domingo, 4 de novembro de 2012

Francisco Newton a sua exploração em Moçâmedes, em 1880

VISITA À WELWITSCHIA


Em 1880, principiou Francisco Newton a sua exploração
 em Angola, primeiro em Moçâmedes,
seguindo depois para o Giraul.
Em Julho visitou a região da Welwitschia
e as margens do rio Coroca.

Banha de Andrade
O Naturalista José de Anchieta

 
 Feitas as apresentações protocolares, damos um salto de quinze anos, partindo para Angola. Continuamos a socorrer-nos de informação alheia, pois a primeira carta de Newton é de 1885. 
Eis pois o que Júlio Henriques nos diz com toda a frankeza, em verídica nota biográfica, e Bettencourt Ferreira confirma com a maior originalidade (abrimos parágrafos para melhor leitura) -
O Sr. Frank Newton visitou algumas colonias portuguezas da costa occidental da Africa e ahi colheu plantas.
O sr. Francisco Newton começou os seus trabalhos de exploração em 1880, pelas colonias portuguezas da costa occidental de Africa.
Começou os seus trabalhos de exploração em 1880, principiando em Mossamedes, seguindo para o Giraul, visitando em julho a região da Wellwitschia e as margens do Rio Coróca. [1]
Ahi herborisou muito, seguindo para Giraul e visitando em julho a região da Welwitschia e as margens do Coróca.
Em agosto, seguindo para o interior, passou por Giraul, Pedra Grande, Monhino, Capangombe.
Em agosto, seguindo para o interior passou de novo por Giraul e foi a Pedra Grande, Monhino e Capangombe.
N’este mesmo anno herborisou no Bumbo, subiu á Serra de Chella, foi á Huilla, ao arraial de Cayonda, ás povoações de Maconjo, Tampa e aos terrenos calcareos de Quitibe e Pomangala.
  No mesmo anno ainda herborisou no Bumbo, subiu á serra de Chella, foi á Huilla, ao Arraial de Cayonda, ás povoações de Maconjo, Tampa e aos calcareos de Quitibe e Pomangala.
De Mossamedes seguiu por mar para Porto Alexandre, e d’ahi foi de novo em janeiro de 1882 ao Coróca.
De Mossamedes seguiu para Porto Alexandre e d’ahi voltou ao Coróca, em Janeiro de 1882. 
Em abril partiu para Humpata e foi na companhia do padre Duparquet até ao Humbe, seguindo por Chimpumpunhime, Hai, Gambuc, visitando os morros do Tongo-Tongo, de ferro magnetico, e Xicussi na margem do Caculo-Bale.[2] 
Em abril d’este anno partiu para Humpata, acompanhado pelo padre Duparquet, foi ao Humbe, seguindo por differentes terras até aos morros de ferro magnetico de Tongo-Tongo.
Do Humbe seguiu com uma expedição dirigida por Erikno para caçar elephantes e avestruzes ás margens do Cunene até Camba, Mullondo e Quipundo, indo então ao paiz dos Otchiaviguas, d’onde se dirigiu para as cataratas do Cunene, voltando em agosto a Mossamedes.
Do Humbe seguiu com uma expedição dirigida por Eriksson, discípulo de Anderson, para caçar elephantes e avestruzes, pelas margens do rio Cunene até Camba Mullondo e Quipundo[4], visitando o paiz dos Otchiaviguas, d’onde tomou a direcção das cataratas do Cunene, e voltou em agosto a Mossamedes. 





Em setembro voltou ao Humbe e atravessando o Cunene chegou até Donga[3].
Esteve oito mezes no sertão, sem poder dar noticias. Tendo sido mortos apenas 40 elephantes e 22 avestruzes, a expedição cinegetica retirou descoroçoada, atravessando a Ovampia e o Damaraland.

No setembro seguinte voltou ao Humbe e atravessou o Cunene até Donga. 
Em outubro, atravessando de novo o Cunene, encontrou-se com Lord Mayo, em cuja companhia foi até Mossamedes.
Em outubro fez de novo a travessia do Cunene e regressou a Mossamedes junto com a expedição de lord Mayo, inglez rico e excentrico aventureiro, que concebera a mania de matar todos os leões d’Africa.
Em 1883, não chegando a bom caminho uma expedição belga á qual se tinha aggregado, apenas colligiu plantas em Giraul, Monhino e Biballa.
 Em 1883, agregou-se a uma expedição belga, que não foi levada a exito, por isso o explorador limitou-se a collecionar plantas em Giraul, Monhino e Biballa. […]

Vê-se que não foi pequena a area explorada, e que a collecção formada deve offerecer interesse consideravel. O catalogo das plantas colhidas será publicado ao passo que forem sendo estudadas. Na parte que hoje é publicada são já mencionadas algumas especies novas.
De regresso á costa, fez uma digressão á ilha de Santa Helena, onde se demorou um mês e voltou a Angola, para fazer parte da expedição belga de Edmond Elssen. As febres obrigaram-n’a a retroceder; Elssen suicidou-se no delirio febril e Newton teve de seguir para o Congo, subindo com Van de Velde o grande curso fluvial. Viu Stanley e foi obrigado a vir á Europa por doença (1884).
Henriques (1884)
Ferreira (1895)

 As plantas coligidas por Newton, entre as quais havia novas para a ciência, foram classificadas por estrangeiros: Hoffmann, Nordstedt, Saccardo, Berlese, Nylander, Winter, Flahault, Wittrock, Hackel, Ridley, A. Cogniaux, Baker, etc., faltando o mais natural - o botânico Duparquet. 
Convenhamos em que não foi pequena a viagem porque, entre 1880 e 1883, Newton conseguiu explorar Moçâmedes e Huíla, Cabo Verde, Dakar, Canárias, Bolama e Orango nos Bijagós, Freetown, S.Tomé, Ilha do Príncipe, Fernando Pó, Zaire, Congo, Cabinda, Ambriz, Catumbella, Timor, Ovâmpia e Damaralândia. 
Há algo de muito importante por aqui: a descoberta da osga sem garras, Hemidactylus greeffii, no Príncipe, antes da descoberta de Greeff.
Isto no geral dos três anos, porque no particular da estrada de Moçâmedes à Huíla, o que temos em cena é um comerciante, a fazer sempre o mesmo percurso, a passar sempre pelas mesmas terras, por estarem ali estabelecidos os fornecedores e os clientes. O explorador, por definição, explora, isto é, anda sempre à descoberta de novas terras, novas gentes, novas espécies, por isso avança para o desconhecido, não passa a vida na mesma região, a andar para trás e para diante.
Pena que, nas Viagens pela Cimbebásia, Duparquet não faça referência a Frank, nem a Nevvton, nem a Reesetán Fernandes da Silva. Duparquet, missionário espiritano, nascido na Normandia, entre as viagens ao Congo, a Zanzibar, ao Cabo, à Damaralândia, à Huíla, etc., veio várias vezes a Lisboa, fundou a Casa do Congo, em Santarém, e as meninas dos seus olhos, as missões do Congo e da Huíla, inaugurada esta a 23 de Junho de 1882.[5] 
O facto é algo estranho, por isso não se desenrolou sem incidentes diplomáticos: missões fundadas por estrangeiros em território português, sem aviso nem autorização, violavam o direito de padroado. Este foi um dos problemas que se levantaram na questão do Zaire. As potências estrangeiras interessadas em colonizar África começavam por enviar missionários, era uma primeira forma de ocupação, a que se seguiam os exploradores e depois os militares. O direito de padroado é objecto de largo historial por parte de Luciano Cordeiro, que não fala de Duparquet, mas se refere aos missionários franceses do Espírito Santo.
A 5 de Outubro de 1881, Duparquet embarcava em Lisboa com Padre José Maria Antunes e outros Irmãos. Tinha vindo resolver as pendências legais motivadas pelas suas andanças pela Huíla, em especial participar numa reunião em que estava presente J.V. Barboza du Bocage, presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa. Padre Antunes é um colector de plantas a quem os botânicos dedicam espécies novas, entre elas a quimérica Newtonia que muda para Antunesia. Padre Antunes fora aluno de Duparquet e em Braga dava aulas de Introdução à História Natural no ensino secundário. Partia agora como pároco, para salvaguardar a nacionalidade portuguesa da missão da Huíla, pois em 1885 tornava-se Superior da Missão, já Duparquet morrera. Atravessam o deserto de Moçâmedes, sobem a Serra de Chela e alcançam a Huíla a 7 de Dezembro. À chegada, verificam que os boers se tinham apropriado de todo o território, não sobrando nada para a missão[6]. Arrasadas as margens dos ribeiros Palanca e Mucha, subtraíam o que mais interessava aos padres. Entram em litígio com eles até conquistarem 1.500 hectares cercados pelo Mucha. “A Missão da Huíla ficou com cinco léguas de circunferência, estendendo-se até ao palácio real[7] situado nas proximidades da vila, apenas a vinte minutos da fortaleza e da igreja", escreve António Brásio S.Sp. e flora Lubango, 
Ali os padres espiritanos introduziram as mais variadas espécies exóticas, susceptíveis de originarem novas espécies, como de resto sempre foi hábito do Homem, nas suas deslocações: arroz, sorgo, macieiras, pessegueiros, damasqueiros, marmeleiros, alfarrobeiras, laranjeiras, romeiras, figueiras. Lançaram à terra 15 variedades de trigo, 8 de aveia, 4 de cevada, 16 de ervilhas e 49 de batata. Na propriedade da Mucha havia tanques para criação de peixe[8], pois era necessário “fazer um paraíso terrestre”. Além desta propriedade, os missionários ainda compraram mais duzentos hectares para construção da Nova Atlântida, tarefa em que afinal foram ajudados pelos boers, que até se prestaram a transportar os materiais.[9] Esta nova propriedade chamava-se o Munhino, local de colheita de Francisco Newton, que Frei António Brásio, das Missões do Espírito Santo de Viana do Castelo, autor em que bebemos estas informações, para nosso pesar se esquece de referir. Ficava a uma hora da Huíla e era servida pela estrada em construção que ia daí a Moçâmedes. Quarenta pessoas foram logo empregadas como pedreiros, carpinteiros, tijoleiros, etc., e a 28 de Setembro de 1882 estava já acabado o segundo corpo de construções.
Daqui passaram à Mucha. Avançam com colégio, seminário, etc., pelo que estes santos homens não tiveram um minuto disponível para outras obras que não fossem de arquitectura[10] e assentamento de pedras para erguer as colunas do Templo de Salomão, na Nova Atlântida angolana. É o que anota o próprio Padre Antunes, em carta de 28 de Setembro, chamando a atenção para a cabala da numerologia:
 Êste ano construímos já a primeira linha de edifícios compreendendo 6 quartos de cerca de 3 metros quadrados cada um; tudo isto se fez em 4 meses. Mas que de trabalho! Era preciso arrancar a pedra nas pedreiras improvisadas, fazer o tijolo aqui mesmo, ir cortar a madeira à floresta que fica afastada e por nossas mãos (Brásio).
 Em fins de Outubro de 1882, Duparquet achou-se entre a vida e a morte, a braços com uma grave doença pulmonar, diz Gastão Sousa Dias. Em Dezembro, a Missão recebia a visita do Bispo D. José Neto, após a do governador-geral, Ferreira do Amaral.
Não há aqui espaço para longas viagens, com o fim de iniciar Newton na botânica. O discípulo de Duparquet é o Padre Antunes, não F. Newton. Humpata, Huíla, Humbe, Otchiaviguas, Ovampo, Damaraland, itinerário traçado por Júlio Henriques e Bettencourt Ferreira, corresponde à expedição de Duparquet de 1880, em sentido inverso. De modo geral, quando alguém põe Newton face a outrem, surge uma imagem invertida e/ou anacrónica. De notar também que esta região corresponde à explorada por Welwitsch.
A viagem de 1880 é a que força o missionário a vir a Lisboa explicar-se. Obtém licenças sob condições para criar a missão, entre elas a de ficar sob jurisdição da Igreja portuguesa, e de incluir padres portugueses. O problema da ocupação de território pelas missões estrangeiras deve-se em primeiro lugar, diz Luciano Cordeiro, a nós não termos missionários.
Na realidade, a expedição à Huíla era uma coluna armada de caçadores que escoltava emigrantes boers. Segundo uma estatística publicada no Boletim oficial de Angola, em Julho de 1883 havia 461 estabelecidos na Humpata, no planalto da Huíla, considerado a melhor região de Angola. 
Duparquet viajava num vagão boer[11] puxado por 14 bois, com altar dentro onde celebrava - templo e altar portátil, que reencontraremos, porém sem os bois, na escalada ao Pico de Clarence. Partiram do que hoje é a Namíbia e mais caravanas de caçadores foram-se agregando a eles pelo caminho. Com Duparquet ia também o explorador sueco Erickson, próspero negociante da Damaralândia, estabelecido em Omaruru. Ia caçar elefantes e avestruzes, como declaram Henriques e Ferreira. Levava um jovem consigo, que pretendia iniciar na vida de caçador. Quer no diário de Duparquet quer no prefácio de Gastão Sousa Dias, tradutor, ocorrem misteriosos erros, quando se trata do pai do jovem, o explorador Andersson.
No prefácio, Sousa Dias afirma que no carro de Erickson viajava ainda um rapaz, filho de Anderson[12], que desejava visitar a campa de seu pai, falecido nas margens do Cunene, a 4 de Junho de 1867. No diário, publicado pela primeira vez em 1881, escreve Duparquet - 
Segunda-feira, 14 de Junho [1880]
Os primeiros membros da expedição tinham-nos já tomado a dianteira. Os três últimos carros deixaram igualmente Omaruru, na manhã de 14 de Junho. Um destes vagões era o meu; o segundo era ocupado pelo snr. Jordan, inglês do Cabo, que tinha negociado com o governo português o estabelecimento dos Boers na Província de Angola e desejava ser ele próprio a introduzi-los na terra prometida; o último carro era o do snr. Erickson, que levava consigo o jovem Anderson, filho do célebre viajante deste nome, morto perto das margens do Cunene, há sete anos. Fora o próprio snr. Erickson que lhe havia assistido aos últimos momentos, e o havia enterrado à margem da estrada que leva do Cuanhama ao Cuambi. Só ele conhecia o lugar dessa campa solitária; e, ao iniciar o rapaz na vida de caçador, queria proporcionar-lhe a consolação de poder rezar sobre o túmulo do seu ilustre pai. 
Duparquet dá como ano da morte 1873. Não é um primeiro erro, sim segundo, contando com o de Sousa Dias. Páginas adiante, o Reverendo mete completamente os pés pelas mãos: 
Domingo, 4 de Julho
Esta manhã o jovem Anderson partiu com o snr. Erickson para visitarem o túmulo de seu pai, morto neste dia, há 17 anos, em 14 de Julho de 1863. O célebre viajante tinha, no dia 13 de Junho, alcançado o Cunene, muito provàvelmente ao norte do Humbe. Durante quatro dias esperou em vão que os indígenas o transportassem em canoa para a margem oposta. Partiu então de novo para o Cuanhama, de onde saiu alguns dias depois, já muito doente, em direcção ao Cuambi. A 2 de Julho, percebendo que a sua última hora estava próxima, preparou-se para morrer e fez com que o snr. Erickson lhe lesse repetidas vezes os salmos apropriados à situação. Mas só veio a expirar dois dias depois, ao cabo duma penosa agonia. Sem ter qualquer outro instrumento além duma “catana”, o snr. Erickson conseguiu abrir uma cova, onde depositou os restos mortais do intrépido viajante. 
Duparquet comete outro erro, não relativo a Andersson, sim à cronologia do seu próprio diário - neste dia 4-14; quarto erro - morto a 14 de Julho; quinto erro - há dezassete anos; sexto erro - em 1863. Esclarecimento em rodapé, do mesmo Sousa Dias que já informara ter Andersson morrido a 4 de Junho: “Há engano nas datas: Anderson faleceu em 4 de Julho de 1867”.
Podia este lobinho[13] ser Francisco Newton? Ou a Francisco foi atribuída a biografia do jovem Andersson, tal como se lhe atribuiu a biografia e a Newtonia do Padre Antunes? 
As aves coligidas por Erikson/Eriksson no interior de Moçâmedes foram determinadas por Trimen, conservador do Museu do Cabo. Em 1882, acabara de sair a publicação, em que figurava uma nova espécie, dedicada ao explorador, Cinnyris erikssoni, a qual motiva algumas considerações a Bocage (1882).
Se Erikson queria que o jovem rezasse na sepultura do pai[14] no dia da morte deste, a 4 de Julho, precisava de ter partido dez dias antes. Se é verdade que partiram a 4 de Julho, então morreu a 14. Mas só por corvo tipográfico alguém morre no dia da Tomada da Bastilha, num relato em que as datas estão todas trucadas. Só por milagre alguém morre no dia da Declaração da Independência dos Estados Unidos, quando, sabem todos os que se interessam por estas coisas, em ambos os processos políticos está a mão da maçonaria.[15] 
A Damaralândia fazia parte de Angola. Esta expedição, que parece a tomada da Huíla pelos boers, o que estaria de acordo com a política portuguesa, afinal foi a tomada da Huíla pelo missionário, o que tanto incomodou o governo português que, quando chegou a casa, tinha lá uma carta a pedir-lhe explicações. Duparquet não teve outro remédio senão apanhar o primeiro paquete e apresentar-se em Lisboa.
Com a Missão do Congo, Angola foi atacada pelo norte. Com a da Huíla, foi atacada pelo sul e perdemos para os alemães todo o território a sul do Cunene. Os portugueses conheciam estes factos, como demonstra um ofício do governador de Angola para o ministro da Marinha, com a nota de confidencial, na qual transcreve dois parágrafos de uma carta de Ivens e Capelo, escrita após a sua visita à Missão da Huila, na qual nenhum juvenil Francisco Newton os acompanhava, a menos que tivesse ido na qualidade de membro do Colégio dos Invisíveis. Chama a atenção do ministro para o tom em que vem escrita:[16]
 Em relação ao padre Duparquet permitta-me V.Exª que eu transcreva dous periodos que os dous exploradores me mandaram em forma de telegramma, n’uma carta:
“Temos estado aqui com o Duparquet - Finório! A missão da Huilla está muito desenvolvida: fomos recebidos com a maxima attenção pelo padre Duparquet. A respeito deste sotaina que é quem dirige a manobra toda na missão, falaremos com mais vagar. Parece importar-lhe muito os nossos limites para Leste.”
 Tal como a conquista da América, a partilha de África fez-se com grupos de meia dúzia de pessoas e até indivíduos isolados. Stanley deu à Bélgica o Congo Belga, Brazza deu à França a outra metade do território que nos interessava.
Depois de visitada a Huíla, Duparquet regressa a Omaruru. Erickson, com o jovem acabado de iniciar, prossegue a caçada para norte, atravessando a região dos bosquímanos. Perto das Amboelas descobrem muitos elefantes, mas a região é de tal modo arborizada e pantanosa que a caça é dificílima. Não se refere a morte de nenhum elefante, sim a de membros da caravana. Descoroçoado, sem nenhum dos quarenta elefantes de que fala Ferreira, volta a Omaruru, conta o missionário, que não estava lá para ver. Dufour, Vanzyl e outro boer persistem na caçada. Vanzyl é assassinado por um hotentote, diz o missionário, que já ia na Damaralândia. O explorador francês Dufour fica com os bosquímanos que tomara ao seu serviço, e também ele será assassinado, agora pelos ovampos, diz o missionário, que nesta altura já deve estar a ler a carta de Lisboa. Erickson recolheu os seus papéis, mas nem corpo nem roupas foram encontrados,[17] conta o bom missionário, já no paquete em que veio prestar contas a Portugal.
O tenente Boyd Alexander, amigo de Newton, também foi assassinado, diz-se que pelos sudaneses.[18] O polaco Rogozinski, cuja mensagem Newton (não) recolheu no Pico de Santa Isabel, caiu numa emboscada nos Camarões, quando procurava uma fatia de terreno ainda sem autoridade europeia. Salvou-se da morte, não porém da prisão, porque afinal sempre havia por ali uma autoridade qualquer, possivelmente alemã (Unzueta).[19]
Morrem muitos exploradores e missionários em África,[20] e quase só morrem de malária ou assassinados pelos nativos. Newton foi vítima de uma tentativa de envenenamento nos Angolares, conta ele. O padre superior da missão de Ano Bom, que tanto o ajudara a semear e a colher, também morreu, por coincidência logo a seguir a isso. 
Se Newton andou pela Huíla, conheceu Duparquet, até porque os exploradores se alojavam nos fortes, nas roças ou nas missões. Mas conheceu-o depois de 1883. Porém, como Duparquet morreu no ano seguinte, e Newton, em 1883, não saiu do Giraul, de Monhino nem de Biballa, em Moçâmedes, só o pode ter conhecido como nós, de literatura.
Os relatos de exploradores conquistaram um público ávido, por isso alimentaram jornais e fizeram o espantoso sucesso do jornalista Stanley. Mais: como o espantoso sucesso de Stanley o levou à chefia da Associação Internacional Africana, diremos que a literatura de viagens é a causa primeira da fundação do Estado Livre do Congo.
O contexto em que ocorrem as gralhas relacionadas com F. Newton (Eça faria dele tipo de Portugal em África) é o da literatura que vai narrando o destino do continente negro ao ser retalhado pela ganância das potências europeias. Literatura de viagens e oficial. Portugal deixou-se apanhar de surpresa enquanto curtia a doença do sono em Cassoneca (Luanda). Quando acordou, já o tinham ultrapassado. 
Newton chegou tarde à Huíla, a toda a parte. Quando vai para Timor e Guiné, já Portugal, na bancarrota, queria vender Moçambique, Guiné e Timor: 
 Apenas uns annos passaram sobre o inolvidavel ultimatum inglez e mais de um historiador terá escripto e com verdade que elle foi provocado. Insinua-se que o povo não sabe e que não se trata sequer de venda, sim de pagamento de dívidas às companhias de Cecil Rhodes: “Disso só se faz mysterio para o povo porque exactamente é elle que não tem relações nem dividas nas agencias financeiras de Cecil Rhodes”.[21]
 Para ser pontual, Newton precisava de ter andado nos lugares onde se diz que andou, muitos anos antes. O nome Newton não refere sempre o Francisco, não aponta uma pessoa, sim um tipo e uma situação social. Funciona como eixo de private jokes, algo no género do Capitão Boteler, cuja carta de Ano Bom só registava um curso de água:
 - O Venerável Irmão já sabe a última?
- Sim, sim, o nosso Newton conseguiu infiltrar-se em Palla Balla e obter uma cópia do contrato do Van de Velde com o soba…
- Esse Vivi saiu-me cá um vivaço! Então e aquela do Titanic, é de mais!
- Mas nada que se compare à tomada do paquete Santa Maria!
- Para mim, a melhor do Newton foi o desvio dos planos do pirelióforo do Padre Himalaia!
- Sim, mas fazer a Rocella do duque de Montagu montar não sei que rosa para a descendência dar na Welwitschia mirabilis, é um achado! A fanerogâmica aprendeu a cabala fonética... Veja o retrato, até ficou encolhida...
- Não há nada como a experimentação, os Superiores Desconhecidos sabem o que fazem… Um dia destes mandam o Newton acasalar pinheiros com elefantes… 
- Ah, sim, o nosso Vigilante, mesmo sem engenhocas, mete o James Bond num chinelo!

Welwistchia mirabilis, segundo Hooker

Se repararmos na nota de Júlio Henriques, ele não disse que Newton tinha andado com Duparquet, nunca menciona o Francisco, sim um tal Frank[22], bem como não fala de Erickson, sim de um certo Ericno[23]. Por último, não sabemos onde se localiza a região da Wellwitschia, nem quem é tal senhora, a menos que vamos ao catálogo de plantas, pois lá encontramos a notícia de que F. Newton coligiu o líquene Rocella Montaguei[24], do deserto de Moçâmedes, encontrado sobre a Welwitschia mirabilis. Henriques não diz que F. Newton esteve no deserto de Moçâmedes, sim que obrigou a Rocella do deserto de Moçâmedes a sair de cima da Welwitschia.
Referimos já que Júlio Henriques era correligionário de Teófilo na Academia de Ciências de Portugal. Nos Trabalhos da Academia vem um artigo dele sobre a Welwitschia mirabilis, em que fala de Welwitsch, J. J. Monteiro e outros colectores da planta. Porém, e não saberíamos explicar porquê, esquece-se de Francisco Newton (Henriques, 1908).
Banha de Andrade, com a nota biográfica de Henriques à frente, precisa que Newton, Francisco, visitou não a Welwitschia nem a Wellwitschia, sim a Wellmitschia, e que os lugares percorridos foram os mourros de Tongo-Tongo, agora sem ferro magnético.[25] 
Felizmente, Bettencourt Ferreira corrige os erros, mas note-se que no segundo artigo (1897) deixa claro que o Chico “visitou a Welwitschia”, não o deserto de Moçâmedes. Nós costumamos visitá-la na escada do Laboratório do Jardim Botânico de Lisboa.   
Gralhas
Bernardino António Gomes (1870), comentando com muitos elogios a obra que Welwistch acabava de publicar em Londres, sobre os resultados da sua exploração de Angola, Sertum Angolense,  começa por considerar Angola e Benguela a Guiné Portuguesa, e remata da mesma maneira geográfica: "O Sertum angolense é pois mais uma valiosa contribuição para o conhecimento da Flora da Guiné, que temos a ajuntar a todas as outras que são devidas ao seu digno auctor, o dr. Fr. Welwitsch...".  

[1] Além de Welwitsch, quem visitou a Welwitschia, porque a sua missão incluía o deserto de Moçâmedes e saber se o curso do Coroca tinha ligação com o Cunene, foram Capelo e Ivens, como eles próprios contam em De Angola à Contracosta.
[2] Júlio Henriques parodia Capelo e Ivens. Por sua vez, Ferreira parodia Henriques e desenvolve as suas tiradas. Segundo rodapé de Capelo e Ivens, o topónimo Caculovar é corruptela de Caculo-Bale. Ninguém usa tal redacção, só a conhecemos destes dois textos. Os locais correspondem à expedição de Capelo e Ivens em 1884, misturados com escalas de outros exploradores. As missões em África tinham muitos opositores. A ala liberal nunca foi colonialista, apoiava as independências.
[3] Na Donga (Etocha), Capelo e Ivens depararam com uma lagoa de água salgada. Donga fica muito longe para Newton a ter alcançado.
[4] Estas localidades correspondem a etapas da exploração de Brochado (1850) e nem se trata das outras, interiores ao relato, sim das que se exibem no título: Terras do Humbe, Camba, Mulondo, Quanhama, e outras.
 Capelo e Ivens iniciam a travessia de África de 1884 por Moçâmedes, seguem pela Huíla, descem o rio Caculovar até ao Humbe e prosseguem até Quiteve pela margem direita do Cunene. Anchieta também explorou o Humbe. Antes deles e de Welwitsch, o pioneiro da exploração de Moçâmedes, Huíla, Bumbo, Cunene, Giraul, Cubal, etc., fora Gregório Mendes, no final do século XVIII. Quanto ao enigma da foz do Cunene, invisível por no tempo seco as águas se infiltrarem nas areias e nem chegarem ao mar, só em 1854 Fernando Leal a descobriu.
[5]Marco privilegiado pela maçonaria, que se designa em geral por Maçonaria de S. João.
[6] Os boers eram os holandeses de Orange e do Transval, então em guerra de independência com os ingleses. A decisão de povoar com eles o sul de Angola não foi do agrado geral. Em 1883, Pinheiro Chagas, ministro da Marinha e Ultramar, tentará minorar o perigo da sua presença em Angola com colonos madeirenses. A primeira leva ocupa o Lobango, em 1885, onde funda a colónia Sá da Bandeira. Ora o Lobango é um dos locais de colheita de Newton em situação de ubiquidade (Errática). 
[7] Palácio de Salomão, sede de um Grande Oriente. A repartição das instalações corresponde ao cumprimento da regra segundo a qual são precisas pelo menos três lojas para o seu estabelecimento.
[8] Como na Nova Atlântida, de Francis Bacon. Criação de peixe para povoamento de rios - é o que também acontece em S. Tomé com os peixes americanos.
[9]  Tal como os tírios transportaram para Jerusalém o cedro, os operários do Templo e forneceram o arquitecto a Salomão, Hiram.
[10] O objectivo da maçonaria é a construção (do Templo), privilegiada a arquitectura, daí que Deus se designe por Grande Arquitecto do Universo. 
[11] O carro de bois foi introduzido em África pelos boers. Eram veículos cobertos, com aparelho especial, pois chegavam a ser puxados por quinze parelhas de bois. Próprios para caravanas, eram usados pelos militares, por isso certos exploradores viajaram neles, como Capelo, Ivens e Serpa Pinto. Quando os caminhos terminavam, por vezes a caravana parava durante meses, para abrir uma estrada. Serpa Pinto, em Como eu Atravessei a África, descreve-o: “O wagon de viagem em África do Sul é uma pesada construção de madeira e ferro, de 6 a 7 metros de comprido por 1,8 a 2 de largo, assente sobre 4 fortes rodas de madeira e tirado por 24 a 30 bois, jungidos a fortes cangas, presas a uma corrente e grossa, fixa à ponta do cabeçalho no carro.”
[12] Trata-se de uma gralha, com o fim de confundir identidades, que muitos cometem: James Anderson, pastor presbiteriano e doutor em Teologia, em 1721 foi encarregado pelo duque de Montagu de examinar a história dos pedreiros-livres, daqui resultando a Constituição Maçónica - The Constitutions of the Freemasons, etc. (Oliveira Marques).
[13] Lowtons são os menores, filhos de maçons falecidos, instruídos e iniciados pelos outros maçons.
[14] Duparquet assevera que só Erikson conhecia a campa de Andersson, o que é natural, se fora este a enterrar o Irmão. Faz parte das normas que, quando um rosa-cruz morre no estrangeiro, a sua campa deve permanecer secreta.
[15] Ambas as datas, 4 e 14 de Julho, bem como as relativas aos dois S. João, geralmente são as escolhidas para inaugurar novas lojas. 
[16] Carta do governador Francisco Joaquim Ferreira do Amaral para o ministro da Marinha, Luanda, 14 de Junho de 1884. Arquivo Histórico Ultramarino. Pasta 5 das Explorações Científicas e Comerciais.
[17] Segundo parece, pela segunda vez Erikson enterra um Irmão, deixando a campa secreta, como é da regra.
[18] Em Hazevoet lemos que se tratou de um acidente: Boyd Alexander was killed in a tragic accident near Darfur in April 1910.  Alexander viveu na Costa do Ouro, onde integrava o corpo da Polícia.
[19] Errata: nos Carbonários, por um erro interpretativo, decláramos Rogozinski morto nesta emboscada. Como se nota agora, sobreviveu. A fatia de território procurada não tinha por fim o estabelecimento de uma colónia polaca em África, sim de uma roça para cultivo particular de cacau. Encontrá-la-á em Fernando Pó, e nós encontrá-lo-emos a escalar o Pico em 1860, em 1884 e em 1894, o que mostra a sua extraordinária resistência numa ilha de clima doentio.
[20] "Missionários estrangeiros envenenados no Zumbo (Moçambique).Dois morreram e um ficou em perigo", lemos por acaso no Diário de Notícias de 4 de Junho de 1895.
[21] O Seculo Negro, 5 de Novembro de 1895.
[22] No dia 31 de Dezembro de 1881, Frank Newton, na Secretaria do Governo de Moçâmedes, tratava de qualquer documento, pelo que pagou $185 de emolumentos (Boletim Official de Angola).
[23] São gralhas próprias da cabala fonética, tal como Nevvton, Reesetán, Anderson em vez de Andersson, etc., cujo resultado é a confusão de identidades, o que obedece ao propósito de manter incógnitos os nobres viajantes. 
[24] Rocella de Montagu. O duque de Montagu está na origem da Constituição Maçónica.
[25] Em De Angola à Contracosta, Capelo e Ivens decifram o enigma dos morros de ferro magnético: o Tongotongo é um morro, no Hai (Huíla). Abundava por ali o sesquióxido de ferro magnético, … encontrando-se grandes massas de magnetite, que produzem sobre a agulha os mais extraordinários desvios. O morro era conhecido também pelo nome de morro Sagrado, onde os indígenas da localidade celebram anualmente uma festa. Os locais por onde Júlio Henriques faz passar Newton - Chimpumpunhime, Xicussi, etc., são estações do roteiro de Capelo e Ivens.


sábado, 3 de novembro de 2012

Baía dos Tiges: incidente em 1904 entre a canhoneira Limpopo e a esquadra russa do Báltico - David e Golias.




"Quando a 6 de Dezembro 1904, pelos 8 horas da manhã, os japoneses chegam por fim ao cimo da “colina 203” para iniciarem logo no dia seguinte o bombardeamento e destruição final dos restos da esquadra russa do Pacífico, a primeira divisão da nova esquadra russa do Báltico entrava na Baía dos Tigres em Angola onde se encontrava a canhoneira portuguesa Limpopo sob o comando do tenente Silva Pereira, que, de imediato se dirigiu ao couraçado Kniaz Suvarov para interpelar o almirante-comandante da esquadra Rozhestvenski aí embarcado, dizendo-lhe que estava em águas portuguesas.

O almirante russo negou tal facto, pois estaria é certo na Baía dos Tigres, mas a mais de três milhas da costa. O oficial português respondeu que as águas nacionais começavam na linha que unia os extremos da baía. Após uma longa pausa, o almirante russo pediu 24 horas de permanência de acordo com as cláusulas do Direito Internacional, o que lhe foi concedido pelo tenente Silva Pereira, como escreveu no seu relatório.

Para o historiador alemão Frank Thiess, a pequena canhoneira Limpopo terá levantado ferro e navegado para Moçamedes onde estaria o cruzador britânico Barroso. Para o comandante J. Bouteille de um navio mercante não russo que integrava a esquadra russa, a Limpopo terá ameaçado disparar contra a poderosa 1ª Divisão russa se permanecesse em águas portuguesas mais de 24 horas. "

Que grande coragem e sentido do dever. Um canhoneira de um lado e uma poderosa esquadra.

Ver mais aqui:
1 http://lagosmilitar.blogspot.pt/2010_03_01_archive.html
2 http://naval.blogs.sapo.pt/31355.html


Imagem retirada do blog NRP Alvares Cabral F336

O prolongamento dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes , no troço Sá da Bandeira / Chibia: AUTO de 26 de Julho de 1948



Auto  assinado em 26 de Julho de 1918, pelo Governados Geral de Angola, Agapito da Silva Carvalho, que deu início ao prolongamento dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes , no troço Sá da Bandeira / Chibia

 




http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/GazetaCF/1953/N1577/N1577_master/GazetaCFN1577.pdf.

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes



 


Recordai, hoje e sempre, com admiração, o homem, o herói e o mártir que fundou Moçâmedes

Terá Moçâmedes esquecido o seu fundador?
Responde-se: de todo, não. Mas talvez não lhe tenha dado ainda o preito de justiça, de amor, de gratidão à altura dos seus méritos.

Em 1960, o Sr Dr. António Abrantes Tavares visitou a cidade de Moçâmedes. Regressando à Metrópole escreveu uma carta ao Sr Dr. Vasco de Campos relatando o que nessa cidade lhe fora dado observar. Transcrevemos a carta:

"Moçâmedes é uma cidadezinha fresca, limpa e agradável, com um hotel muito bom e bem arejado. A baíanão é grande, mas é bonita. Tem uma bela avenida, quase marginal, e bons prédios.

Estive na Câmara, um belo edifício antigo, onde os bárbaros já se meteram a fazer asneiras.
Cavaquei longo tempo com o Secretário, homem já cheio de anos, e lhe disse que iria à Fazenda dos Cavaleitros.  Soube por ele que vivia na cidade um parente do Patriarca de Moçâmedes e, portanto,
seu parente também, e foi comigo procurá-lo para mo apresentar. É um senhor já de setenta e muitos anos, bem conservado e dono de uma cerâmica. Suponho que tem meios de fortuna. Chama-se José de Pina Martins Abreu e Castro, e disse ter nascido na Quinta da Pelada, e ser sobrinho do Dr. João Martins. Conhece ai os nossos sítios e lá esteve a recordá-los comigo. Dei-lhe conta da parentela que por ai tinha, e despedimo-nos depois de bem cavaquear.

O secretário da Câmara mostrou-me um mapa em tela, mandado elaborar pelo velho governador local, onde estão assinaladas as terras das margens do rio Bero distribuidas aos colonos. Lá está marcada a grande Fazenda dos Cavaleiros. Prometeu-me uma cópia daquele documento, indispensável para a história da colonização de Moçâmedes. Se o receber farei o possivel para lhe mandar também uma cópia.

Finalmente meti-me num táxi, e lá fui para a Fazenda. Atravessei as chamadas "Hortas de Moçâmedes", onde vi belos olivais, vinha, batatais, feijoais, tomatais e demais primores, conjuntamente com bananeiras e citrinos em bordadura.

A Fazenda do seu tio-avô fica a mais de três quilómetros de distancia, e por caminho em parte bastante mau. Levava a ideia de fotografar a velha amoreira, se existisse, e bem contente fiquei quando apareceram uma vultuosas figueiras indígenas que delonge me pareceram amoreiras. Cheguei bem carregado de pó, pois a parte da Fazenda que vi é agora um areal estéril.




Num alto, dominando toda a extensão do dominio rural, erguem-se as ruinas de uma velha casa, que supunha ter sido a casa do fundador. Perto do local há umas cubatas de pretos, e um velho deu-me uma correcta informação dos donos da Fazenda. Foi de um branco - disse. Depois foi da Companhia - a Companhia do Sul de Angola - e depois do Venâncio - Venâncio Guimarães, e agora é de um fulano de quem disse o nome, mas eu não o retive. Segundo o preto, as ruinas eram da casa do branco.
Da amoreira, o preto não soube dar fé.

No salão nobre da Câmara, no lugar de honra, lá está o retrato a óleo do velho Bernardino, rodeado de outros notáveis, Gostei de ver, e ergui uma breve prece por aquele que foi, sem dúvida, um corajoso pioneiro e homem de acção.

Aqui tem uma breve reportagem, e lamento não ter tido tempo para cavaquear com os velhos, para ver o que haveria ainda na tradição oral.

Digo-lhe porém que a lembrança do velho Bernardino vive, como um protector da cidade, na lembrança de toda a gente, incluindo a rapaziada desportiva. Quando disputam futebol com Sá da Bandeira, invocam Bernardino, e quando começam a falar nele, nada lhes resiste. Ainha há pouco tempo estavam a perder um jogo e começavam da assistência a animar os jogadores: "Ber-nar-dino! Ber-nar-dino!" Pois acabaram ganhando, e atribuiram ao incitamento e apoio espiritual de Bernardino!

Veja pois, como está viva a memória do grande pioneiro!".

                                                               ********************

Tudo isto é muito, mas não basta. É preciso erguer no coração de Moçâmedes um grande monumento ao fundador! É preciso erguer nio coração de Nogueira do Cravo, um grande minumento ao maior filho daquela ridente povoação!

Do livro: "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes" Padre José Vicente (Gil Duarte). Agência Geral do Ultramar, 1969.

domingo, 3 de julho de 2011

Manifesto dos colonos fundadores sobre tráfico ilegal de escravos (1860)




Manifesto dos colonos fundadores de Moçâmedes sobre tráfico ilegal de escravos: 1860




"Vamos falar dos grandes, digo, dos graves danos e perigos que desde já ameaçam os moradores e donos das feitorias que ao longo desta costa se dedicam com os seus escravos aos valioso ramo da industria da apanha da urzela, danos e perigos estes, tanto mais a lamentar que por longe seriam provenientes de algum acaso imprevisto, ou vaivém de sorte, são, pelo contrário, expressamente causados pela vontade de criminosos manejos de um só indivíduo que no menoscabo da leis e convenienciais sociais com todo o descaramento exerce na costa o ilícito e nefando tráfico da excravatura com o qual ameaça de total ruina a maior parte dos estabelecimentos da apanha da urzela e pescaria."  

 Lopes de Xavier Botelho, publicista

"Ano passado no mês de Setembro, o Senhor Manoel José Correa, morador e proprietário do sítio denominado Carumjaba, valendo-se da sua posição isolada, e sobretudo contando com a total ausência dos cruzeiros nestas paragens teve a criminosa audácia de receber em seu posto um barco espanhol que por ele, Correa, expressamente convidado, vinha embarcar negros como de facto os embarcou, acima de duzentos, e com eles seguiiu para o reino de Havana."
 
"É sabido que muito bem tomadas que sejam as precauções dos interessados em semelhantes embarques de negros nunca se podem efectuar sem que isso desse nos olhos aos que mais ou menos de longe   estanciam do local onde neles se efectuavam, motivo por que os escravos das vizinhas feitorias viram com seus olhos o sito embarque dos negros que o Sr. Manuel José Correa fazia a bordo do dito barco espanhol por ser feito de dia claro. Por consequencia, todos os demais feitores logo tiveram conhecimento dele e quanto bastou para manifestar espanto e alvoroço entre estes vendo ter chegado outra vez o tempo de embarque de escravos e que eles também em breve tocavam a sua vez. Logo em seguida disso tiveram início nas feitorias as grandes deserções em massa. Foi então quando ao Sr. Narciso Francisco de Sousa que estava apanhando urzela em S. Nicolau fugiram de uma só vez mais de 30 escravos, e a Ladislau  A. Magyar,  na Lucira, sete. "   
https://silo.tips/queue/escravidao-e-revoltas-de-escravos-em-angola?&queue_id=-1&v=1610649963&u=OTUuOTQuMTcuMjMx


Em 1860, haviam decorrido já 11 anos após  a chegada a Moçâmedes das colónias de Pernambuco (Brasil), em 1849 e em 1850, fugindo à onda de anti-lusitanismo gerada pela revolução praeeira, quando os colonos começavam a ver alguns resultados do trabalho investido nas actividades económicas pelas quais haviam enveredado no campo da agricultura,  num manifesto endereçado ao Governador de Benguela pelos vários produtores de urzela (1), estes mostraram-se indignados com os prejuízos gerados pela tentativa de tráfico ilegal de escravos, levada a cabo por um "potentado" local (do Distrito) de nome Manuel José Correa.

Este caso, à primeira vista insólito porquanto se trata de uma manifestação formal de produtores de Moçâmedes contra o tráfico ilegal, algo que seria simplesmente impensável dez ou vinte anos antes, quando o tráfico fluía na legalidade, aconteceu porque a manifestação anti-tráfico dos produtores da urzela  do distrito de Moçâmedes deu-se na verdade quando já há muito os navios patrulha ingleses e  portugueses vigiavam a costa em busca de eventuais prevaricadores. Na realidade  desde  12 de Dezembro de 1836 o tráfico de escravos  dirigido para o Brasil e Américas fora abolido por Decreto , uma abolição proporcionada por um lado pela queda do absolutismo em Portugal, e o triunfo do liberalismo, numa fase em que Sá da Bandeira subira ao poder no quadro da revolução setembrista, e por outro, por influência de países fortemente industrializados como a Inglaterra,  ávidos por se expandirem,  que viam o tráfico como um entrave. Por esta altura a economia de Angola já transitara  para o comércio lícito e procurava enveredar para o trabalho livre,  ainda que nesta fase de transição dada a enorme carecia de braços de trabalho,  a solução encontrada pelo governo português passasse pelo encaminhamento de escravos libertados de navios negreiros aprisionados, para as diversas actividades económicas em formação, onde,  na condição de ex-escravos ou semi-livres, se obrigavam a trabalhar durante 10 anos para o avanço da economia de Angola.
 
Em finais dos anos cinquenta, sabia-se que o tráfico ilegal vigorava ainda na região do Congo (Angola). Havia notícia de que os embarques que antes eram legalmente efectuados a partir dos portos de Luanda e de Benguela, desde 1836 tinham passado a fazer-se em praias e pequenas enseadas entre o Ambriz e o rio Zaire, através de traficantes que operavam na clandestinidade. Contudo fazê-lo no sul de Angola, numa zona desértica, onde era escassa a população indígena, era uma verdadeira anomalia.  A verdade é que havia notícia da presença de  um  navio negreiro espanhol, que fazia o tráfico ilegal para Cuba, nas águas do Distrito de Moçâmedes,  situação que atemorizava tanto os serviçais escravos e ex-escravos como os proprietários. Aliás nesse tempo em que a fuga de ex-escravos recentemente libertados de navios negreiros aprisionados era enorme,  os agricultores corriam o risco de falência, pelo que  toda e qualquer suspeita de tráfico ilícito constituía um factor desestabilizador. Seria o caso dos proprietários das feitorias destinadas exclusivamente à colheita da urzela,  um musgo com aplicação tintorial muito procurado pelas industrias têxteis da Europa, pelo que  vários produtores de urzela do distrito de Moçâmedes mostravam a sua indignação ao sentirem-se grandemente prejudicados com a perda da mão de obra de serviçais indígenas de que necessitavam para manter activa  a exploração.

O perfil das operações de Manuel José Correa, o responsável pelos embarques ilegais em Moçâmedes, não revelava nenhum tipo de organização estruturada. Dir-se-ia que Correa actuava sozinho e não em rede como faziam os traficantes que actuavam a partir do rio Zaire. Ele era proprietário de uma propriedade no distrito de Moçâmedes. Afasta-se assim a hipótese de uma feitoria isolada para o tráfico ilegal na região. Correa não tinha barracões de escravos, nem agentes espalhados pelo sul de Angola. Antes de retomar o tráfico ilegal é provável que ele se dedicasse à colecta da urzela. Ora a verdade é que Correa era mais um dos produtores da região, tal como todos aqueles que iriam se indignar diante do embarque de mais de 200 escravos, organizado por ele em Setembro de 1859.

Visto pelos escravos de outras feitorias que temiam pelo retorno do tráfico ilegal, o embarque ilegal perpretado por Correa teve sérias consequências, porque não apenas levou a várias fugas das feitorias, o que mais afligia os produtores da urzela: perder a mão de obra que garantia a colecta da urzela. Tinha-se uma preocupação maior com os efeitos indirectos a partir das embarques ilegais na região: as fugas dos escravos.

Correa segundo produtores de Mossâmedes roubava escravos para vender aos navios negreiros espanhóis. Não se sabe se tal crime foi a ele atribuido como um artificio para chamar a atenção das autoridades. Afinal, dizia-se, era seu "costume antigo"  o de "roubar e sonegar" escravos fugidos. Apesar disto, no entanto, nenhuma protecção fora antes escrita pelos produtores. Escravos que se julgavam réus de algum delito, procuravam por Correa para pedir "padrinho". Mais uma vez tem-se na conta a aplicação de um costume típico da escravidão. Como já vimos no interior através da fuga "chimbika", escravos insatisfeitos buscavam por outros donos. Aparentemente algo parecido aconteceu em Mossâmedes através dos escravos que buscavam Correa para pedir "padrinho".

" Temos que notar ilustradissimo Sr, que entre os desgraçados escravos que o tal Sr Correa levava a embarcar iam alguns roubados também - porque pelo que se sabe, há muito tempo, é costume antigo deste sr. roubar e sonegar parte dos escravos que nas suas fugas são capturados pela sua gente no sitio da Carumjaba e mesmo parte daquelas que das feitorias vizinhas para lá acodem a título de lhe pedirem "padrinho" por algum delito de que os ditos julguem serem réus (...) não falando dos muitos moradores de Mossâmedes que para sempre têm perdido os seus escravos, sendo embarcados nos navios negreiros dos quais este homem imoral é agente especial".

O ápice do circulo das revoltas escravas deu-se na propriedade de Manuel Paula Barboza. Sua feitoria tinha mais de cem escravos a desempenhar várias tarefas: colecta de urzela, pescaria, além de agricultura. O temor dos embarques ilegais também atingiram os escravos de Barboza. Assim, uma grande da revolta escrava aconteceu em sua feitoria, e a violencia extrema marcou este "holocautro". Após aguardar o anoitecer, os escravos de Barboza saqueram e incendiaram a casa do proprietário. Não o encontrando, em grande algazara, assassinaram o caixeiro de Barbosa, fugindo depois para a liberdade nas terras do interior.


"Porém o mais calamitoso de todos esttes desastres e até horroroso no seu efeito,  foi aquela fuga que o  Senhor Manoel Paula Barboza sofreu no Inamangando onde se achava estabelecido há um bom par de anos,  tendo empregados em diferentes misteres, como agricltura, apanha da urzela e pescaria, mais de 100 escravos, gente adulta, e de muitos anos de serviço. estes, então, que, por cúmulo da infelicidade tiveram ocasião de ver com os próprios olhos o embarque dos negros que se fazia a bordo do barco espanhol, no porto de Carunjaba, juraram desertar todos e até vingar-se do próprio senhor, pois supunham, e mesmo diziam,  que já não restava duvida alguma em que depois de longos anos de serviço, com que com mais certeza deviam contar e de serem embarcados para alem mar - o dito juramento eles cumpriram à risca: pos dee repente armaram-se, sublevaram-se e invadem à boca da noite a casa do seu senhor, saquearam, e incendiaram, procuraram entre gritos furiosos o Sr Paulo Barboza, que por felicidade achamdo se ausente salvou-se, porém em lugar dele o seu infeliz caixeiro foi vítima expiatória do furor dos amotinados - entre mil torturas expirou aos golpes de azagaias e ainda com isso não contentes os furiosos escravos separaram-lhe a cabeça do tronco, o mutilado cadáver entregaram-no às chamas da casa incendiada e qual demonios do inferno entoavam cantigas e danças de roda do terrível holocauto da infeliz vitima. Saciado desta maneira o furos canibalesco, todos, grandes e pequenos, de ambos os sexos, levantaram e tomaram o caminho para as terras gentilicas. Foi pois, esta forma que o Sr Manoel da Paula Barboza, por fazerem os outros embarques de escravatura na sua vizinhamça, teve que sofrer valiosa perda de uns poucos contos de reis alem da cruel e dolorosa lembrança que lhe resta e restará da sorte infeliz do seu caixeiro, no que deverasw nós também todos sinceramente acompanhamos."



 Na realidade o que os colonos pretendiam  com o Manifesto de 1860 contra o tráfico, era acabar com o tráfico ilícito,  mas manter  a possibilidade de recurso à mão de obra semi-livre de que tanto necessitavam, e que que em detrimento do tráfico, possibilitaria  o desenvolvimento da região,  nesses tempos  em que a fuga de escravos libertos era uma constante, ante o receio de novas capturas, situação que ameaçava de total ruína a maior parte dos estabelecimentos da apanha da urzela e das pescarias.

O caso da revolta de Mossâmedes demonstra que as relações entre escravos e senhores eram reguladas por compromissos segundo os quais os escravos tinham condições de conquistar certos espaços. Se quebrados tais compromissos podiam ter resultados desastrosos para os proprietários.  Tais compromissos eram provavelmente construidos a partir de referências que os escravos mantinham de suas sociedades de origem no interior da África Central.

 ORIGEM

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Nota à margem do texto:


Sobre o encaminhamento de escravos libertados de navios negreiros aprisionados, para as diversas actividades económicas em formação, onde,  na condição de ex-escravos ou semi-livres, se obrigavam a trabalhar durante 10 anos para as actividades económicas em formação.


A partir dos números levantados pelo historiador Roquinaldo Ferreira podemos visualizar a presença destes trabalhadores nas seguintes localidades: até a década de 1850, com maior força no centro-sul angolano, entre Luanda e Benguela; após este período, nas regiões do norte, como em Ambriz, nos vultosos empreendimentos promovidos por comerciantes do tráfico atlântico que passaram a negociar produtos como óleo de palma, café, borracha e amendoim; e ainda no sul, na região de Moçamedes, na coleta de urzela e nas plantações de algodão desenvolvidas nos anos sessenta, em tempos de guerra civil estadunidense.1

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Sobre o temor dos embarques ilegais também atingiram os escravos de Barboza:

Ou ainda, nos anos de 1860, na região de Moçamedes, as fugas seguidas de revoltas motivadas pelo temor de uma possível retomada do tráfico ilegal, porque "supunham (os trabalhadores) e mesmo diziam que já não lhes restava dúvida alguma, em como depois de longos anos de serviço, com que - com mais certeza deviam contar, é de serem embarcados para além-mar".2


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Sobre assassinatos ou tentativas de assassinatos de senhores por parte de seus escravizados:

 
 De cunho mais violento, tratam-se de casos de assassinatos ou tentativas de assassinatos de senhores por parte de seus escravizados: a morte por apunhalamento de "dois cidadãos respeitáveis", Mendonça e Prudêncio, de Luanda; na região de Ambriz, ferimento à bala de "um respeitável decano dos facultativos da província"; o assassinato do comerciante Mota de Kasanje e a tentativa de envenenamento por arsênico da família de um "fabricante" de Luanda, afora "referências sobre escravos que ameaçavam, na rua, diversos transeuntes".3


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 (1) Sobre a formação de Moçamedes na década de 1840 por migrantes portugueses oriundos do Brasil, Madeira e Algarve junto a uma sociedade africana composta de libertos do tráfico, engajados nos trabalhos agrícolas da região, ver: DIAS, Jill. Angola. In: ALEXANDRE, Valentim; DIAS, Jias. Nova História da Expansão Portuguesa: o império africano 1825-1890. Lisboa: Editorial Estampa, v.X, 1998. p.441-446.

(2) Representação dos produtores de urzela de Mossamedes contra o tráfico ilegal de escravos, em 24 de março de 1860, examinada por FERREIRA, Roquinaldo. Dos sertões ao Atlântico, p.85-89.         [ Links ]

 
(3) Estas ações mais violentas de resistência de escravizados e libertos foram analisadas de modo diferente pelo historiador João Pedro Marques, que acredita na impossibilidade da interferência dos casos de resistência sobre o avanço do processo abolicionista português. Cf.: MARQUES, J.P. Quatro assassinatos e um retrocesso, p.107.