se podiam alli obter tres em cada anno, em março, maio, e dezembro, semeando-se em janeiro, março, e outubro, c que todos os productos da Europa alli se podiam aclimatar C). Quanto ao estado sanitario dos colonos não podia ser melhor, prova evidente da benignidade do clima. Do Rio de Janeiro linham ido para Mossamedes, a bordo do patacho Paquete do Loanda, dezeseis passageiros, alguns d'elles abastados, nas vistas de se estabelecerem no interior do districto, dedicando-sc á agricultura. Pelos ditos passageiros constava que da mesma cidade do Rio de Janeiro outros mais individuos sabiriam em breve com aquellas mesmas vistas. Para maior segurança dos territorios de Mossamedes mandou-se estabelecer um pequeno forte i.m Porto Pinda, ao sul de Cabo Negro, e na sua proximidade. Por decreto de 15 de julho de 1857 se organisou a força militar da provincia de Angola, devendo ter em Mossamedes o seu respectivo quartel o batalhão de caçadores n.° 3, creado segundo o referido decreto. A primeira companhia deste batalhão sahiu directamente do Lisboa para Mossamedes no 1.° dia de outubro de 1858 a bordo da nau Vasco da Gama. indo na força de 104 homens, incluindo os seus respectivos officiaes, 50 mulheres, e 44 menores. Toda esta força foi destinada a constituir a colonia militar da Iluilla, em conformidade com as portarias, expedidas pelo ministerio do ultramar em 26 de dezembro de 1857. Levava esta colonia comsigo tres contos de réis em dinheiro para as primeiras despesas da sua sustentação, o seu competente armamento, 21 peças de artilheria, polvora em proporção, e mais petrechos ile guerra, importando os objectos militares em 7:262£287 réis, o os não militares em 1:7630337 réis. Já antes da sabida desta força outra tinha partido em 4 de maio de 1858 a bordo do brigue Forttmato com destino á guarnição de Mossamedes. Compunha-se esta ultima força de 80 praças ao todo, não fallando em 400 degradados, nas mulheres e filhos de muitos destes, que tambem foram para Angola na mesma nau Vasco da. Gama. Todas estas providencias devem constituir Mossamedes a segunda povoa  (I j Sem embargo de Iodas cstas vantagens, os colonos allcmães, desavi ndose cuiu o governador de Mossamedes, allegdudo falia de cumprimento nas promessas, (íu" se lhes fizera, abandonaram a colonia, subindo ualli para a America em 1839, perdendo o governo as consideráveis despesas, que com elles tinha ícit". Kra má gente, c impropria para esta colonisaçáo.

ção do Angola, e pude ser que dentro em poucos annos soja a primeira, segundo as lisongeiras noticias, que d'alli tem vindo depois da chegada de todos estes reforços. A estatistica d'aquelle ponto em 1857 era a seguinte: fogos na villa de Mossamedes, Aguada, Boavista, Cavalleiros c Macalla, 91. Predios na villa C8, sendo 34 de pedra, M de adobe, e 23 de pau a pique. As cubalas de palha eram 6. Em construcção estavam 4 predios de pedra, c 14 de adobe. Os predios da Aguada eram 16 de todo o genero, na Boavista 33, nos Casados 5, e nos Cavalleiros e Macalla 3. A população livre era de 275 individuos, sendo 132 brancos maiores e menores do sexo masculino, 81 ditos do sexo femenino, sendo o resto composto de pardos e pretos. Os libertos eram 99, o a população escrava montava a 837 individuos, vindo assim o total de todas as classes e sexos a elevar-se a 1:211 pessons, só na villa de Mossamedes. Á vista pois do exposto concluo que se me não cabe a exclusiva gloria desta esperançosa colonisação em totalidade, cabe-me seguramente em grande parte, sendo eu o que mais que ninguem me empenhei em achar nos vastos dominios de Angola algum sertão, que pelo seu clima, e fertilidade se prestasse ao estabelecimento de colonias agricolas, que com o andar do tempo nos supprissem a falta, que nos fez a separação do Brasil, dando animação, e vida ao nosso frouxo e decadente commercio. Se preenchi ou não as vistas a que me propuz, o tempo é quem o ha de dizer, e sendo pela affirmativa, como julgo que será, tenho para mim que paguei bem à minha patria, não só as despesas, que fizera com a minha educação, mas até o ordenado com que me tem retribuido o meu trabalho como official ordinario da secretaria da marinha e ultramar. Talvez que depois de morto me venham então as honras posthumas, quando já para nada me servem, nem ao menos para me desvanecer com ellas.
Posto que não tão importante como o precedente, um outro serviço prestei ao meu paiz, na firme crença de ter sahido fora das minhas obrigações ordinarias de empregado secundario no ministerio em que tenho servido. Um navio estrangeiro foi abandonado pelo seu capitão n'uma das nossas provincias d'Africa, por duvidas que teve em se submetter aos regulamentos flscaes, lavrando deste abandono um termo, que lhe serviu de titulo parareclamar de Purtugal o pagamento de perdas e damnos, e o de lucros cessantes, com o de tudo o mais, que julgou a bem dos seus interesses, allegando de injustas e parciaes as exigencias, que as auctoridades da respectiva alfandega lhe fizeram. Dentro em pouco tempo dirigiu ao nosso governo a competente reclamação o ministro da nação a que o navio pertencia, tendo eu de responder á energica e altiva nota, que para este fim o referido ministro formulára, e na qual se continham expressões e argumentos de um desafogo, proprio de quem tem por si a força. Vendo eu que se a informação pedida pelo ministerio dos negocios estrangeiros ao da marinha se limitasse somente a dar os simples esclarecimentos, que se exigiam, de certo que pagariamos a importancia da reclamação em questão, entreguei-me de todo o coração e zelo pelo bem do paiz, não a ministrar apenas aquelles esclarecimentos, roas a redigir de facto uma verdadeira nota, que servisse de resposta á do minislro reclamante, nota que elaborei com muito trabalho e esforço da minha intelligencia, expondo fortes e energicos argumentos, para que me foi necessario consultar a nossa legislação fiscal, e ir por mais de uma vez pessoalmente á alfandega grande de Lisboa, para alli me informar das praticas analogas ao caso acontecido em Africa. Pelo officio, que elaborei sobre este ponto, se pode bem ver, ou no ministerio da marinha, ou no dos estrangeiros, o patriotico zelo com que então me conduzi. Verdade é que o ministro reclamante redarguiu á resposta, que se lhe dera, por meio d'uma segunda nota, tanto ou mais forte do que a primeira, de que resultou pedirem-se com ella novas informações, ou antes pedir-se a replica a esta segunda nota ao ministerio da marinha. E posto que já se tivessem dado todos quantos esclarecimentos se podiam dar, quando a questão se reduzisse somente a esclarecimentos, enchi-me de novos brios para rebater as razões de um estrangeiro orgulhoso e insolente, o que fiz com não menos zélo e dedicação pela causa publica com que da primeira vez o fizera. Os argumentos de que me servi, e os trabalhos a que de novo me enUeguei constam do respectivo officio, enviado pelo ministerio da marinha ao dos negocios estrangeiros, officio que até hoje ficou sem resposta da parte do ministro a quem se dirigiu, )le que resultou evitar eu por este modo ao thesouro portuguez o pagamento de uma avultada somma, que talvez pagasse, se não fora o meu allegado zelo e dedicação pela causa publica. Muito maior gloria me coube a mim na sustentação desta questão, do que a que retirou o nosso governo em 1858 na do celebre apresamento da barca franceza Charles et Georges, que sendo evidentemente negreira, e encontrada com todas as provas disso, infringindo as leis do paiz na bahia da Conducia, em Moçambique, o gabinete francez, appcllando vergonhosa e indignamente do campo da razão e da legalidade para os argumentos da força e allegações de um despotismo insolente, não se pejou de enviar duas naus suas ao Téjo, com a intimação, que nos mandou fazer, de se lhe entregar a referida barca dentro de quarenta e oito horas, como effectivamente aconteceu em 23 de outubro de 1858. Não se limitou sómente a esta entrega o jugo, que a França nos impoz por tal motivo, porque além delia, tivemos tambem de lhe pagar a enorme somma de 62:828$100 réis, como indemnisação da captura em questão, sendo ella todavia mais justa do que a materia, que eu tive de defender no caso acima citado. Não digo que a correspondencia do nosso governo sobre a entrega da barca Charles et Georges fosse mal conduzida, mas o facto é que delia não se lirou o resultado da que me passou pelas mãos doze ou treze annos antes, sendo a consequencia disso supportar a nação portugueza um vexame, que tanto deu que fallar em toda a Europa, e tamanho desaire nos acarretou, vexame e desaire de que eu a livrei, alóm do pagamento da respectiva somma, mettido em questões de peor aspecto, que a da citada barca. Eis-aqui pois mais outra prova da minha affirmativa de ter pago ao estado as despesas, que fez com a minha educação, e o ordenado com que me retribuiu o trabalho do meu emprego de official da secretaria da marinha, donde resulta ter igualmente pago á patria o nascimento, que a sorte me deparou no gremio da nação portugueza. Deste modo desempenhei pois as funcções do meu antigo logar de chefe da repartição de Angola, que exerci desde novembro de 1842 até junho de 1851, em que dellc fui demiltido, pela razão e modo por que se vae vêr.  "



http://books.google.co.uk/books?id=FjE5AQAAMAAJ&pg=PA559&dq=mossamedes&hl=pt-PT&sa=X&ei=DaSnUqz4K4yihge1loG4CQ&ved=0CGMQ6AEwCDgo#v=onepage&q=mossamedes&f=false

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A Fundação de Mossãmedes (A Provincia de Angola, artigo de J.T.)


A Fundação de Mossãmedes
(A Provincia de Angola, artigo de J.T.)

Que Mossâmedes foi fundada em 04 de Agosto de 1849, ninguém o ignora. A Câmara Municipal até escolheu esse dia para o distinguir como  feriado da cidade.
Foi na data acima citada que, vindos do Brasil, aportaram à Angra do Negro os primeiros colonos, chefiados por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, português de boa têmpera e bastante culto, que por sinal fez jornalismo em terras de Santa Cruz.
Das vicissitudes e trabalhos por que passaram esses esforçados pioneiros da nossa colonização, talvez nem todos tenham conhecimento, e os que já ouviram falar em tal não podem sequer conceber a admirável grandeza da luta que eles tiveram com as doenças, com as feras e até com os indígenas, para aqui cravarem mais um marco glorioso, testemunho épico da fantástica cavalgada portuguesa através do Mundo imenso.
Houve, a agravar ainda a triste situação dos primeiros colonos, uma falta quase absoluta de recursos de toda a espécie, falta que bem podemos classificar de autêntica pobreza «franciscana».
Foi assim que esteve quase a perder-se, ingloriamente, o trabalho hercúleo desses heróis, avós dos mossamedenses de hoje.
Socorros, auxílios, um pouco de assistência social não lhes foram prestados, e Mossâmedes esteve por um triz  a constituir uma falhada tentativa de colonização, o que seria impróprio de uma raça de colonizadores como a nossa.
Mas, pela mesma razão que os primeiros colonos tinham abandonado o Brasil, outros de lá partiram para Angola com a intenção de lá se fixarem: - nas terras de Além-Atlântico rugia pavorosa e cheia de ódios a campanha nativista e esses obscuros patriótas lusitanos, preferiram, então, abandonar as suas fazendas  e vantagens já adquiridas por entenderem  que a sua Pátria estava acima de tudo. Vieram para Angola, com o fim de desbravar terra portuguesa com o solo ainda inculto. E como aqui, neste cantinho do sul apenas encontraram um inóspito e desolador deserto, a barrar-lhes o caminho do interior,  voltaram-se para o Mar, e esse Mar – a eterna fascinação dos portugueses – foi a sua salvação ! Fundou-se a mais importante colónia de características  marítimas de que nos podemos orgulhar.
Ora, os novos colonos que vieram na peugada dos que haviam chegado em 1849, desembarcaram nestas despidas e calcinantes areias, sob a chefia de José Joaquim da Costa, em 26 de Novembro de 1850.
Sem a segunda colónia, que trouxe  alento, cooperação e  auxilio, a primeira não teria suportado  as durissimas inclemências que a atormentavam.
Depois, os seus esforços conjugados, o seu trabalho árduo e incansável,  valorizado ainda pela vinda de outros mais colonos , chegados anos depois, a pouco e pouco,  permitiram que, passado quasi um século,  Mossâmedes seja uma cidade que ocupa em Angola sob todos os pontos de vista um lugar de extraordinário relevo.
Boletim Geral das Colónias . XIX - 213
Nº 213 - Vol. XIX, 1943, 216 pags.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Apontamentos sobre Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o fundador de Moçâmedes

  1.   

 
 
 
SOBRE BERNARDINO (In: Memórias de Angra do Negro - Moçâmedes- Namibe (Angola) desde a sua ocupação efectiva, de António A. M. Cristão) «...
 
Em 1848, o nosso Império no Brasil vivia horas de indizível agitação: Na cidade de Pernambuco estalara a revolução política. O ódio e a perseguição manifestaram-se de imediato, fazendo sofrer as mais indignas crueldades e degradantes humilhações a compatriotas nossos que ali procuravam ocupação. É, então que, oprimidos cada vez mais, concebem o projecto de fundar em África uma colónia agrícola que possa valorizar o património nacional. Assim Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que mais tarde seria o chefe do primeiro colonato, fica incumbido de apresentar ao Governo Português o arrojado empreendimento que se propõem levar a efeito. Pedem informações detalhadas de relatórios, de memórias e de mais documentos para que pudessem avaliar da região mais apropriada para se instalarem. Pedem, igualmente, auxílio financeiro ao Governo para custear a sua deslocação e aquisição de engenhos para fabrico de açúcar. Com o empenhamento de Simão José da Luz Soriano, chefe da repartição de Angola no então Ministério do Ultramar, junto do Ministro - O Visconde de Castro - , é então garantido todo o auxílio e facilidades necessárias àquele arrojado empreendimento. A verdadeira ocupação desta parcela e, por conseguinte, do que nela se ergueu, deve-se assim e indubitavelmente, à impulsiva decisão, inteligência e heroicidade patriótica daquele que jamais será esquecido saudosamente pelos moçamedenses, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro que, em 13 de Julho de 1848, enaltecido do espírito de demandar terras de África e animado por uma conta de sem recuo endereçou uma carta ao ministro e secretário de estado dos Negócios da Marinha e Ultramar da Nação Portuguesa, escrita em Recife de Pernambuco, onde se pode ler: «...Eu, que livre de orgulho, afirmo poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me a esperar, a ir compartilhar dos trabalhos e reveses que acompanham o estabelecimento de uma colónia, só porque vejo que coligo acarreto algum número, mormente dos mais úteis, que são os que entendem do fabrico dos açucares e plantação de canas e mesmo do tabaco e café pois que vivo em relação a muitos engenhos, tendo neles arranjado vários, e hei-de dedicar-me a conhecer com fundamento o modo mais profícuo de fazer açúcar, de agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do terreno e a tirar da matéria prima toda a possível utilidade, mormente com as destilações que, bem dirigidas, são de sumo interesse. Vª Exª desculpará na certeza de que não o faço porque não esteja persuadido do seu profundo saber, mas porque muitas vezes a lembrança de um homem medíocre faz produzir medidas acertadas». Modéstia! Bernardino não era um homem medíocre. Era um homem de extraordinária visão. Um grande português da estirpe dos «barões assinalados», cujo nome a história registaria com orgulho. Um portugues, que, já nessa altura defendia a tese de que a emigração do País deveria ser canalizada para as suas possessões ultramarinas. Felizmente que a petição de Bernardino foi atendida. A Portaria nº 2063 de 26 de Outubro de 1848 dizia: «Tenho um grande número de cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, no Império do Brasil, feito constar a sua Majestade a Rainha, que desejavam passar para algum ponto das possessões portuguesas, houve por bem em Portaria desta data, mandar expedir providências necessárias para a passagem dos mencioinados portugueses para o lugar das possessões portuguesas em África que por eles for escolhida.» Em 29 de Março de 1849, o Governador Geral de Angola -Adrião Acácio da Silveira Pinto- informava o Ministro da Marinha e Ultramar de ter sido escolhida a província de Angola e o estabelecimento de Mossãmedes para a formação da colónia. Em 23 de Maio do mesmo ano, cento e oitenta colonos (116 homens, 39 mulheres e 25 crianças), com Bernardino a chefiar, deixam Pernambuco, rumo a Mossãmedes, embarcando na barca brasileira «Tentativa Feliz» e no brigue de guerra «Douro». Foi de facto uma tentativa feliz. Bernardino faz assim a descrição dessa viagem aventurosa: «...Foram os brasileiros quem fez lembrar aos portugueses que escusavam de melhorar terras alheias, quando tinham ainda muitas suas onde podiam procurar fortuna sem sofrerem insultos. E não pareça que é exagero, não, que lá está o dia 23 de Maio deste ano - dia em que o brigue de guerra «Douro», comboiando a barca «Tentativa Feliz» que a seus bordos conduziram 180 colonos, saiu do porto do Recife, à vista de numerosíssimo povo, para falar tão alto, atento o número de testemunhas, que bem se pode aplicar a este respeito o que sobre outrora disse o nosso sempre admirável Camões: «Estão pelos telhados e janelas Velhos e moços, donas e donzelas...» Levando consigo máquinas, instrumentos rurais e seus haveres, e até para nada lhes faltar, víveres para os primeiros tempos, era de pasmar ver aquela gente sair de uma bela cidade, divisando-se no rosto de todos a maior alegria, mesmo sabendo que trocavam uma habitação cómoda e divertida, para irem desembarcar num areal, onde o seu primeiro cuidado seria o de edificar uma cabana para se abrigarem das injúrias do tempo. A todos se ouvia dizer, ao desaparecimento da terra, o que Castilho disse nos seus «Ciúmes de bordo»: «Sumam-se à vista Os últimos oiteiros Dessa terra falaz...» E se sofrimentos houveram na viagem, nem por isso se ouviram queixas. Algum génio mau quis apurar-lhes a paciência: ventos contrários e bonançosos, com repetidas calmarias, tornaram a viagem longa; todos os colonos iam mal alojados e a epidemia das bexigas desenvolveu-se a bordo, chegando a haver, simultaneamente, 56 doentes, entre colonos e a tripulação. Três adultos e cinco menores pereceram. Não havia facultativo: para os atender tanto exerciam tais funções o encarregado de governar a colónia como o capitão da barca, coadjuvados por um barbeiro e dirigidos por um cirurgião do «Douro» - Francisco António Chagas Franco - o qual logo que da barca se fazia sinal de que era necessária a sua visita, vinha a bordo. Veio quatro vezes com tal prontidão e tão boa vontade que ão sei qual possa elogiar-se mais , se ele em vir, se o comandante em o mandar. No dia 1 de Agosto entrou em Mossãmedes o Brigue «Douro» e, no dia 4 do mesmo mês, a barca «tentativa Feliz». com 74 dias de viagem. Os colonos vêem outra vez realizado o que o nosso poeta disse outrora aos seus heróis ascendentes: «Já sois chegados, já tendes diante A terra de riquezas abundante...» Enquanto os colonos e os majores Horta e Garcia se instalavam e examinavam os terrenos aptos para a agricultura, Bernardino seguiu, no dia 16 do mesmo mês, a bordo do brigue «Douro», para Luanda, a fim de se avistar com o Governador Geral. Chegado no dia 22, ali se demoraria cerca de dois meses. O Governador recebeu-o «com as mais decididas provas de contentamento, que igualmente foram manifestadas por todas as autoridades e habitantes da cidade.» E Bernardino termina o seu relato: «Esta empresa bem se pode chamar das incredulidades desfeitas, portanto: 1º) Parecia inacreditável que houvesse quem representasse o Governo de S. M. , porque muitas vezes haviam acontecido no Brasil casos iguais aos dos dias 26 e 27, e nunca houve o menor movimento: mas alguém representou. 2º) Parecia inacreditável que o Governo pudesse mandar navios para proteger os seus súbditos: mas mandou. 3º) Parecia inacreditável que ele pudesse fazer despesas para coadjuvar e transportar para as possessões africanas os que para elas quisessem seguir: mas pôde. 4º) Parecia inacreditável que houvessem colonos que se arriscassem a vir para África, depois do que havia acontecido a outros: mas houve. 5º) Parecia inacreditável que em Mossãmedes houvessem providências tomadas para a recepção do colonos, atentos ao pouco tempo e ao estado financeiro da província: mas houve. 6º) Parecia inacreditável que houvessem bons terrenos n local escolhido: mas houve. Resta ainda uma incredulidade a vencer, a qual afecta a todos e vem a ser: se com efeito desta vez se montará a agricultura nesta velha parte do mundo antigo de forma a que se lhe façam trajar as galas de uma bela jovem; eis o que a breve espaço de um ano há-de resolver, no fim do qual se poderá dizer como Camões: «Que verá tanto obrar tão pouca gente...» Pelos seus incontestáveis méritos Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro é leito, por maioria de votos, em 14 de Outubro de 1849, para o Conselho Colonial de Mossãmedes. Esta qualidade reforça o prestígio do ousado português. Todos lhe obedeceram. Todos o reconhecem como chefe. Todos acatam, esperançadas as suas ordens. pelos colonos são distribuidos os terrenos incultos do rio Bero. Escolhe-se o Vale dos Cavaleiros para instalação de engenhos agrícolas. Começa o «fervet opus», como diz o próprio Bernardino: «É um bulício. Todos edificam casas na povoação que escolheram para habitar: outros nas faldas da serra dos Cavaleiros (de basalto laminado) no sítio chamado dos Namorados e que dista uma légua; outros roteiam terras nas hortas, outros no sítio da Olaria, onde se vai fazer tijolos e telhas; outros na Várzea da união, duas léguas longe dali; outro no fim co vale dos Cavaleiros, que dista três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios sacarinos: lá se vê um carro carregado de caibros (barrotes de madeira), ali pretos conduzindo junco e tábua, acolá as autoridades, montadas em bois, percorrendo e medindo os terrenos: noutra parte se quebra a pedra que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas crescem visivelmente; a capela de Santo Adrião antes de um mês ficará ponta de paredes; enfim, ou antes de pouco tempo teremos de ver Mossãmedes uma sofrível povoação, e seus arrabaldes bem agricultados, ou se ficará o «mons parturiens» do velho Fedro». A sua objectividade sensata e clássica de escrever é própria de um Grande português, de um Grande Chefe. Embora tudo pareça estar a correr de feição, a ele e aos colonos, para ele não era bom sinal que assim estivesse. Sempre os reveses estão na génese dos grandes cometimentos. Graves dificuldades surgiram. primeiro a inadaptação dos colonos. Depois a estiagem de longos meses. As sementes não seriam das melhores, nem haviam sido lançadas á terra na altura mais propícia. a terra, habituada á preguiça da infecundidade, negava-se a produzir. O desalento instala-se na alma dos colonos. É então que Bernardino houve como Moisés relativamente ao seu povo «Antes fossemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas das carnes e comíamos pão com fartura. Porque nos trouxeste a este deserto , para matar á fome esta multidão?». É neste transe difícil que se revela a indomável força de vontade de Bernardino, e sua certeza de vitória. No meio do seu povo exclama: «Só será salvo o que preservar até ao fim!» Por esta altura, uma colónia composta de 145 emigrantes portugueses, sob a direcção de José Joaquim da Costa, deixa o Brasil a 13 de Outubro de 1850 e chega a Mossãmedes a 26 de Novembro do mesmo ano. A esta gente se fica a dever parte do êxito agrícola que a partir daí se obteve, pelo grande ânimo que deu aos primeiros colonos, unindo-se-lhe com vivacidade. Não tardou que outros se viessem juntar, provenientes, especialmente da ilha da Madeira (220 a bordo do vapôr Índia, chefiados por D. José Augusto da Câmara Leme), já que desta mesma origem era avultado o número dos que se achavam nas terras do planalto do Lubango, dada a conhecida fertilidade do seu solo a par do seu óptimo clima, em nada diferente ao da sua ilha. Mais tarde sucederam-se-lhes outros vindos da Metrópole. O fluxo mais importante , sob o ponto de vista piscícola, foi o dos povos do Algarve, por lhes ter chegado ao conhecimento, quanto de rico em peixe era o seu mar e até, quanto mesmo era de bonançoso e nada de temer. Sabiam-se conhecedores das artes de pescar e das que pensavam em vir a instalar ali. Levaram consigo os aviamentos de pescar com linhas de certa robustês, anzóis de vários tipos para a pesca de pequenos e grandes peixes, não só da superfície como do fundo, chumbadas, roletes de cortiça, cabos de variadíssimas espessuras e até modelos de covos para aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta, etc. etc. Mas o tempo impiedoso corria célere. A pesca restringida a uma simples rede que não ia além de cem braças de comprimento e alada de terra a pulso estava só a dar o bastante para o consumo do povo do colonato. Havia que aumentar a quantidade de pescado para que também viesse a dar para abastecer o interior e até os povos dissiminados pela vizinha província da Huíla. A ânsia de progredir estava no ânimo de todos. Os pequenos barcos que ali existiam não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais que para ali viessem instalar os seus estaleiros, de maneira que ali construissem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na várias redes e pescar. A convicção do entusiasmo convence outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc. E foi ssim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peiroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se numa das praias junto do morro da Torre do Tombo. Em 1856, com a existência de 36 casas de pedra e 8 de adobe, que albergavam parte da população, nasce o Município de Mossãmedes. Terá de reconhecer-se que foi às primeiras colónias de emigrantes de Pernambuco que se ficou a dever o verdadeiro incremento do local conhecido por Mossãmedes. A glória de não só haverem erguido um Distrito que se notabilizou, como também pel facto de terem iniciado, a preceito, a agricultura da região: horticultura, fruticultura, cultura de algodão, cana sacarina para produção de açucar e à industrialização de pescado. também é de reconhecer que foi aqui que nasceu a primeira tecelagem da Província, embora só com um fuso, para o fabrico de tecido grosseiro dada a qualidade das fibras ao seu alcance. Segundo Duarte Pacheco. à medida que se progredia para sul da costa africana, esta ia-se tornando cada ve mais escassa em arvoredo e em moradores. Nas alturas de entre Porto Alexandre e a Baía dos Tigres a «terra eh baixa & maa de conheser» e mais adiante a navegação costeira torna-se difícil. Nestas paragens pacheco refere a existência de «gente pobre que se nom mantem nrm uiuem senom pescaria» e que esses negros faziam «cazas com costas de baleas cobertas com seba do mar» lançando-les por cima areia «& aly passam sua triste uida». In: Memórias de Angra do Negro - Moçâmedes- Namibe (Angola) desde a sua ocupação efectiva de António A. M. Cristão

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PERNAMBUCO E ANGOLA
...«A história da emigração para Angola de grande número de portugueses residentes em Pernambuco, em 1849 e 1850, ainda não está conhecida com pormenores, embora existam alguns trabalhos a respeito. O episódio está ligado à campanha anti-lusitana que precedeu a Rebelião Praieira. A campanha não limitou-se, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas foi até à agressão física e ao assassínio de portugueses. Em 13 de julho de 1848, um dos portugueses fixados em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, dirigiu um memorial ao governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas aqui e informando que muitos deles estavaminteressados em transferir-se para outro sítio, onde fundassem uma colônia. Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano que se interessou em atender o pedido, indicando a região de Moçâmedes, no Sul de Angola, como local para se fixarem. De Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos emigrantes naquele lugar. O Diario de Pernambuco de 31 de janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário), comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferirpara a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objetos pessoais; "instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colônia a ser fundada e ummensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado (19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata Antônio Sérgio de Sousa (depois Visconde de Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor Antônio Sérgio), governador da Colônia a ser estabelecida em Moçâmedes. Aqueles dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao Recife pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus oficiais, sem distinção de nacionalidade, muitas pessoas que e tão surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se ali, ou na sua aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as praias e cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no Diario de 10.II, seguido de vários outros, no mesmo jornal de 15 e 16.II.1849. Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto" referente a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice 1.192, que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos outros documentos a respeito, existentes naquele Arquivo. O ataque ao Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diario de Pernambuco de 27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para permissão de embarque). No Diario de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22; no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro: "Retira-se para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levando em sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se". BIBLIOTECA VIRTUAL José Antônio Gonsalves de Mello · http://www.fgf.org.br/bvjagm Proibida a reprodução sem prévia autorização. Fonte: MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956 FONTE ....................................

O FUNDADOR DE MOÇÂMEDES

A 23 de Maio de 1849, finalmente a concretização do projecto. Partia de Pernambuco, a barca "Tentativa Feliz" e o brigue da marinha portuguesa "Douro" com 166 portugueses a bordo, rumo ao estabelecimento de Moçâmedes, na Província de Angola, então província do reino de Portugal. Na viagem, sucumbiram, com bexigas, 3 adultos e 5 crianças. Após 73 dias de viagem chegam ao destino. Entram na baía de Moçâmedes e avistam um vasto areal servido por um rio seco, o rio Bero, que mais tarde Bernardino chamou de Nilo de Moçâmedes, porque na época das chuvas a água das enxurradas invade toda a terra, trazendo os fertilizantes naturais para novas sementeiras, num microclima temperado. Era ali que os novos colonos íam reconstruir as suas vidas em tranquilidade, em paz e em território pátrio. Era o dia 4 DE AGOSTO DE 1849, que ficou na História como o dia da FUNDAÇÃO DE MOÇÂMEDES. Houve recepção de boas vindas, discurso oficial pelo governador do distrito na presença das autoridades tradicionais: sobas Mossungo e Giraúl. Ficaram alojados em barracões construídos de pau a pique, cobertos de palha e amarrados com mateba ou cordas de cascas de árvores. No dia seguinte foram conduzidos às áreas agrícolas onde foram distribuídas as terras. Bernardino seguiu para Luanda no dia 16 de Agosto afim de apresentar cumprimentos ao governador geral. No dia 21 de Outubro foi a instalação, no Vale dos Cavaleiros, dos engenhos de açúcar: às 7 da manhã içou-se, no local, a bandeira portuguesa, na presença do governador do distrito, com uma salva de 21 tiros. A maior parte dos colonos ali compareceu e houve arraial com largada de foguetes. Almoçaram e jantaram em barracas improvisadas. Bernardino ergueu a sua habitação no Sítio da Bandeira, (designação que ficou na tradição popular), no Vale dos Cavaleiros.No dia 13 de Outubro foi investido num cargo no Conselho Colonial de Moçâmedes. Faz viagens de estudo, contacta sobas, colabora com as autoridades, sobe a Chela, entra na Huíla, visita a lagoa dos cavalos marinhos, que fica a 4 léguas ao norte de Lopolo, onde os rios gelam em Maio e Junho. Já lá existem alguns colonos. Outros irão fixar-se noutras áreas do planalto da Huíla em consequência do estudo feito. Uma vida de líder, de rija têmpera, apostado em tudo fazer pela "sua" colónia. Mas a natureza não se compadeceu dos recém-chegados. Uma estiagem de 3 anos secou as terras, perdendo-se todas as sementeiras. A 1ª. colónia luta com falta de tudo, desde alimentos a vestuário. A situação é desesperada. Alguns opinam mudar a colónia e comentam: "Antes fôssemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas cheias de carne e comíamos pão com fartura, do que padecer com fome neste deserto." Bernardino mantém-se firme e lança a máxima: "Vence quem perseverar até ao fim".O governador do distrito oficia a desesperada situação dos colonos. Há um intenso movimento de solidariedade em Luanda e em Benguela, promovido pelas respectivas câmaras municipais. Os víveres, vestuário, dinheiro e outras ofertas chegam finalmente a Moçâmedes e tudo se vai normalizando. Entretanto, em Pernambuco, os portugueses organizam, a expensas suas, uma segunda leva de colonos (125) para se dedicarem á agricultura em Moçâmedes, chefiada por José Joaquim da Costa. Viajam na barca Bracarense e no brigue Douro, da marinha portuguesa. Chegam a Moçâmedes no dia 26 de Novembro de 1850. Dedicam-se também à pesca. Lançam mão a pessoal conhecedor da técnica de escalagem e secagem do peixe que trabalhou na feitoria montada no estabelecimento pelo olhanense Cardoso Guimarães, 7 anos antes. Bernardino reconhece que os colonos conseguiram vencer as adversidades e o deserto. São o maior exemplo de perseverança em toda a Província.Moçâmedes engradece-se ràpidamente e é elevada a vila por decreto de 26 de Março de 1855. Em 1857 já existem 16 pescarias onde trabalham 280 escravos. Ao festejarem o décimo aniversário da chegada da colónia, no dia 4 de Agosto de 1859, verificaram a existência de 83 propriedades agrícolas nas margens do rio Bero, 3 no Giraúl, 2 no Bumbo, 3 em S. Nicolau, 1 no Carujamba, 3 no Coroca, 7 na Huíla. Tinha-se materializado o sonho do Barão de Moçâmedes, Luz Soriano e Sá da Bandeira, de fixar populações nas regiões a sul de Benguela. Foi graças à liderança forte de Bernardino que esse desiderato foi possível. Mas havia uma outra luta que todos eles estavam empenhados: a abolição da escravatura.Bernardino não permite na sua fazenda mão de obra escrava. Bate-se pela abolição da escravatura. Escreve em 1857: "os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis. Eduquei-os com boas maneiras e não com castigos bárbaros e por isso não me fogem e vivem satisfeitos. Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores com iguais direitos e obrigações". Em 1858 Portugal decretou que, passados 20 anos não poderia haver escravos; mas, 11 anos depois, em 1869, aboliu o estado de escravidão. Sabe-se que Bernardino foi generoso para com os companheiros mais desafortunados. A sua casa fora uma espécie de hospedaria ao visitante. Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 1871. Tinha 62 anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ído em serviço da comunidade. Causa da morte: uma pneumonia dupla. Não se sabe o local, no cemitério, onde foi sepultado. Memoriais: sòmente o grande quadro a óleo no salão nobre da Câmara Municipal e um busto muito simples no jardim, plantado cerca de 90 anos depois da sua morte. As autoridades portuguesas não prestaram a homenagem devida. Os sobas Mossungo, Giraúl, Moeni-Quipola e muitos outros deviam ter dado voltas nas sepulturas pela falta de reconhecimento das autoridades locais ao amigo que pugnou pela justiça e igualdade entre os povos e não admitia escravos na sua fazenda, porém quase ostracizado pelas autoridades da terra. O povo é que nunca o esqueceu e demonstrava-o nas competições interselecções quando a claque o invocava em uníssono BER...NAR...DI...NO, BER...NAR...DI...NO, para que a sua alma ajudasse a alcançar a vitória. A história da vida de Bernardino irá perder-se como papéis imprestáveis nas prateleiras de algum arquivo. A guerra civil de Angola após 1974, entre os movimentos de libertação, criou uma nova diáspora em Portugal: a dos filhos de Moçâmedes. Nunca mais será invocado o seu nome na cidade que fundou. A população que o invocava e o respeitava já lá não se encontra a viver. Criou raízes em Portugal e só a visita para matar saudades da infância ou rever todo um passado deixado para trás. Acreditemos que em algum ponto do universo, exista plasmado, um registo eterno de vidas justas e verdadeiras de heróis humanistas, como foi a vida de Bernardino, para que a ciência um dia a possa trazer de volta e ajudar na concepção de um Homem novo que esta Terra tanto necessita. Um dia visitou Moçâmedes um amigo da família de Bernardino. Esteve na Fazenda dos Cavaleiros. Um negro idoso apontou a ruína duma casa onde muitos anos antes teria vivido um branco. Não se lembrava do nome. Num alto, a ruína domina toda a extensão da terra, numa vigília constante de mais de uma centena de anos. É também o Sítio da Bandeira onde os colonos íam beber a Pátria Portuguesa, naquela terra adoptiva de Angola e onde foi sonhada uma cidade: a cidade de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe da República de Angola. Moçâmedes foi elevada a cidade em 1907, 36 anos após a morte de Bernardino.
publicado por Cláudio Frota em www.memoriaseraizes.blogspot.com
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PERNAMBUCO E ANGOLA (…) A história da emigração para Angola de grande número de portugueses residentes em Pernambuco, em 1849 e 1850, ainda não está conhecida com pormenores, embora existam alguns trabalhos a respeito. O episódio está ligado à campanha anti-lusitana que precedeu a Rebelião Praieira. A campanha não se limitou, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas foi até à agressão física e ao assassínio de portugueses. Em 13 de Julho de 1848, um dos portugueses fixados em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, dirigiu um memorial ao governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas aqui e informando que muitos deles estavam interessados em transferir-se para outro sítio, onde fundassem uma colónia. Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano que se interessou em atender o pedido, indicando a região de Moçâmedes, no Sul de Angola, como local para se fixarem. De Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos emigrantes naquele lugar. O Diário de Pernambuco de 31 de Janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário), comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferir para a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objetos pessoais; "instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colônia a ser fundada e uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado (19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata Antônio Sérgio de Sousa (depois Visconde de Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor Antônio Sérgio), governador da Colônia a ser estabelecida em Moçâmedes. Aqueles dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao Recife pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus oficiais, sem distinção de nacionalidade, muitas pessoas que e tão surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se ali, ou na sua aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as praias e cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no Diario de 10.II, seguido de vários outros, Page 3 BIBLIOTECA VIRTUAL José Antônio Gonsalves de Mello · http://www.fgf.org.br/bvjagm Proibida a reprodução sem prévia autorização. no mesmo jornal de 15 e 16.II.1849. Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto" referente a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice 1.192, que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos outros documentos a respeito, existentes naquele Arquivo. O ataque ao Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diario de Pernambuco de 27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para permissão de embarque). No Diario de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22; no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro: "Retira-se para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levando em sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se". Fonte: MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956. Tirei DAQUI
................................................ SOBRE AS FOTOS DESTA POSTAGEM: As três primeiras fotos mostram-nos o busto de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o fundador da cidade de Moçâmedes, numa altura em que a Avenida da Praia do Bonfim, ainda não possuia palmeiras, ou seja, nos finais da década de 50, início de 60. As três fotos seguintes mostram-nos o local onde o referido busto foi colocado, o local mais nobre da cidade, ou seja, a Avenida da Praia do Bonfim, que aqui nos surge em todo o seu explendor diurno e nocturno. Sempre me fez confusão sobre qual o critério que teria levado as autoridades competentes darem o nome de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, a um rua de somenos importância, perpendicular ao mar, que ligava a Avenida da Praia do Bonfim à Rua da Fabrica. Quanto ao busto, como se pode ver pela 3ª, 5ª, e 6ª fotos, este foi arrancado da coluna que o suportava após a independência de Angola, restando apenas a coluna que o suportava. Hoje, o busto do fundador de Moçâmedes, bem como o quadro a óleo, repousam com outros espólios do tempo da colonização portuguesa, no interior de uma sala-museu, nos Paços do Concelho da Câmara Municipal da cidade. Apraz registar aqui que ainda hoje as autoridades mantém o 4 de Agosto como o dia da fundação de Moçâmedes e continuam com a tradição das Festas do Mar. Encontrei na Net esta passagem significativa das comemorações na cidade do Namibe do dia da fundação da cidade de Mossãmedes: 4 de Agosto
«De Luanda partiu um voo com mais de 80 pessoas, que se integraram nas actividades locais de forma «alegremente contagiosa». Valeu a excursão, liderada por elementos que organizaram os festejos em 2005. Mas valeu mesmo foi a camaradagem entre todos os naturais e amigos do Namibe, residentes e não residentes, membros do Governo e cidadãos comuns que às actividades se decidiram juntar. Curiosidade foi um grupo de (novos) amigos que, ao saberem da excursão decidiram juntar-se a nós sem qualquer vínculo com a terra. Tanto quanto sabemos, foi uma ótima experincia tanto para eles como para nós, que esperamos sirva de exemplo para que Angola se (re)comece a descobrir.
No dia 3 houve debate acerca dos dias de ontem, hoje e amanhã, muito participativo e cheio de ideias apresentadas pelos jovens residentes no Namibe. Houve também missa, exposições e desfile de embarcações pesqueiras. Depois vale falar da festa de 4 para 5 no salão do Sporting, da Tertúlia na sede da Cultura e do Moio na Estufa Municipal. Nestes últimos participaram artistas naturais e amigos, tendo-se destacado de entre outros a Banda Odisseia, Akapanan, Bigu, Kangato... Ouviram-se poemas de Neco Manjericão entre outros, .... Namibe, Namibe, Namibe... cantaram muitos naturais e amigos, ...da minha saudade, cidade de Angola, Angola Nação (Raul Pequenino, para quem é desse tempo).
Quanto ao grupo de excursionistas, teve também a oportunidade de visitar a "Lagoa do Arco", e de entregar algumas ofertas recolhidas ao longo do ano. Para os detalhes da excursão, fica aqui um apelo aos mais "participativos" para que enriqueçam estas linhas. Contamos também com a publicação das fotos.
Um Kandando,
Maísa Tavares» in NAMIBEONLINE

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008


Garcia, por terra .



Terras do Fim do Mundo - Campanhas do Kuamato (1905,1906,1907)

Posto de socorros

Posto de socorros da face direita do acampamento da Môngua

Terras do Fim do Mundo
- Campanhas do Kuamato (1905,1906,1907) -

Mestre José Carlos de Oliveira*
Deste documento faz parte um documentário, composto por cerca de 150 fotografias relacionadas com o assunto, criteriosamente seleccionadas. A realização audiovisual foi criada para ser exibida em complemento ao entendimento do espírito do tempo em que os factos se passaram. Sem esse suporte, torna-se mais difícil qualquer abordagem. Porém tanto o documentário como o presente artigo reflectem o ângulo de visão e de opinião do autor que, não por acaso, é antropólogo.
Tal como vem acontecendo há 45 anos, os Ex-Instruendos da classe de 1959 da Ex EAMA (Escola de Aplicação Militar de Angola) de Nova Lisboa, mais uma vez se reuniram, e diga-se em abono da verdade, para que se saiba, todos fomos incorporados em companhias Indígenas.
A meio da última confraternização (2005), numa troca de palavras com um velho e grande companheiro, no caso o Coronel Catolino Dias Pinto, (sem qualquer desrespeito pelos restantes) lamentava-me eu, da actuação menos própria de alguns militares. Em resposta, recebi uma grande lição “Zé, não te esqueças, antes de militares são homens, e algumas características menos dignas, também se encontram inscritas na nossa natureza humana…
E ao começar pela abordagem dos valores morais, que teimam em pautar a atitude dos homens e das mulheres, pertençam eles à Nação que perten­cerem (no sentido de chão, de país, de terra dos pais) lembrei-me daqueles que, dum lado e de outro, nos antecederam nas vicissitudes da vida militar.
Nesta Zona de África tudo começou para os portugueses por volta de 1485. Diogo Cão ia dando continuidade às ordens dos seus maiores, percorrendo as etapas necessárias, estabelecendo os respectivos contactos, que facilitariam o posterior encontro com o “Adamastor”. Na sua segunda viagem, colocou o padrão do Cabo Negro1 situado perto da povoação de Pinda e de Porto Alexandre, entre os paralelos 15 e 16 de latitude sul.
A sul da costa de Moçâmedes situa-se a enseada da “Angra do negro” conhecida pelos ingleses por “Little Fish Bay”, mas que para os naturais sempre foi conhecida como Bisungo‑Bitolo. As embarcações portuguesas ron­dariam estas paragens à caça de baleias e na rapina de “peças” (escravos), havendo notícias da presença dos portugueses no século XVII. Terá sido por volta dessa altura que um português deu o nome de Moçâmedes à Baía, embora estas informações sejam muito obscuras. Outras mais concretas dão notícia de uma expedição comandada pelo rico sertanejo Gregório José Mendes na patente de Sargento-mor das ordenanças.
Incumbido de actualizar informações das rotas do comércio do interior, e por outro lado corrigir a infeliz incursão da expedição marítima do Tenente de mar António Valente e do Tenente-coronel Pinheiro Furtado. Ousaram explorar terra depois de arribar em 3 de Agosto de 1785 a Angra do Norte. Foram assassinados quando exploravam a margem do Bero.

Segmento de carta geográfica de 1907 com localização das Terras do Fim do Mundo “Kuamato”
E tudo isto porque tinham sido incumbidos pelo governador da zona para explorarem a possibilidade de criarem ali um possível presídio 2. Sempre que os exploradores europeus, de qualquer potência colonizadora, menosprezaram a inteligência dos nativos, sofreram as respectivas consequências, acabando com frequência por morrer inutilmente.
Todo um passado recente dizia aos potentados quão perigosa se tornaria a permanência militar dos brancos na zona. E note-se que então como hoje, fazer incursões não era difícil, a dificuldade estava em permanecer nos locais avassalados. O adversário sabia memorizar as circunstâncias. Quem invadia, tratando-se de europeus, não estava minimamente adaptado ao clima, à geografia e era desconhecedor quase absoluto dos trilhos de contacto com as populações. Foi assim também nos primeiros dois anos da guerra colonial vivida a partir de meados dos anos cinquenta, já lá vão outros cinquenta anos.
Um astuto, ousado e conhecedor sertanejo, António Guimarães Júnior ofereceu-se, já em 1839 para fundar um estabelecimento em terras de Moçamedes. O objectivo era o de comercializar, carne salgada, fabrico de sola, uma vez que nos nativos eram possuidores de imenso gado bovino.
Todavia não podemos esquecer que estes privilégios concedidos pelo governo tinham por detrás, para além do lucro, a espionagem a favor da implantação do domínio português.
O elemento militar português, ou o que por tal passava, era ainda em 1845‑1848, mais do que nunca o escudo do comércio dos grandes negociantes de Luanda e Benguela. E estes, por sua vez, contavam com a resistência e coragem dos seus pumbeiros e aviados, comerciantes ambulantes, negros mestiços libertos ou forros e mesmo até escravos que deambulavam pelos mercados do interior, tanto os já afectos aos portugueses como aqueles em que os europeus ainda pagavam pela permissão de comprar e vender. Estas relações explicam em grande parte a continuidade de um sistema de trocas (álcool armas, pólvora, panos, etc.) a que correspondia um equilíbrio económico que não conhecera substituto em África.
A grande força dos portugueses provinha da quase total ausência de concorrência comercial e política… Só estava seriamente ameaçado, a norte das possessões reais ao longo do que os portugueses chamavam a Costa do Norte. Era grande e muito experiente a habilidade dos armadores “estáticos” de Luanda e Benguela ao utilizarem a resistência e coragem dos seus pombeiros e aviados, negros mestiços libertos ou forros e mesmo até escravos, quando não eram até degredados, foragidos ou não, como aconteceu com João Brandão e José do Telhado.
Deambulavam pelos mercados do interior, tanto os já afectos aos portugueses como aqueles em que os europeus ainda pagavam pela permissão de comprar e vender. Estes agentes itinerantes iam funar (leia-se praticar o comércio ambulante) pelos mercados do interior no sertão já subjugado ou pelos ainda insubmissos potentados. A perpetuação do sistema de trocas (álcool, armas, pólvora, panos etc.) correspondia a um equilíbrio económico que não conhecera substituto em África.
Um dos principais conflitos residia na oposição que os comerciantes faziam aos militares. Tentavam a todo o transe transformar a transferência de poderes fiscais no sertão. Os missionários por sua vez não viam com bons olhos a ocupação militar, pressentiam as razias. Todos, sem excepção, desconfiavam de todos.
São do General Norton de Matos as seguintes palavras: A 1ª Grande Guerra fez desaparecer o enorme império Austríaco do mapa da Europa, formando com ele diversas nações, no meio das quais a Áustria ficou mínima em território e população, sem finanças próprias, servindo a ensaios e experiências políticas, quase como uma curiosidade de museu3.
E diz mais: Que mandou uma carta a 1 de Janeiro de 1913 ao ministro das colónias de então com os seguintes dizeres:
Desejo-lhe um ano novo cheio de venturas. Venho pedir-lhe que leia o livro de F.Von Bernhardi. A Alemanha e a próxima guerra que foi posto à venda nos fins de 1911. Sei que V. Exa., lê correctamente o alemão, mas já há deste livro uma tradução inglesa4.
Nos tempos que antecederam a Grande Guerra estava a Alemanha ocupada na sua fantástica obra a federação Central Europeia. Para tanto teria que empregar os meios julgados convenientes alargando os seus territórios coloniais em África. Ocorreram acontecimentos que mostravam a possibili­dade da Alemanha obter grandes territórios em África e na América do Sul em consequência de negociações pacíficas subjacentes com a crise financeira e política Portuguesa…
Apresentava-se assim uma oportunidade excelente para se apoderar das colónias portuguesas mais valiosas, embora se tenha dito que a Inglaterra depois de ter chegado a acordo com a Alemanha sobre a partilha das colónias Lusitanas, garantiu a Portugal, (por meio de uma convenção especial) a posse de todas as suas colónias.
Continuam as transcrições, “as terras de África, que terão de passar para a nossa posse devem de ser encaradas sobre dois aspectos: desejamos que umas sejam próprias para a colonização alemã, para a fixação dos colonos germânicos e outras que sejam fornecedoras de matérias-primas e constituam mercados dos produtos alemães”.
Não devemos, porém perder de vista a absoluta necessidade de não enfraquecer na África o elemento germânico, espalhando os colonos ou os comerciantes pelos territórios africanos. Temos de os reunir em blocos compactos, em centros políticos de gravidade, próprios para a criação de mercados das nossas exportações, para a difusão da cultura alemã.
Foi contra este Golias germânico, entre outros que o pequeno Portugal teve de se haver. De que lado enfileirar então? A coabitação, a dominação e a influência dos Portugueses, por antigas que fossem, podiam a todo o momento ser contestadas pelos seus súbditos, vassalos e vizinhos.
A disenteria, a malária, o escorbuto, a filaria, a tuberculose faziam as suas razias nas tropas expedicionárias, àa quais não faltava a semente da desunião. Não admira portanto que um dos piores revezes tivesse acontecido em Setembro de 1904 com os Kuamato. Um guia ovimbundo que fora deportado para o Humbe5 levou-os a cair numa emboscada em Umpungo.
Guerreiros Kuamato Foto do então Alferes Veloso e Castro 1905
Os guerreiros Kuamato, munidos de excelente armamento, muito dele conseguido com a venda de gado, mais para o sul do que para o norte… eram, e continuam a ser, possuidores de excepcionais qualidades militares. As populações vizinhas, juntavam‑se a eles, constituindo a temível Liga Ovampo, sempre que era necessário combater o inimigo comum, o branco.
Como sempre, os Kuamato quando entravam em contacto com os inimigos e em especial contra os portugueses mantinham-se ocultos entre as árvores, tal como aconteceu com a expedição do Comandante Aguiar. Começaram por disparar sobre os oficiais e depois avançaram. A cavalaria, carregou sobre as árvores e perdeu as montadas, tudo aconteceu como em 1891. Os Kuamato estavam a 100 150 metros e tinham concentrado um poder de fogo invulgar nos confrontos bélicos em Angola.
Pior que tudo, o Comandante Aguiar mandou usar a artilharia, as peças mal apontadas dispararam sobre os sobreviventes, que saíam do mato. Naquela ratoeira os Kuamato não fizeram prisioneiros acabando por dar a morte aos últimos sol­dados que ainda resistiam.
Foto do Alferes Veloso e Castro campanhas do Kuamamto 1905
Por volta de Agosto de 1904 todos os Ovambo pressentiam6 que algo acontecia com o Exército Português estacionado na zona. Preparavam uma grande guerra e pareciam muito confiantes.
Os sacrifícios eram incomensuráveis, a fotografia intercalada que se apresenta dá certamente uma pálida ideia do que era, por exemplo, um carro com dez juntas de bois preparado para transportar três toneladas. Muitas vezes o condutor carreiro, era preto, já civilizado, manejando o chicote a preceito, coadjuvado pelo homem do travão e candeeiro, que normalmente não passava de um rapazito e seguia à frente da primeira junta de bois7. Pode imaginar-se o que seria comandar uma expedição militar, constituída por 2 291 militares, oficiais, sargentos e praças, incluindo indivíduos civis, condenados, e indígenas; 115 auxiliares portugueses, boers e indígenas; 100 cavalos, 181 muares, 620 bois de carro, 40 bois para abater (deveriam contar-se entre os bois a abater os que se fossem perdendo das juntas de bois de tracção). E falamos nós hoje de dificuldades. O autor destas linhas foi militar numa companhia indígena, mais propriamente a 5ª Companhia de Caçadores Indígenas do Batalhão de Caçadores Nº 3 (com muita honra) de 1959 a 1963, sempre no Norte de Angola. Sabe muito bem do que fala, durante 35 anos manteve-se na Zona. Acaba de chegar do Uije, onde foi reconfirmar e adquirir novos conhecimentos para dar continuidade à sua tese de doutoramento.
Libata do kuamato 1905
O terreno em terras do Kuamato e do Ovampo é relativamente plano, apenas ligeiras ondulações aqui, além coincidindo em regra com zonas de cultura… Quem atravesse qualquer dos vaus de Balaonde, Pemba, do Encondo ou Macuma, embrenha‑se de seguida em matas marginais, atingindo depois um plató, cujo o aspecto geral seria o de uma vastíssima campina de capim, salpicada por vezes de manchas de mutiati. Essas manchas de mata, ligadas entre si, envolvem as zonas de capim que ficam livres e tomam o nome de chanas. Estas por sua vez, quando extensas e estreitas e correspondendo a depressões sensíveis do terreno, tomam o nome de mulolas. Em regra é à volta das chanas, no meio do mato, que vivem os naturais em libatas, bem defendidas por cercados de pau a pique.
Weyulu, o grande chefe político e militar, já não estava entre os vivos para poder mandar incutir aos seus lenga (guerreiros comandantes) a força mágica vital induzida aos Kuanhama em vitórias anteriores, faltavam‑lhes também os grandes conselheiros alemães… como faltaram às gentes do norte a “inteli­gência” inglesa. O sucessor de Weyulu seu irmão Nande, segundo algumas informações de fonte fidedigna, não era muito afecto aos brancos alemães. Dizia-lhe a experiência vivida e pelos seus antecessores transmitida que, se os seus queriam sobreviver tal custaria a separação do reino. Os brancos dividiriam o país Ovambo entre si. O melhor seria fazer as pazes com eles, embora os chefes guerreiros Lenga, quase todos Ovampo, não Kuanhama, ou mesmo renegados Humbe ou Ganguela, fossem deten­tores de uma enorme vantagem: muito astutos e profundos conhecedores do seu chão, sabiam ler todas as pegadas e pela forma como se inscreviam no terreno até conheciam as intenções do inimigo. Comandavam de forma magistral cerca de 300 homens. A sua experiência era longa, tinham presenciado primeiro e comandado depois, inúmeras razias e saques, sendo essa experiência a força da sua razão, por isso, resistiam às incertezas do seu rei. Se fosse necessário desobedecer, o recurso seria envenenamento do rei. Não deixariam de retirar a sua parte da presa de guerra. Era o seu ofício.
Segundo o missionário francês Lecomte8 “só os Kuamato e os Vale (Mucubais) eram de temer. Eram corajosos, ao passo que os Kuanhama baseavam a sua estratégia no efeito de surpresa e na sua rapidez de atacar as povoações”. Aquilo a que chamamos razias.
Mas Nande, interiormente não se deixava enganar. A sua intuição dizia‑lhe que mais tarde ou mais cedo, as metralhadoras alemãs a sul e as portuguesas a norte, acabariam por crivar de balas a sua independência. O Padre Ernesto Lecomte9 numa das suas “duas cartas dum missionário…” escrevia. Foi ele que em 1901 teria exclamado para o irmão Weyulu: “Visto isso, tu hás-de pertencer aos alemães e eu aos portugueses (Nande administrava o Norte) verás que daqui a meia dúzia de anos já não seremos mais nada e o poder há-de ser dos brancos 10.
Só a indecisão da administração portuguesa iria permitir aos Ovambo, pelo menos aos Kuanhama conservar a sua independência até ao verão de 1915. Facto absolutamente notável, pois só os Dembu a Norte, e a revolta de Buta na zona fronteiriça de S.Salvador, hoje Banza Kongo, tinham similitudes notáveis. Independentemente de tudo isto, o envenenamento espreitava Nande se quisesse tocar no tecido social e económico dos Kuanhama. Extraordinariamente penoso foi admitirem que os brancos eram possuidores das novas magias de matar. Os seus chefes espirituais não as compreendiam, e por isso, não conseguiam transmitir ao seu líder a forma de suportar a derrota.
O autor está ciente (e não necessita de ser um estratega militar) que embora o canhão fosse uma força dissuasora era muito difícil de locomover nestes terrenos. Três novos elementos introduzidos foram fundamentais para conduzir os brancos à vitória:
A metralhadora que passou a devastar filas inteiras de comba­tentes indígenas.
O telégrafo morse, grande ganhador das comunicações e que destronou o tambor de guerra das forças indígenas.
E, finalmente, a fotografia, órgão que punha à disposição do Estado‑Maior do Exército dos brancos o panorama real e factual do que acontecia no terreno.
Acrescente-se que quando os missionários ingleses no norte de Angola utilizaram pela primeira vez esta tecnologia, “a Caixa Mágica” para surpreender as elites políticas que olhavam estarrecidas a figura do seu rei falecido, o seu espanto era enorme e os grandes feiticeiros mais uma vez ficaram, perante os seus notáveis sem poder justificar tal poder detido pelos “feiti­ceiros” brancos. Ainda hoje, no norte de Angola, a máquina fotográfica, na posse de um estrangeiro europeu é olhada com muita reserva.
O já Major Roçadas com oficias do seu Estado-Maior nas campanhas do kuamato
Com estas vantagens contou o Capitão Roçadas, (durante as três campanhas que dirigiu 1905, 1906, 1907) mas também com um vasto conhecimento adquirido pelas expe­dições anteriores. Ines­ti­mável foi a actuação do fidalgo Kalipalula Kuamato da mais alta linhagem. Vo­tado ao ostracismo pelas suas gentes, teve de abandonar com a família e haveres o seu chão. Encontrado muito ferido pelos portugueses, foi curado, em troca conduziu a expedição de Roçadas com a maior segurança, os menores custos e a maior rapidez em alcançar o objectivo.
Os Kuamatos já esperavam os portugueses. Tinham levado para o mato os mantimentos e as armas que podiam. Nas refregas foram auxiliados por outros povos vizinhos surpreendendo muitas vezes os exaustos expedicionários. Estas palavras do Capitão Roçadas são testemunho da valentia do adversário11, As qualidades guerreiras do inimigo e a sua força de combater”.
Estavam prestes a começar os recontros. Os Kuamato tinham reunido o máximo de vizinhos que podiam, mas por si eram os mais temidos, os mais aguerridos os mais audazes, sendo temidos pelos próprios Kuanhama e Evale. Estavam lá também os Kuambi, muito temidos no assalto à arma branca, enfim também os ganguela, barantus, e hingas. Ao todo cerca de 20 000 homens. Tal como Nande os seus guerreiros Kuamato renderam-se momentaneamente, a guerra na zona iria perdurar até para lá de 1920. Curiosamente a última guerra em Angola iria acabar com a morte de Jonas Malheiro Savimbi já lá vão quatro anos (2001).
Recordemos que no início mencionámos o General Norton de Matos: “Desejo-lhe um ano novo cheio de venturas. Venho pedir-lhe que leia o livro de F.Von Bernhardi. A Alemanha e a próxima guerra que foi posto à venda nos fins de 1911. Sei que V. Exa., lê correctamente o alemão, mas já há deste livro uma tradução inglesa.12”
Do discurso do Comandante de Operações do Kuamato, José Augusto Alves Roçadas, proferido na Sociedade de Geografia de Lisboa em 1908 ressalta um trecho final “…seja organizado por um processo idóneo, parece que seria o meio de iniciar desde já o ressurgimento daquela nossa pérola colonial, que, filha ainda, na infância, a mãe pátria deve cuidar em instruir, desenvolver e preparar para a luta futura, de forma a que no dia em que chegue à sua maioridade, ela possa dar-lhe voluntariamente o emblema da independência, na certeza do que terá quem continue a representar dignamente, como sucede hoje com o Brasil, a velha raça lusitana, e a considerar-nos como nação favorecida nos tratados mútuos.
Estas apreciações dependem sempre do mérito que o leitor possua em saber interpretar o espírito do tempo em que os acontecimentos se desenvolveram…
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* Mestre em Ciências Sociais e Políticas, Antropologia Cultural e Estudos Africanos pelo ISCSP/UTL.
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1 Silva, Raul José Candeias Subsídios para a História da Colonização do Distrito de Moçâmedes Durante o século XIX, Stúdia Nº32 (Junho 1971) p. 371.
2 Idem p. 374.
3 Matos, Norton Memórias e trabalhos da minha vida, volume 4 pp. 9‑10.
4 Idem, p.18.
5 Pelissier, Rene, História das campanhas de Angola II, p. 191.
6 Pelissier, Rene História das campanhas de Angola II. p. 189.
7 Roçadas, José Augusto Alves Conferência sobre o Sul de Angola, A propósito das operações Militares do Cuamato, Sociedade de Geografia de Lisboa, 1908 p. 11.
8 René Pelissier, obra citada, II p. 190.
9 Lecomte, Ernest, Duas cartas do missionário Ernesto Lecomte, P. E Af. Nº132 Dezembro de 1904.
10 René Pélissier, obra citada I, p. 35.
11 Roçadas, José Augusto Alves, obra citada, p. 23.
12 Idem, p.18.

Fonte : Revista Militar

In blog CausaMonarquica

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A GUERRA EM ANGOLA

1. AS PRIMEIRAS OPERAÇÕES MILITARES EM 1914

Leito do Cacoluvar
A procurar água no leito do rio Cacoluvar

I. A FORÇA EXPEDICIONÁRIA. PREPARAÇÃO DAS OPERAÇÕES

A entrada da Inglaterra no conflito europeu, tornada pública com a declarado de guerra à Alemanha em 5 de Agosto de 1914, e a possibilidade de que, mais tarde ou mais cedo nos poderíamos encontrar envolvidos no mesmo conflito, levaram o governo português a pedir ao Congresso da República, em 7 do referido mês, «as faculdades necessárias para, em tal conjuntura, garantir a ordem em todo o país e salvaguardar os interesses nacionais, bem como para ocorrer a quaisquer emergências extraordinárias de carácter económico e financeiro».

Dada a nossa condição de potência colonial, cujas duas maiores possessões ultramarinas - Angola e Moçambique - confrontavam, ao tempo, com dois grandes territórios alemães - a Damaralandia e o Leste Africano - e tendo em atenção que eram sobejamente conhecidas as pretensões germânicas de compartilhar a posse daqueles nossos domínios, o Governo da metrópole, na previsão de futuros acontecimentos, resolve reforçar as guarnições provinciais com dois corpos expedicionários, um destinado a Angola, outro a Moçambique.

No dia 18 de Agosto, o general Pereira de Eça, Ministro da Guerra, convida o tenente coronel do Corpo do Estado Maior Alves Roçadas 1 a aceitar o comando do primeiro daqueles corpos, constituído por um quartel general, um batalhão de infantaria, uma bateria de metralhadoras, uma bateria de artilharia de montanha, um esquadrão de cavalaria, serviços de saúde, engenharia, administração militar, transportes e de etapas, e tendo por missão assegurar a obediência do gentio e vigiar a fronteira sul nos pontos importantes 2.

A partir do dia 20, e por intermédio do Ministério das Colónias, Roçadas expede ao governador geral ele Angola uma série de telegramas pedindo informações sobre os recursos existentes na província e mandando proceder a vários trabalhos, entre os quais a mobilização das unidades indígenas e europeias.

Passados dias, e depois de ter reunido os elementos que lhe foi possível colher em Lisboa, apresenta ao Ministério das Colónias um projecto de operações, no qual prevê o reforço do corpo do seu comando com unidades da guarnição da província de modo a constituir-se uma coluna de operações cuja composição e efectivo correspondessem à importância dos objectivos a atingir e que seriam: ocupação directa cio Cuanhama e oposição ao avanço de quaisquer forças, isoladas ou não, que pretendessem invadir o território da colónia.

Nos dias 10 e 11 de Setembro, a bordo cios vapores Cubo Verde e Moçambique, parte ele Lisboa o corpo expedicionário.

A 27 de Setembro e 1 de Outubro desembarcam em Moçamedes o Comando, as unidades de menor efectivo e os Serviços, continuando a bordo por alguns dias, e até que fosse escolhido e preparado o seu aquartelamento na cidade, o batalhão de infantaria 14.

Pouco depois da instalação do quartel-general em Moçamedes, e até 11 de Outubro, publicam-se as ordens e instruções para a organização do serviço de informações e dos serviços da retaguarda.

Para a organização do primeiro destes serviços, o Governador-Geral de Angola, Norton de Matos, ampliando as instruções confidenciais do Ministro das Colónias, determinava ao Governador do distrito de Moçamedes que cooperasse com o comandante do corpo expedicionário na instalação e funcionamento do referido serviço, ordenava aos chefes de concelho, de circunscrição e de postos da beira mar que se pudesse em contacto com as canhoneiras Save e Massabi, que estavam cruzando ao longo da costa de Moçamedes.

Cais de Moçamedes

Cais flutuante de Moçamedes

Ao Governador do mesmo distrito solicitava Roçadas que lhe transmitisse quaisquer informações que se referissem à acção de alemães ou indígenas nas nossas águas, no nosso litoral, no próprio território da Damaralandia e no interior do distrito; e aos capitães-mores do Cuamato, Evale e Baixo Cubango confia-lhes idêntico serviço a respeito do que se passar dentro da área das respectivas jurisdições e no país da Damaralandia, que interesse à nossa acção militar e política no sul da província.

Com o fim de completar as informações relativas ao inimigo provável com as que diziam respeito ao terreno em que poderia vir a operar, manda ainda proceder ao reconhecimento militar do Baixo Coróca no litoral de Moçamedes, ao estudo do acesso possível às regiões de Otchinjou, através dos contrafortes da Chela, estudos estes cujo objectivo era encontrar uma posição militar que fechasse o acesso do Baixo Cunene a Porto Alexandre e Moçamedes e verificar se era possível pôr em ligação a força, que porventura viesse guarnecer aquela posição, com as futuras forças do sector de defesa do Pocolo.

Publica, a seguir, a organização dos serviços da retaguarda, estabelecendo como base dessa organização:

Zona do interior – Desde o litoral até o planalto da Huíla. Zona da retaguarda – Desde o planalto da Huíla até o Cuamato. Zona de operações – Desde o Cuamato até à fronteira alemã. Estação de reunião – Os depósitos de Moçamedes, na estação do caminho-de-ferro. Estação «terminus» – Estação do caminho-de-ferro de Vila Arriaga. Base de etapas – Lubango-Chibia. Testa de etapas -Forte do Cuamato.

Expede ainda as instruções para o serviço de etapas e, no dia 11 de Outubro, depois de ter verificado pessoalmente o estado de adiantamento dos alojamentos destinados às diversas unidades expedicionárias, ordena a concentração destas no planalto.

A 18, Roçadas tomava posse do governo da Huíla. A fim de ser facilitada a sua acção como comandante do corpo expedicionário, cujas operações militares deviam desenrolar-se em regiões pertencentes àquele distrito.

A 19, dá-se o primeiro incidente de fronteira, em Angola – o incidente de Naulila.

A caminho do embarque

1914 - O batalhão de marinha a caminho do embarque

O Dr. Vageler, ao terminar os seus estudos próximo do Cunene, pretendera passar para a Damaralândia, através da Hinga, mas detido pela nossa polícia nas proximidades da Dombondola e remetido para o Humbe, onde se encontrava por ocasião do incidente de Naulila, serviu de intérprete ao administrador daquela circunscrição na conferência que esta autoridade tentara realizar com o sargento alemão da escolta do Dr. Schultze Jena, junto ao Calueque, na manhã do dia 19 de Outubro, seguindo para a Damaralândia com a referida escolta, depois de ter exclamado: C'est la guerre.

O incidente de Naulila e a apreensão do comboio dos 11 carros boers levaram Roçadas, de acordo com o coronel Coelho, a mandar retirar a missão do distrito da Huíla, na previsão de dificuldades que poderiam advir à execução das medidas do governo com a permanência dos membros da mesma missão no interior.

A maioria destes encontravam-se rio Lubango, donde seguiram directamente para Moçamedes; mas Schubert, oficial de artilharia da reserva, que andara juntamente com Roma Machado, tendo pedido autorização para seguir pelo caminho do Chácuto, o que lhe fora concedido, desaparece de uma maneira singular na estação do caminho de ferro do Munhino, no intuito de seguir para a Damaralandia, o que lhe não foi consentido, e, ao ser preso na Chela pelo português Morgado, exclama: Já vem tarde.

Mais súbditos alemães, além daqueles a que acabamos de fazer referência, se encontravam espalhados pelos distritos de Benguela e Huíla, exercendo, aparentemente, as profissões de negociantes, colonos agrícolas, exploradores de terras e empregados em oficinas particulares, mas, segundo todas as probabilidades, desempenhando o papel de espiões informadores.

A ordem de expulsão do território do distrito da Huíla dada aos membros da missão de estudos é mandada aplicar, como era óbvio, a todos os súbditos de raça germânica e ainda àqueles que, estrangeiros ou nacionais, fossem considerados suspeitos, tornando-se extensiva ao vice-cônsul Schoss e família logo após o conhecimento do massacre do Cuangar.

Dias depois, quando se procedia à detenção de um alemão, que se verificara ser oficial da reserva e era empregado nas oficinas do Almeida da Chibia, foi-lhe apreendida uma carta da Damaralandia, onde estava traçado a lápis o itinerário com a indicação das etapas que mais tarde seguiram as forças que de Outjô, e sob o comando do major Frank, vieram atacar Naulila (18 de Dezembro).

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