Luz Soreano e a colonização de Moçâmedes
Colocado como Chefe da Repartição de Angola da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar de Outubro de 1842 até Junho de 1851, Simão José da Luz Soriano deixou o escrito que segue sobre a sua contribuição para a colonização de Moçâmedes em "Revelações da Minha Vida e Memórias":
"...Reconhecendo que as nossas provincias d'Africa nada mais tem sido desde a sua descoberta até ao nosso tempo do que um simples viveiro de escravatura para a America, e feitorias commerciaes, de não grande monta para a Europa, busquei, tanto quanto em mim cabia, vêr se á provincia de Angola dava uma mais subida importancia do que aquella, que até então tivera.
É sabido que o clima d'Africa é bastante damnoso aos europeus, e tanto mais, quanto mais se aproximam da equinocial. Dizia-se que no interior do paiz alguns pontos havia, proprios para colonisação europêa, o que na pratica se não verificou, pelo malogro de algumas tentativas desta especie, provindo isto, tanto da falta das indispensaveis cautelas no transporte dos colonos, como da insalubridade de taes pontos, como aconteceu com o presidio do duque de Bragança, como acontece com o Bembe, e como acontece com o Ambriz.
Revendo o cartorio da antiga secretaria do ultramar, onde toda a correspondencia de Angola posterior ao meado do seculo passado, vi que o clima de Cabinda, ao norte do rio Zaire, ponto .onde se começara a levantar um forte, por auxilio de uma expedição, que para alli sahira de Loanda aos 17 de julho de 1783, estava effectivamente incluido na regra geral da insalubridade para os europeus, apesar da fama, que tivera em contrario, attenta a grande mortalidade, que alli soffreu a força expedicionaria.
Vi mais que a politica de alguns gabinetes estrangeiros, e particularmente o inglez, nos contestava fazer por aquella parte effectiva a nossa auctoridade, como o demonstrou a expedição naval, que a França empregou contra a nossa expedição de Cabinda, onde em 1784 fez demolir o forte, que alli começámos a levantar. A este estado de insolita e inesperada hostilidade, seguiram-se as nossas reclamações, das quaes resultou a convenção de Madrid de 30 de janeiro de 1786, pela qual a França declarou respeitar os direitos, que a coroa deste reino pertendia ter áquella parte da costa africana. Todavia a Inglaterra tem sido para nós mais severa sobre este ponto do que a propria França, a Inglaterra, que pelos tratados de 19 de fevereiro de 1810 e 22 de janeiro de 1815, e convenção addicionaJ de 28 de julho de 1817, reconheceu formalmente a reserva dos direitos da coroa de Portugal aos territorios da Africa Occidental, comprehendidos entro o quinto gráu e doze minutos, e o oitavo gráu de latitude meridional. ella a unica potencia, que com frivolos pretextos nos tem ultimamente embaraçado fazer effectiva a jurisdicção portugueza nos citados territorios.
Conseguintemente intendendo que, tanto por esta causa, como pela insalubridade do clima dos territorios ao norte de Loanda, as nossas tentativas coloniaes haviam de ser sempre infructuosas, ou mal succedidas, dediquei desde então toda a minha attenção aos territorios ao sul de Benguella, não só porque alli ninguem nos contestava o nosso dominio, mas sobre tudo por ver que, estando já bastante distantes do equador aquelles territorjos, era de suppor que o seu clima fosse já mais analogo ao do Cabo de Boa Esperança, e por tanto ao da Europa.
Reputei eu tanto mais urgente a occupação destes territorios, quanto que em França algum viajante instava com o seu governo para os mandar invadir. No quarto volume, documento n.° 13, da viagem que Mr. João Baptista Douville fez a Angola em 1827, vê-se apparecer alli bem descripto o porto e o sertão de Mossamedes. Mais se vê ter elle fortemente despertado a attenção do governo francez por meio de uma memoria, dirigida ao ministro das colonias, sobre aquelle porto, rogando-o encarecidamente para que nelle mandasse levantar um presidio para degradados. Douville dizia haver alli agua doce, serem risonhas as margens do rio, que o avisinham, serem pacificos os povos dos sertões limitrophes, e finalmente ter observado que a temperatura das costas pelas duas horas da tarde de um dia de dezembro de 1827 era de 23 a 24 gráus de Reaumur, achando igualmente que a 10 leguas da costa sobre um monte elevado, a temperatura era de 19 gráos, no mesmo momento em que o thermometro marcava 22 sobre a costa.
A leitura de tudo isto convenceu-me cada vez mais da urgencia de se segurar a todo o custo o porto e o sertão de Mossamedes, antes que o governo francez annuisse ás instancias de Douville, e nos expellissem do sul de Angola pelo mesmo modo por que nos tinham expellido do norte.
Com a leitura da viagem deste francez coincidiu igualmente achar eu no archivo da secretaria do ultramar um officio do barão de Mossamedes, que depois foi conde da Lapa, descrevendo a importante exploração, que em 1785 mandára fazer aos sertões do sul de Benguella. A respectiva expedição sahira de Loanda aos 12 de junho d'aquelle anno, e posteriormente de Benguella, dirigindo-se á chamada Angra do Negro, á qual desde então se poz o nome de Mossamedes por obsequiosa memoria de quem ordenára a expedição. Tanto a descripção desta bahia, como a da grande serra e valle do Bumbo, que d'ella dista tres dias de viagem, segundo as ultimas participações, e 28 leguas (é distancia excessiva) segundo o cumputo do chefe da expedição, o famoso sertanejo d'aquelle tempo, Gregorio José Mendes, são de attrahir a attenção do mais impassivel leitor, circumstancia que em mim se deu no mais alto gráu. Apesar dos esforços do conde da Lapa, a bahia de Mossamedes continuou a permanecer no total esquecimento do nosso governo, para d'elle sahir no nosso tempo. Para aquelle porto se emprehendeu uma outra expedição em 1839, ordenada pelo vice-almirante, Antonio Manuel de Noronha, que para ella commissionou a corveta Izabel Maria, do commando do meu fallecido amigo, Pedro Alexandrino da Cunha, que então era capilão-tenente da armada. A corveta foi até á vasta Bahia dos Tigres, d'onde voltou para o norte, por se não verem n'aquellas costas, quer olhando para o interior do paiz, quer para o sul, senão vastos campos de areia solta, sem terem um só vegetal, vindo finalmente ao porto de Mossamedes, cujo aspecto e vantagens foram muito elogiados pelo commandante deste vaso O. Ao vice-almirante Noronha succedeu-lhe, como governador de Angola, Matiuel Eleuterio Malheiros, que em fe ver eiro de 1840 mandou levantar um forte em Mossamedes, dando-lhe por governador o tenente de artilheria de Benguella, João Francisco Garcia Moreira, que para lá partiu com 26 praças de pret, e duas peças de artilheria. Entretanto o forte quasi que não passava dos alicerces, quando alli tocou em fms de setembro de 1842 o governador geral d'aquella provincia, José Xavier Bressane Leite, successor de Malheiros. As noticias officiaes de Mossamedes, que a instancias minhas se pediram a Bressane, e ao seu successor, Lourenço Germak Possollo, e as repetidas ordens, que pelas minhas rogativas para alli expediram os ministros da marinha com quem servi, para se dar importancia áquelle*porto, cada vez me convenceram mais de que elle não só era salubre, mas que até tinha
(i) Os que quizerem ver o interessante relatorio desta viagem, consultem os Ensaios Statisticcs de Lopes Lima no volume 3.°, parte de Benguella, png. i i e seguintes, ou o n.° i dos Annaes Maritimos o Coloniaes de 1845.
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Para garantir o dominio da Huilla, talvez o mais importante dos sertões de Mossamedes, como já disse, para lá se mandou ir a gente de que foi possivel dispor, e que ao principio consistiu em um sargento com quatro paisanos com uma mulher e seis casaes de libertos. Mesquinho era similhante presidio; mas em fim já era um nucleo para maiores empresas de colonisação, quando no futuro se quizessem levar a effeito. Os trabalhos a que me entreguei para a segurança e colonisação de Mossamedes, não se reduziram sómente aos do um simples official de secretaria do ultramar, chefe de repartição; mas até a tomar tambem sobre mim os de escriptor publico. Nas vistas pois de provocar alguma emigração para Mossamedes confeccionei uma memoria, descriptiva deste porto, das suas vantagens para a navegação e commercio, da salubridade do seu clima, o melhor de toda a provincia de Angola, e fmalmente das vantagens e fertilidade dos sertões lemitrophes. Esta memoria acha-se impressa no n.° 3 da 6.a serie dos Annaes Maritimos c Cotoniacs do anno de 1846.
A bordo da galera brasileira, Tentativa Feliz, comboiada pelo brigue de guerra Douro, sairam fmalmente de Pernambuco em 23 de maio do mesmo anno 1849 coisa de 300 colonos de ambos os sexos, chegando todos ao logar do seu destino no dia 4 de agosto. Para governador daquelle ponto fora nomeado um official de marinha de muito bom nome, reputação e intelligencia, tal como o capitão de fragata, Antonio Sergio de Sousa, ao qual se deram umas instrucções, por mim feitas e elaboradas, as quaes, verdadeiramente fallando, nada mais são do que uma segunda memoria, complementar da primeira, sobre o modo de realisar a colonisação de Mossamedes. Alguns engenhos de assucar, comprados por conta do governo, acompanharam esta primeira expedição colonial, á qual se seguiu depois uma segunda, que de Pernambuco saiu no dia 13 de outubro de 1850 a bordo da barca Bracharense, igualmente comboiada pelo dito brigue Douro, chegando a Mossamedes no dia 26 de novembro. As despesas desta segunda expedição não as costeou o governo, mas sairam do producto de uma subscripção, tirada por entre os cidadãos portuguezes, residentes em Pernambuco.
A agricultura tem alli tido um successivo augmeuto, particularmente depois que a pratica tem feito conhecer, que as especulações commerciaes nem sempre são tão solidas e proficuas, quanto o amanho das terras. Quatro engenhos de assucar se acham presente"mente montados no districto de Mossamedes, um na povoação deste nome, que o decreto de 26 de março e a carta regia de 7 de maio de 1855 elevaram á cathegoria de villa; outro no Bumbo, onde ha o melhor estabelecimento agricola da colonia, com relação á cultura da canna sacarina e da mandioca ; outro na Equimina, assentando-se o quarto no sitio da Boa Vista, em local onde ha bastante canna, com a outra vantagem de offerecer bons commodos aos lavradores. Além da cultura da canna, os colonos de Mossamedes tambem se tem entregado á cultura do algodão, cuja plantação não tem lido maior desenvolvimento em razão das más colheitas, que houveram ultimamente, não pagando o trabalho do agricultor. Os generos necessarios ao sustento dos colonos não só chega já para alli se manterem, mas até mesmo para exportação, em vista das remessas, que d'alli se tem feito para Loanda, e do que já se vende aos navios balieiros americanos, que em numero consideravel frequentam aquclle porto, para receberem refrescos de vegetaes e gado, do qual tambem ultimamente se tem feito alguma exportação para a ilha de Santa Helena. O facto é que em quanto em quasi toda a parte da provincia de Angola se fez consideravelmente sentir a falta de subsistencias nos annos de 1856, 1857, e 1858, no districto de Mossamedes não só houve para as necessidades dos seus moradores, mas até alguma coisa se exportou dos generos alimenticios. Com tudo isto ha coincidido o desenvolvimento do fabrico do azeite de peixe, pelas muitas feitorias de pesca, que lá se tem estabelecido, o accrescimo das construcções urbanas, e o incessante pedido de terrenos para mais casas.



