segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

A "Praça Sá da Bandeira" em Moçâmedes, e o Obelisco em memória do Marquês de Sá da Bandeira

 

  Eis a"Praça Sá da Bandeira" em Moçâmedes, tendo por epicentro o Obelisco mandado ali colocar pela Edilidade de Moçâmedes, em 1869, em  homenagem a  Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, o político liberal  português que foi o  obreiro da abolição da escravatura em todos os territórios portugueses por ele decretada, definitivamente em  1869. Esta Praça ficava situada    entre a Rua Rua Governador Calheiros já traçada.  e a Rua da Fábrica 1, que começava então a desenhar-se,  no quarteirão onde na década de 1930 foi erguida a Escola Portugal.
 
  Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, militar e político português que foi Barão, 1º Visconde,  1º Marquês de Sá da Bandeira, nasceu em Santarém  em 26 de Setembro de1795 , e morreu em 06 de Janeiro de 1876 em Lisboa,  mostrou adesão à causa liberal de 1820, participou na oposição a D. Miguel,  esteve no exílio com os partidários de D. Pedro em Inglaterra,  participou no desembarque do Mindelo e no cerco do Porto.  Com o maior número de anos de governação, foi Presidente do Conselho  de Ministros cinco vezes, Par do Reino desde 1834, reformou a administração, desenvolveu a economia, protegeu o comércio entre as colónias e Lisboa  e fomentou o ensino.
 
Ainda na foto , ao fundo e esq., reconhecemos  nos dois edificios iguais e pintados de escuro, a Escola 49 e  a antiga cadeia e obre o interior da Praça. Quanto ao edificio que se vê ao lado do Obelico, encontramos dentro do período de actividade do professor Francisco Rodrigues Pinto da Rocha, filho de um dos colonos fundadores oriundos de Pernambuco, Brasil,  um relatório de Manuel Martins Contreiras, datado de Junho de 1893, que nos informa que a escola que este professor leccionava, a melhor da Província, ficava situada na Praça do Marquês de Sá, e era propriedade do Estado. As carteiras tinham banco solto, assemelhando-se às que se usavam na França, as do sistema Lenoir. Na realidade, por esse tempo era da França, e especialmente de Paris, que todas as novidades vinham. França era como que um farol, um modelo para a humanidade, com seus valores iluministas de "Liberdade, Fraternidade e Igualdade".
 
Esteve, pois, O OBELISCO em lugar de honra quando foi inaugurado, no centro da "Praça Sá da Bandeira"  ou "Praça aos Heróis da Liberdade",  no local que veio mais tarde a ser ocupado pela Escola Portugal (Escola 55 de Fernando Leal), hoje "Pioneiro Zeca", Passou,  na década de 1930, já no contexto político e institucional do Estado Novo, para a Avenida da República, numa zona próxima do edifício da Alfândega (lado norte), onde ficavam os primitivos Correios Telégrafos e Telefones, tendo por  vizinho um pequeno quiosque de ferro que existia na Avenida antes da construção do quiosque definitivo, conforme a foto a seguir nos mostra. E ali permaneceu por muito pouco tempo, já que em meados dos anos 1940 , com o avanço do Estado Novo o Obelisco foi de novo transferido,  perdeu o lugar de destaque que merecia, e foi colocado no centro de uma praceta secundária,  para o local onde ainda hoje se encontra, situada numa zona de menor importância. próxima do Bairro da Facada, entre a Rua das Hortas, a Rua Calheiros e a Rua Mendes Leal.  
 
Com relação a este OBELISCO, bem como  à "Praça Sá da Bandeira",  podemos lêr num artigo publicado por Manuel Júlio de Mendonça Torres no Boletim Geral do Ultramar XXX - 348 e 349, de Junho-Julho de 1954, págs. 125 a 129, na parte dedicada aos edifícios e obras municipais existentes neste ciclo, sob a designação "Conspecto imobiliário do Distrito de Moçâmedes no ciclo de 1850 a 1879", o seguinte:

...Consta no Relatório do governador Costa Cabral, de 19 de Junho de 1877, que num dos ângulos da Praça Sá da Bandeira se erguia um pequeno prédio, já concluido, "servindo de Casa da Câmara". Supomos que a casa a que se refere Costa Cabral é aquela em que hoje está instalada a Administração do Concelho. Só muito mais tarde é que a Câmara Municipal fora definitivamente instalada no edifício em que funciona hoje os serviços dos Paços do Concelho. Devia ter ficado pronto e a funcionar, segundo o Graça, de 13 de Julho de 1869, no dia 1 de Janeiro de 1870. Outro ângulo da Praça estava ocupado pela casa, já em paredes e telhado, destinada a "Casa do Tribunal". 

...Observava Costa Cabral que esta casa, cuja conclusão já pouco importaria era indispensável, por ser Moçâmedes sede de comarca. Informava também que as dimensões desta casa eram acanhadas para ter o destino que lhe estava dado; faltavam divisórias, como sala para julgamento, gabinete para juiz e delegado, dois cartórios, sala para réus e outra para testemunhas; para tudo isto não tinha capacidade. Desconhecemos se foi nesta casa que funcionou o primeiro tribunal da comarca. No terceiro ângulo, alvitrava o governador seria construida uma casa com condições de "Escola para o sexo masculino", mas nada se fez. Sobre o assunto, refere, já expusemos o que bastava no capítulo "Os serviços de instrução". E continua: no quarto ângulo tinha sido construida uma casa, que já estava em paredes, destinada a "Cadeia". Era impróprio o lugar porque nessa casa se haviam de aglomerar indivíduos de hábitos desmoralizadores, sendo, portanto, inconvenientíssima a vizinhança, se na mesma praça fosse construida a Escola, como se pensou.

 ...Segundo o relatório do governador Graça, de 13 de Julho de 1869, a "Praça de Sá da Bandeira" media 14.000 metros quadrados. Parece-nos exagerada tal área. Presumimos que esta praça tivesse sido limitada pelo gradeamento colocado tempo depois, ficando, por este motivo, situados fora dela os edifícios construidos em cada um dos seus ângulos.

 ...A Praça Sá da Bandeira, de vastas dimensões e confinada pelo seu aparatoso gradeamento, fora aberta no local onde hoje se erguem a "Escola Portugal" e algumas outras edificações. No centro via-se, erecto, um obelisco dedicado à memória do estrénuo libertador dos escravos nos nossos domínios ultramarinos. Há muitos anos, mas ainda nos nossos tempos, efectuara-se definitivamente a retirada dos gradeamentos e fora, outro ssim, transladado o obelisco para a Avenida da República. próximo do sítio quase fronteiro ao antigo edifício dos Correios. E, ultimamente, há bem poucos anos, determinou a Câmara a deslocação daquele monumento para uma praça que havia sido aberta a Nascente da cidade, entre as ruas Calheiros, Hortas e Mendes Leal. 
Nota: ver 1ª foto,




Nesta foto podemos ver o Obelisco enquanto vizinho de um pequeno quiosque em ferro, e do edifício da Alfândega, local para onde foi transladado em 1936. O edifício da Alfândega inaugurado antes de 1860, por esta altura tinha por vizinho o Jardim da Colónia, como se pode ver à direita, e ainda não o Cine Moçâmedes que iria ser construido na década de 1940. A Avenida da República estava exuberante de vegetação como esta foto e a foto a seguir apresentam.



Esta foto de finais dos anos 1930, dá-nos numa outra perspectiva, o lugar.  na Avenida da República para onde foi transladado o Obelisco em homenagem do Marquês de Sá da Bandeira. Podemos ver também o primitivo Quiosque em ferro ali existente, entre o Obelisco e o edifício da Alfândega. Nesta altura a Avenida ainda não chegava ao topo, a sul, subindo a encosta paralela à Fortaleza. nem o Palácio da Justiça existia. Vista parcial da cidade de Moçâmedes nos anos 1970, com a Praça e o Obelisco a Sá da Bandeira, junto do Bairro da Facada.

http://www.africanos.eu/ceaup/uploads/EB087.pdf



 Aqui o Obelisco em memória do Marquês de Sá da Bandeira já se encontrava no local onde presentemente se encontra, ou seja, no centro de uma praceta rectangular, situada numa zona mais escondida da cidade,  próxima do Bairro da Facada, entre a Rua das Hortas, a Rua Calheiros e a Rua Mendes Leal. Como foi atrás referido, o Obelisco foi transferido para esta Praceta, perto do Bairro da Facada, em meados da década de 1940, a partir da Avenida da República, onde se encontrava desde meados dos anos 1930, tendo já antes sido transladado para ali, a partir da "Praça Sá da Bandeira", onde pela 1ª vez foi erigido em 1869, e onde ocupava todo o quarteirão que foi ocupado pela Escola Portugal, hoje Escola Pioneiro Zeca.

 

O OBELISCO erigido à memória de Sá da Bandeira compõe-se de uma coluna quadrangular de pedra, adelgaçada na extremidade, assente sobre um pedestal, também de pedra, em cujas faces se lêem as inscrições seguintes: AO DEFENSOR DA LIBERDADE 1869 . ATAQUE AO ALTO DA BANDEIRA EM 8 DE SETEMBRO DE 1832.1 AO PROTECTOR DAS COLÓNIAS O GENERAL SÁ DABANDEIRA "

 

 Quando o Obelisco se encontrava na Avenida,  quase em frente do efificio da Alfândega, no sitio onde foi erguido o Quiosque, que embora alterado no seu traçado inicial, ainda ali se mantém

 

O transporte do obelisco dedicado a Marquês de Sá da Bandeira, desde a Avenida da Republica para esta Praça, naquele tempo anterior em que Moçâmedes não dispunha ainda de muitos veículos automóveis, foi efectuado com todos os cuidados sobre vagonetas, que deslizavam sobre carris (linhas férreas) que para o efeito estenderam-se temporariamente pelas ruas da cidade, fazendo a ligação entre os dois locais. Era comum o uso de vagonetas para o transporte de materias de construção naqueles tempos mais para trás. Aliás era através de vagonetas deslizando sobre carros de ferro, que as mercadorias se deslocavam da ponte de embarque e desembarque para a Alfândega e vice-versa. Mas existem outras referências à "Praça Sá da Bandeira".

Quero apenas acrescentar que o local onde foi construída a Escola Portugal, ou Escola n 55 de Fernando Leal, hoje Escola "Pioneiro Zeca" convergia no tempo colonial com as ruas  Governador Calheiros, a que passa pela Câmara Municipal, Rua da Fábrica ( a que sobe para o Parque Infantil) ,  e ocupava todo um imenso quarteirão.

Foi no seu epicentro que foi erguido um Obelisco ao Marquês de Sá da Bandeira, o liberal progressista que no dia 10 de Dezembro de 1836, na sequência da Revolução de Setembro em Portugal, decretou a abolição do tráfico de escravos. Mais tarde quando foi construída a Escola Portugal, o Obelisco transitou para a Avenida da República, para o lugar onde se encontra o Quiosque que conhecemos por Quiosque do Faustino. Mais tarde ainda, nos anos 1940, foi de novo dali retirado e colocado na Praceta onde hoje se encontra, muito perto do Bairro da Facada. Na mesma direcção e na ponta que convergia para a nova rua que entretanto se abriu, a Rua da Fábrica, ficava a Cadeia. Penso que este aspecto ficou esclarecido.


Quem foi o Marquês de Sá da Bandeira?  e qual a sua importância para Moçâmedes?


O marquês de Sá da Bandeira (Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, 1.º barão, 1.º visconde e 1.º marquês de)  foi o político português que após a queda o absolutismo e o triunfo de liberalismo em Portugal, no decurso da vigência do Partido Progressista, não perdeu tempo e através da lei de 10 de Dezembro de 1836, aboliu o tráfico de escravos para o Brasil e Américas em todos os domínios ultramarinos,  e tomou importantes medidas legislativas sobre a protecção do comércio entre as colónias e Lisboa, proibiu a exportação de escravos em todos os domínios ultramarinos, e punia os transgressores com severas penas que incluiam o degredo, multas, a incapacidade de servir em empregos nacionais e trabalhos públicos.

Tal abolição ficou a dever-se, por um lado, à penetração em Portugal dos ventos de "Liberdade, Fraternidade e Igualdade" que se espalharam por toda a Europa e pelo mundo, e chegaram a Portugal, com os ventos soprados pela Revolução Francesa que contribuíram para revolução de 1820 e para a queda do absolutismo monárquico, e o triunfo definitivo do liberalismo em 1834, após 14 anos de lutas entre liberais e absolutistas pela sucessão ao trono, que culminaram com a fuga para o exílio de D. Miguel. Mas foram sobretudo as pressões da Inglaterra, não tanto por razões humanitárias, mas devido à revolução industrial, ao interesse nas colónias de África, a juntar-se ao interesse daquela potência em exportar as novas máquinas a vapor, vieram aliviar o trabalho humano permitindo passar a encarar o escravo liberto como um potencial consumidor.

O Portugal falido e desmantelado após um meio século de conflitos de toda a espécie, não possuía condições para se impôr aos traficantes, e foi com a celebração, em 3 Julho de 1842, do tratado luso-britânico para a abolição total do tráfico, que as marinhas dos dois países passaram a colaborar nessa empreitada, com o direito recíproco de visita aos navios suspeitos de negreiros. É claro que até 1836, a coroa portuguesa absolutista arrecadara lucros do vil negócio, por via das licenças e impostos alfandegários e não só, mas o povo português metropolitano e das ilhas, continuava na sua maioria rural e analfabeto, a viver na mais cruel das misérias.

É nesta década que Moçâmedes vai começar a erguer-se, já após a abolição, e no quadro de um novo paradigma colonial de fixação de famílias portuguesas e de desenvolvimento económico da colónia,  primeiro como um rudimentar Forte/Presídio, mais tarde como uma vilinha airosa e progressiva, após a chegada dos colonos de Pernambuco, Brasil, em 1849 e 1850, seguidos dos olhanenses, que por sua conta e risco começaram a chegar àquelas paragens desérticas a partir de 1861. 

Moçâmedes e o Marquês de Sá, representam, pois, aquele momento de ruptura com uma situação que se arrastara por longos séculos, durante os quais os altos cargos da administração civil e militar que foram sendo ocupados em Angola eram-no por gente ida do Brasil, muitos deles enviados para  ali como degredados, gente não grata a cumprir as mais diversas penas, que acabaram ali ficar e por se envolveram no tráfico, juntando-se a mulheres negras, tendo filhos mestiços, seus continuadores, adquirindo grande influência junto dos sobas do interior, e alcançando poder e prestígio. Do vil negócio que enriqueceu o Brasil e as Américas resultou a formação de uma burguesia enriquecida com em Benguela e em Luanda, burguesia essa que lutou por todos os meios para manter o negócio  após a abolição, e que via como gentes não gratas, a fixação das primeiras famílias brancas vindas de Pernambuco para Moçâmedes, no quadro do novo paradigma colonial que começava a desenhar-se, com o tráfico ilegalizado e perseguido.  A exportação em grandes quantidades de marfim, cera, goma copal, urzela não interessava aos traficantes nem aos seus concessionários, uns e outros habituados aos grandes lucros, com pouco esforço, oferecidos pela escravatura.

A fundação  de Moçâmedes esteve , pois,  intimamente ligada à abolição, não obstante o processo moroso que se arrastou até que Brasil encerrasse seus portos à importação de escravos, em 1951, favorecendo a comercialização de produtos lícitos, e o tráfico fosse decisivamente reprimido através da vigilância marítima internacional, chegando ao fim. O tempo pós 1836 em Angola, foi aliás um tempo em que famílias influentes de Luanda e de Benguela emigraram para o Brasil e com elas levaram os capitais que detinham.

O tráfico, é preciso que se diga, envolveu brancos, esmagadoramente oriundos do Brasil, mas também negros e mestiços, que dele tiraram o proveito, nesses tempos em que o tráfico Atlântico de escravos veio substituir o tráfico árabe que vinha sendo feito desde há muitos a séculos antes do século XV.  E não obstante o Decreto da abolição, a lei continuou a permitir a importação terrestre, e tornou possível, numa primeira fase, o fornecimento de mão-de-obra à colónia.

O envolvimento do Brasil no tráfico foi tal que Angola era vista como "a colónia da colónia", e muitos governadores iam do Brasil para Angola, e mesmo já após a independência da colónia brasileira,  o governo do novo país chegou a enviar para Angola 3 navios de guerra para proteger os navios negreiros que operavam na área, na defesa do tráfico.   O desespero das burguesias urbanas de Luanda e Benguela, que concentravam nas mãos a ligação ao comércio internacional foi tal, que se chegou mesmo a pretender unir Angola ao Brasil. E em 1835, seria um brasileiro um dos líderes de uma revolta, em parte motivada por rumores, de que Portugal tentava abolir o tráfico de escravos.  . Como foi dito atrás este paladino da abolição teve que lutar quase até à morte para que as colónias de África encontrassem o caminho certo, face aos interesses instalados dos traficantes e de um negócio que só foi possível com a arrastada complicidade dos chefes africanos, que representavam 95% da população.

 Daí a simbologia deste OBELISCO que aqui expomos!



 Pesquisa e texto de MariaNJardim .

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Jovens senhoras de Moçâmedes da JIC e do grupo católico "Sagrado Coração de Jesus". O movimento de Encontros de Jovens Shalom


 Jovens senhoras de Moçâmedes da JIC
  Jovens senhoras de Moçâmedes da JIC
 Jovens senhoras participantes do grupo católico "Sagrado Coração de Jesus"
 Jovens senhoras participantes do grupo católico "Sagrado Coração de Jesus"



Com o Estado Novo, desde 1926 houve o renascimento católico. Em Angola foram fundadas 29 novas missões até 1940. Em 1940 o governo assinou com a Santa Sé 3 acordos: A Concordata, Acordo Missionário e o Estatuto Missionário. Salazar referiu:

"Não se pode pôr, entre nós, o problema de qualquer incompatibilidade entre a política da Nação e a liberdade de evangelização, pelo contrário, uma faz parte da outra."

É dentro deste espírito de cooperação estatal com a Igreja católica que de 1930 a 1960, mais de 20 Congregações missionárias enviaram pessoal para Angola: Beneditinos, Beneditinas, Doroteias, Irmãs do SS. Salvador, Irmãs de la Salette, Capuchinhos, Franciscanas Missionárias de Maria, Reparadoras, Teresianas, Redentoristas, Ordem Trapista, Irmãozinhos de Jesus, Irmãos Maristas, Irmãs do Amor de Deus, Dominicanas de Se. Catarina, Espiritanas, Missionárias Médicas de Maria, Dominicanas do Rosário, Irmãs da Misericórdia.

Ler mais: https://reflexao.webnode.com.pt/cplp-comunidade-dos-paises-da-lingua-portuguesa/angola/
 Desde finais do século XIX que a fragilidade vivida no quadro da secularização veio acompanhada da vontade de revitalização e de um ímpeto associativo dos católicos, de que a Acção Católica Portuguesa foi, de certo modo, herdeira.  A ideia de um apostolado total, deu origem a quatro organizações (Liga dos Homens da Acção Católica, Liga das Mulheres da Acção Católica, Juventude Católica e Juventude Católica Feminina); e de acordo com os chamados “meios sociais” - agrário, escolar, independente, operário e universitário -, dando origem a 20 organismos especializados.  A ideia de um catolicismo militante remonta a 1933, o ano em que nasceu em Portugal a Acção Católica, um catolicismo militante em prol da  “recristianização cristã” da sociedade. 






O desenvolvimento da formação e reflexão teológicas, a preocupação com o enraizamento social do trabalho de cristianização, a activa participação nas dinâmicas internacionais ou supranacionais do catolicismo, foram factores que contribuíram decisivamente para conferir ao movimento católico português alguns novos traços nos anos 50 a 70, em especial: a formação humana, cívica e religiosa de várias gerações de católicos, conforme a uma espiritualidade mais incarnada e cristocêntrica, pese embora o peso do marianismo nas devoções dos movimentos de Acção Católica; o desenvolvimento de um catolicismo social reformista, partindo do estudo e procura de soluções para a realidade nacional, bloqueada pela persistência política do Estado autoritário após a II Guerra Mundial; o aparecimento de novas elites católicas nos mais diversos sectores da sociedade, em particular universitário, intelectual e cultural, mas também operário e de novos sectores profissionais, a par da emergência de novas lideranças e dinâmicas sociais, a nível da juventude, das mulheres, das famílias e do movimento sindical e patronal, entre outros.

Nos anos 70, o esgotamento do paradigma de movimento católico que a ACP corporizou explica o seu desmembramento como corpo orgânico em 1974, sendo que a realização do II Concílio do Vaticano constituiu um importante ponto de viragem neste processo. Muitas das perspectivas teológicas e pastorais que o Concílio viera reconhecer e proclamar tiveram na vida e trabalho da Acção Católica, em todo o mundo, um pioneirismo e um alicerce que, no longo prazo, explicam a sua secundarização, mormente o reconhecimento do valor pleno do apostolado dos leigos, sem necessidade de recurso ao mandato episcopal ou o valor da liberdade religiosa e do pluralismo eclesial e social.

Mas também foram desta época os movimentos católicos influenciados pelas Encíclicas Papais de João XXIII (Vaticano II) que passaram a estar presentes no meio juvenil, atraindo-os a si com a organização de eventos (bailes paroquiais, missas yé-yé, programas de assistência social etc).

Em meio a um mundo em transformação, a Igreja toma posição através de alguns párocos que rompendo a tradicional resistência à mudança, passaram a procurar e a chamar a si os jovens, atraindo-os para festas em salas de convívio paroquial. O objectivo era proporcionar-lhes uma opção, através de festas e bailes saudáveis e alegres, dentro de um contexto cristão, num mundo onde a juventude estava perdendo referências, resgatando valores familiares, a espiritualidade da juventude, a moral cristã, o sentimento de cidadania, e a promoção de valores que levassem ao fortalecimento da sociedade.

Em Moçâmedes foi o Padre Martinho Noronha um dos promotores do movimento desta causa dedicadas aos jovens paroquianos, que procurava, naturalmente desviá-los dos "males" trazidos por uma época marcada por um turbilhão de mudanças. Este foi o tempo da introdução entre a juventude do vício da liamba/haxixe, ou cannabis, entre os jovens de Angola, flagelo para eles e para os pais que não mais tiveram sossego.

Outro exemplo foi o Movimento de Encontros de Jovens Shalom, que se espalhou por várias cidades de Angola, com o Padre Luís Carlos nomeado seu Assistente Geral. Ordenado em 1968 este jovem padre foi sacerdote em Sá da Bandeira, onde congregou e entusiasmou gente jovem, transformou as "missas da Laje" em verdadeiras festas de juventude


                                No Lubango (Angola). Chamavam-lhe as "missas yé...yé..." 



                                No Lubango (Angola). Chamavam-lhe as "missas yé...yé..."


Em 1972, com outros jovens, o Padre Luís Carlos fundou uma Comunidade voltada para a evangelização da juventude nas várias dioceses de Angola. Em 1973, fez especialização em pastoral juvenil, pedagogia e dinâmica de grupos em Madrid, onde conheceu e assumiu a "educação libertadora". Assim, unidos pelo mesmo ideal, jovens juntaram-se e formaram este movimento que mais tarde se expandiu para Portugal e Brasil. Shalom era a palavra com que estes se identificavam, que significa harmonia, unidade, benção, alegria e paz. O objectivo era criar espaços para oração e partilha de vida, criar laços mais profundos de amizade entre os elementos do grupo permitindo um crescimento individual e também em comunidade.


Toda esta abertura da Igreja estava relacionada com as mudanças trazidas pelo Concilio Vaticano II que se estendeu e chegou ao fim em 1965, ficando marcado pela reunião do Papa Paulo VI, em Julho de 1970, com lideres dos movimentos independentistas das colónias portuguesas de África. A Encíclica “Populorum Progressio”, acolheu a promoção de todos os povos, nomeadamente os que viviam situações de dependência colonial ou de subdesenvolvimento. Eram mudanças que preocupavam o regime. Angola estava em guerra, havia censura, a polícia política (PIDE) estava atenta à formação de todo e qualquer Movimento, incluso religioso. Na América Latina progredia a Teologia da Libertação, em paralelo com os movimentos políticos libertadores, na defesa dos pobres e da justiça para todos, o respeito aos grupos étnicos indígenas e africanos, além de outras causas de emancipação social, económica e política. Este movimento elaborou teorias e formas concretas de viver uma nova forma de ser Igreja, que além de questionar as bases tradicionais da instituição eclesial e da organização política, contribuíram para o avanço da identidade latino-americana.

A geração de 60 foi por toda a parte protagonista de uma revolução nos costumes cujos resultados são vivenciados hoje. Foi então que se descobriu lá mais para diante como o rock podia emanar sensações africanas, e lá para os anos 70, incluso algumas letras causticas contra o regime. (1)



MariaNJardim




ATENÇÃO:
Estas fotos são pertença dos nossos amigos e conterrâneos moçamedenses, pelo que ninguém, excepto aqueles a quem as mesmas dizem respeito, poderá daqui retirar algo sem a devida autorização, incorrendo em falta quem o fizer. Também o texto tem direitos de autor que devem ser respeitados.







sábado, 15 de dezembro de 2018

Acontecimentos que tiveram lugar na Fortaleza de Moçâmedes, em Angola: As guerras do Nano


As guerras do Nano


"....Ainda antes de Março de 1860, outra guerra do Nano, com uma força entre 15.000 e 30.000 homens , desce para o sul e pilha tudo por onde passa, Huíla, Jau e Humpata; até as terras de serra abaixo e os moradores de Moçâmedes são visados, os quais, para escaparem com vida, se refugiam no porto daquela localidade. Na Huíla, o próprio comandante da fortaleza é morto e decapitado numa refrega a dois quilómetros da fortaleza, com mais sete brancos, num sítio que ainda hoje é conhecido pelo “Corta - Cabeça”. Divididas por várias praças – Moçâmedes e Huíla, Gambos e Humbe – as forças portuguesas não foram em número suficiente para deter o avanço desta guerra do Nano. Os portugueses chegam mesmo a desconfiar que Binga, o seu já conhecido hamba dos Gambos, tivesse estado por trás desta guerra do Nano. Cerca de um ano depois, ainda antes de Março de 1861, Binga é deposto, mas consegue mandar assassinar o seu rival e inicia uma guerra sem quartel contra os portugueses. Para além disso, começam a soar outra vez os alarmes de novas guerras do Nano. E o tempo vai passando conturbado, mas sem nada de muito grave. Talvez por isso, em Julho de 1863, os portugueses decidam abandonar a região, retirando os seus destacamentos do Humbe e dos Gambos. Binga sente-se finalmente mais à vontade, mais senhor das suas terras.


Acontecimentos que tiveram lugar na Fortaleza de S. Fernando, em Moçâmedes, Angola: A Revolta do Conde de Bonfim




Tavares Valdez.o 1º Conde de Bonfim, uma vez vencido em Torres Vedras pelo General Duque de Saldanha, em 22 de Dezembro de 1846, na Revolução Maria da Fonte, foi em 2 de Fevereiro do ano seguinte deportado para Angola, com dois filhos e outros fidalgos. Estes ficaram em Luanda, mas o Conde de Bonfim e os dois filhos, Luis e José, seguiram para o Sul. Após uma pequena estadia em Benguela, foram encarcerados na Fortaleza de S Fernando, em Moçâmedes, onde chegaram a 6 de Maio. Porém Bonfim, ajudado pela população local, pela tropa e pela guarnição da Escuna de guerra portuguesa "Conselho", fundeada na baía, planeou e iniciou a sua fuga a bordo da mesma Escuna. No entanto essa fuga foi de pouca dura. Nessa altura entrou na baía um navio de guerra inglês , o brigue Flying Fish, que a pedido do Comandante da Fortaleza, Soares Andrea, levantou ferro e foi intercepotar a Escuna portuguesa onde ia Bonfim, em pleno mar, levando-o com a sua comitiva para Luanda, onde foram muito mal pelo Governador Geral, Pedro Alexandrino da Cunha. A notícia causou indignação em Londres, sendo levada ao Parlamento britânico, onde igualmente provocou certo escândalo.


Este caso que apaixonou a opinião pública das gentes de Benguela e de Moçâmedes, ocorreu a 20 de Maio de 1847, e ficou conhecido pela revolta do Conde de Bonfim.

Portalegre, Elvas23.02.1787 Lisboa, Lisboa10.07.1862  https://www.revistamilitar.pt/artigo/170https://www.revistamilitar.pt/artigo/170

Acontecimentos na Fortaleza de S. Fernando, em Moçâmedes: Insubordinação do Batalhão de Caçadores 3





Insubordinação na Fortaleza de S. Fernando


Dos vários episódios que marcaram o passado desta Fortaleza, conta-se que em 1869 estava ali aquartelado um contingente de 100 praças pertencentes ao Batalhão de Caçadores 3, na sua quase totalidade criminosos de delitos graves, que ali cumpriam as suas penas, e que na noite de 14 de Novembro daquele mesmo ano, essas praças amotinaram-se para protestarem contra os serviços violentos a que eram obrigados, contra os castigos rigorosos que sofriam, e contra os descontos excessivos que eram feitos nos seus prés. Acusavam o capitão Miranda como responsável de toda aquela situação.

Avisado o então chefe do Concelho, Major Joaquim José da Graça, do que se estava a passar, este dirigiu-se à Fortaleza, onde, perante o seu espanto, os soldados amotinados já pegavam em armas, e chegaram mesmo a alvejá-lo,  com um tiro de pistola, ainda que sem consequências. O oficial em causa conseguiu dissuadi-los dos seus intentos, e prometeu recebê-los no dia seguinte na secretaria do Concelho, a fim de apresentarem as suas queixas, o que de facto aconteceu.

Após um diálogo apaziguador, o Major Graça retirou-se, parecendo tudo estar debelado, porém os soldados voltaram a sublevar-se e, convencidos de que os habitantes da vila se preparavam para os dominar pela força, armaram-se de novo, carregaram as peças, e apontaram-nas para a vila, prontos a fazer fogo, e mesmo a destruir a povoação e incendiar as casas de seguida, levando os moradores apavorados, receosos de toda a espécie de atrocidades, a abandonaram as suas habitações e a  procuraram refúgio nas Hortas, que ficavam a três quilómetros do aglomerado populacional.

Foi então que o inesperado aconteceu. No meio de tão dramática situação, quando parecia estar tudo perdido, que a Sra D. Maria do Carmo Lobo de Ávila, esposa do chefe do Concelho, "saiu resolutamente da sua casa, encaminhou-se ligeira para a Fortaleza, e confiada, corajosa, varonil, aparece de improviso perante a turba arrogante e impetuosa dos revoltados. A gentileza senhorial do seu porte e o excesso prestigio das suas virtudes, contiveram os rancorosos impulsos dos amotinados, que, tomados do espanto que o imprevisto lhes causara, e , confundidos pela severidade que lhes transmitira o nublado rosto da dama, receberam-na com todo o respeito, formaram fileiras, e apresentaram-lhes armas. Perante a atitude de acatamento das praças, a  Senhora pôde desempenhar a nobre missão que se lhe impusera: a de os vencer pelo sentimento. Para o conseguir, mostrou-se dominada por irreprimível eloquência, fez-lhes sentir a hidiondez do crime que iam cometer,  dirigimdo-se-lhes com uma inflexão de voz tocantemente angustiosa, suplicas ardentes e afervoradas. Os revoltosos, em cujos olhos borbulhavam lágrimas de arrependimento, comoveram-se, e assumiram em seguida inteira obediência. O Chefe do Concelho, que estivera sempre junto de sua esposa, ordenou-lhes então, como lhe cumpria, que descarregassem as peças e as espingardas e recolhessem a pólvora. Tinham-se entregado. A vila estava salva. O espírito de rancor, de violência e de rebeldia que desorientara as praças, que por pouco as não levou à destruição da vila, fora inteiramente subjugado pela palavra enternecedora duma dama fraca e delicada. .."(1)
(1) Passagens retiradas do livro Moçâmedes, de Mendonça Torres, obra cit 2 vol pp. 201 a 206
Cecilio Moreira : "Fortalezas, Fortes, Fortins e Fazendas de Moçâmedes no Sul de Angola". Subsidios para a História de Portugal em Angola. Separata n.8 da Revista Africana Universidade Portucalense, Porto, 1991



Factos notáveis ocorridos da Fortaleza de S. Fernando, em >Moçâmedes: O Capitão Schubert






O Capitão Schubert


No ano de 1914, antes do inicio da 1ª Guerra Mundial, Portugal tinha em Angola uma Missão de delimitação de fronteiras com o Sudoeste Africano (actual Namibia), chefiada pelo coronel Carlos Roma Machado Faria e Maia, que tinha o seu acampamento perto do rio Cunene. Desta Missão faziam parte dois alemães, o Dr Schubert e o Dr Vagler. Logo que a guerra deflagrou, como a missão estava isolada, sem quaisquer meios de comunicação com o exterior, o Governador da Huila mandou dar a notícia ao chefe da Missão, por estafeta, informando-o do início das hostilidades, entre a Alemanha e os aliados. Nessa mesma noite os dois alemães, ao saberem do início da guerra, desapareceram, levando o cavalo do chefe da Missão.

O Dr Vagler (que levou o cavalo), seguiu para o sul, enquanto o Dr Schubert seguiu para norte (1), acabando por ser preso no Chacuto, por Alvaro Morgado, de Moçâmedes, a duzentos quilómetros da cidade. A este alemão foi-lhes encontrado um mapa do Sul de Angola, que tinha sido eleborado pelo General João de Almeida, o único mapa correcto e o mais completo que existia na altura.

Schubert foi levado para a Fortaleza de S. Fernando, onde ficou preso, a aguardar a organização do processo, no qual declarou ser neto do compositor austríaco Schubert, ser oficial do Exército alemão, capitão da guarda militar do Imperador , e que tinha vindo a Angola com a finalidade de obter informações militares.

Após a organização do processo Schubert foi enviado para Luanda. Foi intérprete na elaboração do processo de Schubert, Serafim de Figueiredo, natural de Moçâmedes, que pouco antes tinha regressado da Alemanha, onde fizera os seus estudos secundários.

(1) Santos, Ernesto Moreira dos (ten). Cobiça de Angola, Guimarães, 1957, pp. 40 e 41.




segunda-feira, 23 de abril de 2018

O CEMITÉRIO DE MOÇÂMEDES COMO PATRIMÓNIO HISTÓRICO E CULTURAL (by MariaNJardim)




O aristocrático mausoléu onde repousam os restos mortais de JOÂO DUARTE DE ALMEIDA


O aristocrático mausoléu onde repousam os restos mortais do Dr. JOÂO CABRAL PEREIRA LAPA E FARO




A morte na história da humanidade sempre foi a única certeza, e com ela o desejo de  encontrar o caminho para a imortalidade. No antigo Egito os faraós buscavam em suas pirâmides aceder à vida eterna. O reis e heróis  da Grécia Antiga deixam seus feitos registados para a posteridade como forma encontrada para alcançarem a imortalidade. Daí que os Cemitérios ou necrópoles de todo o mundo ultrapassem as funções ritualísticas e religiosas, sejam olhados como lugares de tristeza e de dor, espaços onde os entes queridos encontram o repouso eterno,  para se tornarem no tempo actuais, também, um património histórico, artístico e cultural, lugares de  memória, que guardam Historia, que exibem Arte, e, assim sendo, caminhar por um Cemitério pode proporcionar muito mais que sentimentos de  perda irreparável de um ente querido, a arte tumular pode despertar os sentidos, trazer prazer ao observador. Cemitérios oferecem-nos uma viagem no tempo, eles contam histórias sobre a História e sobre as gentes que habitaram as cidades, são testemunhos do ambiente político, artístico, cultural e social da sucessão das épocas desde que foram construídos,  obedecem em quase tudo à organização das cidades dos vivos. Possuem ruas e sepulturas numeradas, tal como as portas das casas, possuem capelas, sepulturas nobres e caras, simples campas de terra batida, zonas mais e menos valorizadas onde costumam estar sepultadas as personalidades mais influentes e menos influentes da terra, mantendo uma hierarquização social que se estende além da vida.

Com a avançar do século XX,  entrada no século XXI e a opção dos crematórios, os Cemitérios perderam o esplendor dos velhos tempos, enquanto depósitos de corpos sem vida, para se tornarem verdadeiros Museus ao ar livre, uma mais valia a conhecer e a explorar. Como defende Francisco Queiroz: “a arte fúnebre foi criada para homenagear os mortos, mas também para os vivos desfrutarem dela”. 

Seguindo o exemplo de outros países, as Câmaras em Portugal começam a investir na preservação dos Cemitérios. Em Paris a prática da visitação turística de Cemitérios instalou-se no início do século XIX. Em Lisboa, há visitas guiadas gratuitas duas vezes por mês, aos sábados ao Cemitério dos Prazeres, sendo a procura  cada vez maior, e as receitas  crescentes com o aumento do turismo cemiterial. Neste Cemitério, o terceiro maior da Europa,  as visitas ao jazigo dos duques de Palmela batem records em termos de visitação turística. Por tudo isso, em grande número de países, Cemitérios tornaram-se espaços de visitação turística disputadíssimos. A Rota Europeia dos Cemitérios é hoje uma realidade entre os povos que melhor os souberam  preservar a velha casa dos mortos. A prática de visitar cemitérios pelo simples prazer de os conhecer tem até um nome: o  Necroturismo.   

Abstraindo-nos da consideração que todos os mortos merecem, independentemente do seu estatuto social, não podemos deixar de chamar a atenção para os mausoléus "aristocráticos" ainda hoje existentes no Cemitério de Moçâmedes, erguidos em homenagem a colonos fundadores, a maioria dos quais pela Câmara Municipal da cidade.  Resistentes ao tempo e à degradação,  esses artísticos mausoléus, juntamente com  um ou outro Jazigo familiar de construção alguns doa quais já do século XX,  imprimiam ao Cemitério de Moçâmedes aquele aspecto "dignificante" que ia muito para além de um "quintal de mortos",  como alguém lhe chamou. A maioria das  sepulturas eram  singelas, umas cobertas a mármore branco (uma das riquezas industriais do Distrito), outras contornadas por um simples muro pintado a cal branca,  todas encimadas por uma cruz,  símbolo dos cristãos. Algumas com dedicatórias, no geral um conjunto que se articulava bem com uma população de gente pobre e remediada que fez do mar, ao amanho da terra e ao comércio o seu ganha pão.  Em Moçâmedes os ricos sempre foram muito poucos, se é que se poderiam assim considerar, comparando com as fortunas de hoje. Mas havia, e João Duarte d' Almeida, aquele a quem aqui abordaremos, podia se considerar um deles.   Muitas das mais humildes sepulturas já desapareceram, outras  vão resisindo ao tempo e à degradação. Os "aristocráticos mausoléus", bem como os jazigos de família parecem em bom estado. O Cemitério no geral  era simples, mas arrumadinho e sempre coberto de flores.
 
Este assunto é trazido aqui porque talvez um dia Moçâmedes e este Cemitério venham a ter o lugar que merecem, na rota do Turismo nacional e internacional...  A cidade e o distrito têm condições para tal, e se assim for talvez este Cemitério e estes  aristocráticos Mausoléus, sob os quais respousam  restos mortais de colonos fundadores, venham suscitar a curiosidade de guias turísticos, de estudantes  em busca de História para as suas teses, de escritores, historiadores, jornalistas, curiosos, enfim, nacionais e estrangeiros, fonte de divisas. Governar exige alcance e visão! Moçâmedes é uma cidade carente de monumentos, carente de símbolos desta dimensão, não os deveria desperdiçar. Estes Mausoléus merecem ser olhados como aquilo que na verdade são: monumentos históricos ligados à fundação da cidade! Quem dera a qualquer um país europeu, engajado ou não na via do Turismo Internacional, encontrar, ao escavar a terra do seu território,  simbolos da presença do Império Romano... O Cemitério de Moçâmedes está ali, quase sem custo nem grandes  trabalhos, excepto os da sua preservação, a oferecer-se a quantos o  o quiserem visitar ... e "beber" um pouco da História da cidade e Distrito!  Apenas espera o reconhecimento e a preservação que tardam em chegar!
 
Sem fazer a apologia do colonialismo, baseando-me apenas em relatos de factos, abordarei em seguida alguns dos mais importantes aspectos da vida e da obra de duas personalidades, que acompanharam o despontar da cidade Moçâmedes, à qual dedicaram todo o seu esforço e labor , cujos restos mortais repousam neste Cemitério sob dois artisticos  Mausoléus: o grande agricultor João Duarte d´' Almeida, e o 1º médico-cirurgião da cidade, o  Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro.
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João Duarte d´' Almeida, considerado um dos colonos fundadores, embora não tivesse feito parte de nenhum dos grupos de colonos vindos de Pernambuco, Brasil em 1849 e 1850. Era natural de Midões, (Beira Baixa - Portugal), e com mais 4 irmãos era filho de João Duarte de Almeida (bacharel em medicina), e de D. Ana Emília Duarte de Almeida (nome de solteira Ana Emília Brandão, natural de Midões, prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça em Portugal). Nasceu em 26 de Março de 1822 e faleceu no dia 9 de Julho de 1898, em Moçâmedes, onde repousa no Cemitério local, sob artístico mausoléu mandado erguer por sua esposa e filhos.
 
O artístico mausoléu só por si já é uma obra de arte para quem tenha a capacidade de para ele olhar e o apreciar, numa terra tão carente de monumentos. O túmulo de João Duarte d' Almeida, erguido por subscrição pública, não apenas se distingue e se projecta no Cemitério de Moçâmedes, mas também evoca memórias ligadas aos primórdios da colonização, e remete para a História das Religiões e para a História das Mentalidades.

João Duarte d' Almeida foi um grande agricultor, um empreendedor de sucesso, um desbravador de terras incultas, cujos produtos, alguns anos apenas a seguir a fundação já estavam presentes em várias exposições agrícolas e industriais (de Paris, de Antuérpia, do Porto, etc), onde foi contemplado com medalhas de ouro pela boa apresentação. Produtos de Moçâmedes!

Não é possível falar de Duarte de Almeida com propriedade, sem falar da terra que o pioneiro viu nascer. João Duarte d'Almeida foi protagonista de momentos-chave na História de Moçâmedes, inde deixou a sua marca. Eis, para memória futura, alguns feitos ligados a Moçâmedes e à sua pessoa:

- Assinou a célebre "Escritura de Promessa e Voto", acto solene do reconhecimento do 4 de Agosto de 1849, como dia de Moçâmedes, a celebrar anualmente, na Igreja Matriz, com missa rezada e cantada com "Te Deum Laudamus", costume que ainda perdura. 
 
-Esteve investido nos cargos de juiz substituto e de Presidente da Câmara Municipal. E pelo alto desempenho em favor do progresso de Moçâmedes foi agraciado com as comendas das "Ordens de Cristo" e de "Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa".

-Juntamente com Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o chefe da 1ª colónia de 1849, desenvolveram esforços pela abolição total do tráfico de escravos, então já abolido pela lei de 12 de Dezembro de 1836, mas que continuava a processar-se  na clandestinidade. Ambos lutaram pelo  de fim da escravatura interna, e estiveram  em contacto com o general Sá da Bandeira, o paladino da abolição, a quem iam dando conta da situação na colónia, e a quem solicitaram o estabelecimento de um regime de trabalho livre, contra situações de escravatura interna. Sobre ambos caiu o odioso dos traficantes de Luanda e de Benguela que ansiavam por manter o seu status-quo. (1)
 
- O seu nome bem como da sua fazenda de S. João do Norte, estão intimamente ligados ao cemitério de São Nicolau, um dos locais mais interessantes para estudo da arte tumular Mbali ou Mbari, a arte tumular do povo "quimbar", e à obra de um dos mais afamados canteiros negros – Victor Jamba - um ex-escravo, serviçal que ele mandou especializar-se em Lisboa em estelas funerárias, o que denota sensibilidade estética. 
 
A Arte Mbali ou Mbari, arte invulgar em África, surgida antes do seu falecido em 1898, representa uma cultura de fusão (afro-cristã) que se traduz em cruzetas de pedra de filtro, e em madeira ou cimento armado trabalhados, que eram colocadas nas sepulturas um ano após a morte, por ocasião da "festa da cruzeta", à qual era atribuída a tríplice função de propiciação do espírito do morto, sua identificação e veneração. Os canteiros "quimbares" de Moçâmedes inseriam nas cruzetas, trabalhos em relevo que descreviam o que as pessoas haviam sido em vida, o que faziam, como eram fisicamente, os seus interesses, os acontecimentos que as marcaram, e tudo isso através da representação dos utensílios profissionais dos falecidos ou outros símbolos identificadores, tais como a"mão cortada" (em representação dos manetas); o "cachimbo de cangonha" (em representação dos fumadores); o "leão" (para os caçadores); a "bola" (para o futebolista), e outros símbolos mais como o "chicote", a "palmatória", o "cajado do capitão", a "cobra de que fora mordido", o oficio que possuía ao falecer, etc... Infelizmente as histórias que ali se contam são frágeis face às chuvas e ventos fortes e muitas cruzetas acabavam partidas. Da sua autoria, eram as estelas do "túmulo dos leõezinhos", as que representam um tractorista, um tanoeiro, etc que ilustram alguns textos dedicados ao assunto. Desconhecemos o que foi feito delas, se ainda existem ou em que estado se encontram . Uma preciosidade para a História de Moçâmedes.

As ideias de João Duarte d' Almeida e de Bernardino Abreu e Castro, desagradavam aos grandes comerciantes de tráfico negreiro de Luanda e de Benguela, que não sabiam nem queriam lidar com outro tipo de «mercadoria» se não o escravo. A exportação do marfim, da cera, da goma copal, da urzela não lhes interessava nem aos seus concessionários, uns e outros habituados aos grandes lucros, com pouco esforço. A incapacidade de reconversão conduziu ao desespero as burguesias africanas destas duas cidades, cujos textos históricos nos dizem que eram maioritariamente mestiças , resultado da fusão entre alguns brancos e negras,  que beneficiavam do vil negócio, em conluio sobas do interior próximo, intermediários negros a partir do sertão. Esta organização envolvia negociantes na sua maioria com interesses no Brasil e durante séculos alimentou a economia angolana (feiras), bem como a Corôa portuguesa através dos direitos aduaneiro. Envolveu brancos, negros e mestiços, gente do lado de cá e de lá do Atlântico que acabariam por entrar em decadência com a vigilância marítima internacional e as pressões por parte do Governo da metrópole, então nas mãos dos liberais. Foi apenas em 1869, que foi abolido o estado de escravidão, mas há notícia que o trabalho compelido se arrastou por muito mais tempo, alimentou a nova ordem a partir de então estabelecida, e teve o seu término em 1961.

São algumas memórias que o túmulo de João Duarte d' Almeida evocam. Positivas e negativas, temos que nos confrontar com elas, nunca pondo de parte o contexto e as mentalidades da época! (2)
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Parando em frente ao mausoléu de um outro pioneiro da fundação, o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro, diríamos que o 1º médico-cirurgião da terra, cuja vida foi quase toda vivida em Moçâmedes, onde faleceu, embora não estivesse incluido no grupo dos de Pernambuco, Brasil, ali chegados em 1849 e 1850, não se limitou a exercer clínica, entrando para salvar as gentes da terra, tanto no Palácio como na mais humilde palhota dos arredores. Em Moçâmedes o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro mandou construir a célebre casa da ex-Rua Calheiros, de arquitectura de inspiração romântica, em "Arte nova", ou "Arte noveau", que remonta aos primórdios da fundação, quando Moçâmedes pouco mais era que um imenso deserto, a maioria das casas eram ainda precárias, e difícil e até mesmo impossível era a obtenção do material necessário, uma vez que tudo vinha de longe. O movimento "Arte nova", ou "Arte noveau", surgiu em Paris na 2ª metade do século XIX, e espalhou-se pela Europa, Estados Unidos e outros países do mundo, e chegou à África e a Moçâmedes graças a este talentoso 1º médico-cirurgião de Moçâmedes que deixou igualmente um palacete numa Horta vizinha do sítio da Aguada.  Em ambos os casos um riquíssimo património. Infelizmente nem no tempo colonial, nem nos dias de hoje, o belo edifício em Arte Noveau, carente de conservação e de restauro, tem recebido a consideração que merece.

Mas há outras facetas da vida deste médico, Lapa e Faro era uma personalidade singular, ele próprio um artista, um artesão, um apaixonado por África, comparado a um Robinson Crusué, pela sua habilidade em todos os ofícios, capaz de cozer a sua própria roupa, seja calça sejam chapéus, como tratar doentes na sua qualidade de médico que comodamente visitava servindo-se de um carro de novo género, que tinha por motor um boi-cavalo, e que havia mandado construir para transportar as pessoas doentes ou fragilizadas, e para frequentar caçadas pelos areais do Deserto do Namibe.
Preferia viver no campo, na sua casa da Horta ou na Quinta dos Cavalleiros, vizinha da de Bernardino, onde tenciona ter-se-ia ocupado da cultura do algodão.

Lapa e Faro acompanhou o major Rudski quando iniciou o primeiro estabelecimento no Porto de Pinda, em 08.12.1854. Além de médico e articulista foi um elemento activo na vida de Moçâmedes, a quem são devidas várias realizações. No Diário da Câmara dos Deputados de 18 de Janeiro de 1878 conta-se ter sido levado a debate o assunto da construcção da casa para o tribunal de justiça, a construção do palácio do governo, estudos para uma ponte de embarque o desembarque, e de uma estrada de Moçâmedes para Huila, e ainda estudos para a construcção da casa para repartição de obras publicas, deposito e observatório meteorologico, casa para cadeia, casa para escola, hospital, quartel, e para a conclusão da terraplanagem no interior da fortaleza. Cunha Moraes, no seu "Album Photografico Descriptivo", publicado por volta de 1888, sobre as obras do Palácio-residência do Governador de Moçâmedes, iniciados em 1858, por ordem do Governador Fernando da Costa Leal, e concluído trinta e um anos depois, continuado mais tarde, conta que estas decorreram segundo um risco de Lapa e Faro que veio sofrendo várias modificações,.

Quantas memórias e quanta História estes túmulos suscitam !

João Duarte d' Almeida e o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro são apenas dois pequenos exemplos. Há muitos mais!


Pesquisa e texto de MariaNJardim 
 
 (1) Para quem deconhece, estes eram tempos de reconversão económica em Angola, em que o General Sá da Bandeira, após a queda do regime absolutista em Portugal, aproveitando-se de uma conjuntura favorável apressou-se a publicar o decreto da abolição do tráfico de escravos em território português. Existia até então em Angola, como em várias colónias de África, todo um sistema económico montado na base do tráfico legal de escravos para o Brasil e Américas, que  passou a fazer-se na clandestinidade, fugindo ao Decreto abolicionista e às brigadas marítimas portuguesas e inglesas que patrulhavam a costa. Era um tempo de falta de braços de trabalho, de fuga de escravos, em que o governo português fora levado a distribuir os escravos libertados de navios negreiros apresados, pelas actividades económicas em formação, e Moçâmedes também recebeu escravos libertados de navios negreiros apresados, sem os quais a ainda incipiente economia do distrito estava em risco de tudo deitar a perder. 
 
 
(2) A História tem que ser compreendida tendo por base o quadro mental e cultural de cada época, e não à luz da concepções actuais. Felizmente Moçâmedes nasceu quando era já encerrado  o anterior pardigma de 3 séculos de tráfico de escravos, essencialmente dirigido para o Brasil, mas não ainda a escravatura interna, que foi  a forma que o poder centralizado na Metrópole encontrou,  no contexto da "corrida a Africa" de potência europeias cobiçosas,   de aceder à mão de obra barata, mesmo forçada, para o lançamento das infraestruturas essenciais, no quadro de um novo paradigma colonial que se pretendia de fixação, desenvolvimento e progresso.Também em causa a necessidade de atracção de Companhias Majestáticas de capitais mistos para a colónia de que foi exemplo a Diamang , que chegou a ser considerada  "um Estado dentro de outro Estado" . Os colonos eram descapitalizados.  
 
Um enfoque ao nível das mentalidades vigentes no Portugal esclavagista, remete-nos  para um tempo contemporâneo da instituição "macabra" que se infiltrou e dominou  Igreja Católica Tridentina,  o Tribunal do Santo Oficio ou INQUISIÇÃO. Como admirar os nossos Reis e Nobres tenham enveredado para o tráfico, quando em pleno Rossio se queimavam pessoas, acusadas  de heresia, essencialmente Judeus, mesmo cristãos-novos, mas também simples mulheres  curandeiras acusadas de "bruxas", com todo o povo convidado a ver? Por esse tempo em que a medicina apenas ainda servia os grandes, e eram elas que através de mézinhas , benzedutas, etc. levavam aogum conforto às gentes mais humildes da população que era a maioria.  Sabe-se que a vil Instituição já muito enfraquecida,  foi abolida em 1920, após o 1º embate da luta travada entre liberais e absolutistas.  Em 1834 com o triunfo do liberalismo em Portugal, após 14 anos de lutas, em 12 de Dezembro de 1836, foi apressadamente pelo mesmo General, abolido na lei o tráfico de escravos. Mas iria correr ainda muita tinta...


NOTA:

Em 1862 é publicado o livro de autor anónimo, denominado “45 Dias em Angola", onde o autor, que esteve em Moçâmedes  no ano de 1861,  12 anos após a fundação, refere deste modo, que de início os colonos iam a enterrar num terreno para os lados das Hortas,  na periferia norte da cidade, e que naquela data já se encontrava erguido o Cemitério:

"... Entre as Hortas e a Villa, veem-se espalhados alguns túmulos e cruzes toscas, levantadas em memoria dos primeiros colonos que alli se foram estabelecer. Aquelle cemitério está abandonado, por terem feito outro em sitio mais próprio e convenientemente disposto." Fim de citação
 
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