segunda-feira, 23 de abril de 2018

O CEMITÉRIO DE MOÇÂMEDES COMO PATRIMÓNIO HISTÓRICO E CULTURAL (by MariaNJardim)





 












Na história da humanidade, a morte sempre foi a única certeza. Junto com ela veio o desejo encontrar o caminho para a imortalidade. Os faraós do antigo Egito buscaram em suas pirâmides a vida eterna. Deixar seus feitos registados para a posteridade foi a forma encontrada por heróis e reis da Grécia Antiga, para alcançarem a imortalidade. Daí que os cemitérios ou necrópoles sejam muito mais do que um lugar de descanso para entes queridos. Eles ultrapassam as suas funções ritualísticas e religiosas para se tornarem, também um patrimônio arqueológico, artistico, histórico e cultural. São pois lugares de Arte, que guardam Historia, que suscitam memórias, sendo alguns cemitérios verdadeiros museus ao ar livre.

E assim sendo, andar por um cemitério pode proporcionar muito mais do que um sentimento de tristeza e de dor pela perda irreparável de um ente querido. A arte tumular pode despertar os sentidos, trazer prazer ao observador. Cemitérios oferecem-nos uma viagem no tempo. São espaços que contam histórias sobre a História e sobre as gentes que habitaram as cidades que os incluem, são testemunhos do ambiente político, artístico e social da sucessão das épocas desde que foram construídos. Alguns cemitérios podem ser considerados verdadeiros museus ao ar livre.

Os cemitérios obedecem, em quase tudo, à organização das cidades dos vivos. Cemitérios possuem ruas e sepulturas numeradas, tal como as portas das casas. Possuem capelas, sepulturas nobres e caras, simples campas de terra batida, zonas mais e menos valorizadas onde costumam estar sepultadas as personalidades mais influentes e menos influentes, criando-se uma hierarquização social que se estende além da vida.

Com a avançar do século XX, a entrada no século XXI, e a opção dos crematórios, os cemitérios perderam o esplendor dos velhos tempos enquanto depósitos de corpos sem vida, para se tornarem verdadeiros museus ao ar livre e lugares de arte, de história, de arquitectura, de escultura e de genealogia. É o que explica boom actual do necroturismo europeu. Como defende Francisco Queiroz, “a arte fúnebre foi criada para homenagear os mortos, mas também para os vivos desfrutarem dela”. Em Lisboa, no Cemitério dos Prazeres as visitas ao jazigo dos duques de Palmela, o terceiro maior da Europa, bate records em termos de visitação turística.

Por tudo isso, em grande número de países, os cemitérios tornaram-se espaços de visitação turística disputadíssimos. A prática de se visitar cemitérios pelo simples prazer de conhecê-lo tem até um nome: necroturismo. Em Lisboa, há visitas guiadas gratuitas duas vezes por mês, aos sábados ao Cemitério dos Prazeres, a procura é cada vez maior, e as receitas são crescentes, com o aumento do turismo cemiterial, As Câmaras em Portugal começam a investir na preservação dos cemitérios seguindo o exemplo de outros países. Em Paris a prática da visitação turística de Cemitérios instalou-se no início do século XIX.

A Rota Europeia dos Cemitérios é hoje uma realidade entre os povos que melhor preservaram e continuam a preservar os seus mortos, porque mais cedo tomaram consciência do valor artistico, cultural e histórico da velha casa dos mortos. Porque cemitérios integram Arte, História,suscitam memórias, alguns são verdadeiros museus ao ar livre, uma mais valia a conhecer e a explorar.


Abstraindo-me da consideração que todos mortos merecem, independentemente do seu estatuto social, estou a lembrar-me do valor histórico dos mais importantes mausoléus e jazigos existentes no cemitério de Moçâmedes, que têm resistido ao tempo e à degradação e remetem para a fundação da cidade. Sim, porque talvez excepto jazigos e mausoléus, mais e menos imponentes, as mais humildes sepulturas, sem ter quem delas cuide, nestes 40 anos, já devem ter desaparecido com a voragem do tempo.

Este assunto é trazido aqui porque talvez um dia Moçâmedes venha a ter o lugar que merece no Turismo nacional e internacional, e talvez este Cemitério possa vir a enfileirar o roteiro dos lugares a visitar, e até mesmo vir a ser visitado por estudantes no decurso de pesquisas para trabalhos escolares e de licenciaturas, como por escritores, historiadores, curiosos, etc .

E se assim vier a acontecer, o guia turístico de uma rota por este Cemitério torna-se indispensável. Passando ao lado de cada túmulo ele terá que fazer um resumo da vida e da acção em Moçâmedes de alguns dos colonos fundadores que ali respousam e cujos túmulos chegaram aos nossos dias.


Sem fazer a apologia do colonialismo, baseando-me apenas em relatos de factos, passo a mostrar alguns dos mais mais importantes túmulos presentes no Cemitério de Moçâmedes. Este é túmulo do colono João Duarte d´' Almeida, considerado um dos colonos fundadores, embora não tivesse feito parte de nenhum dos grupos de colonos vindos de Pernambuco, Brasil em 1849 e 1850.
Era natural de Midões, (Beira Baixa - Portugal), e com mais 4 irmãos era filho de João Duarte de Almeida (bacharel em medicina), e de D. Ana Emília Duarte de Almeida (nome de solteira Ana Emília Brandão, natural de Midões, prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça em Portugal). Nasceu em 26 de Março de 1822 e faleceu no dia 9 de Julho de 1898, em Moçâmedes, onde repousa no Cemitério local, sob artístico mausoléu mandado erguer por sua esposa e filhos.
O artístico mausoléu só por si já é uma obra de arte para quem tenha a capacidade de para ele olhar e o apreciar, numa terra tão carente de monumentos. O túmulo de João Duarte d' Almeida, erguido por subscrição pública, não apenas se distingue e se projecta no Cemitério de Moçâmedes, mas também evoca memórias ligadas aos primórdios da colonização, e remete para a História das Religiões e para a História das Mentalidades.

João Duarte d' Almeida foi um grande agricultor, um empreendedor de sucesso, um desbravador de terras incultas, cujos produtos, alguns anos apenas a seguir a fundação já estavam presentes em várias exposições agrícolas e industriais (de Paris, de Antuérpia, do Porto, etc), onde foi contemplado com medalhas de ouro pela boa apresentação. Produtos de Moçâmedes!

Não é possível falar de Duarte de Almeida com propriedade, sem falar da terra que o pioneiro viu nascer. João Duarte d'Almeida foi protagonista de momentos-chave na História de Moçâmedes, na qual deixou a sua marca. Eis, para memória futura, alguns feitos ligados a Moçâmedes e à sua pessoa:

- Assinou a célebre "Escritura de Promessa e Voto", acto solene do reconhecimento do 4 de Agosto de 1849, como dia de Moçâmedes, a celebrar anualmente, na Igreja Matriz, com missa rezada e cantada com "Te Deum Laudamus", costume que ainda perdura. Esteve investido nos cargos de juiz substituto e de Presidente da Câmara Municipal. E pelo alto desempenho em favor do progresso de Moçâmedes foi agraciado com as comendas das "Ordens de Cristo" e de "Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa".

- O seu nome bem como da sua fazenda de S. João do Norte, estão intimamente ligados ao cemitério de São Nicolau, um dos locais mais interessantes para estudo da arte tumular Mbali ou Mbari, a arte tumular do povo "quimbar", e à obra de um dos mais afamados canteiros negros – Victor Jamba - um ex-escravo, serviçal que ele mandou especializar-se em Lisboa em estelas funerárias. A Arte Mbali ou Mbari, arte invulgar em África, surgida antes do seu falecido em 1898, representa uma cultura de fusão (afro-cristã) que se traduz em cruzetas de pedra de filtro, e em madeira ou cimento armado trabalhados, que eram colocadas nas sepulturas um ano após a morte, por ocasião da "festa da cruzeta", à qual era atribuída a tríplice função de propiciação do espírito do morto, sua identificação e veneração. Os canteiros "quimbares" de Moçâmedes inseriam nas cruzetas, trabalhos em relevo que descreviam o que as pessoas haviam sido em vida, o que faziam, como eram fisicamente, os seus interesses, os acontecimentos que as marcaram, e tudo isso através da representação dos utensílios profissionais dos falecidos ou outros símbolos identificadores, tais como a"mão cortada" (em representação dos manetas); o "cachimbo de cangonha" (em representação dos fumadores); o "leão" (para os caçadores); a "bola" (para o futebolista), e outros símbolos mais como o "chicote", a "palmatória", o "cajado do capitão", a "cobra de que fora mordido", o oficio que possuía ao falecer, etc... Infelizmente as histórias que ali se contam são frágeis face às chuvas e ventos fortes e muitas cruzetas acabavam partidas. Da sua autoria, eram as estelas do "túmulo dos leõezinhos", as que representam um tractorista, um tanoeiro, etc que ilustram alguns textos dedicados ao assunto. Desconhecemos o que foi feito delas, se ainda existem ou em que estado se encontram . Uma preciosidade para a História de Moçâmedes.

Para além destes aspectos, João Duarte d' Almeida juntamente com Bernardino Abreu e Castro, chefe da 1ª colonia de 1849, desenvolveram esforços pela abolição total do tráfico de escravos e o fim da escravatura interna. Ambos estiveram em contacto com o general Sá da Bandeira, a quem iam dando conta da situação e solicitando o estabelecimento de um regime de trabalho livre, contra situações de escravatura interna, e de tráfico clandestino que se estabeleceram a seguir à abolição do tráfico de escravos para o Brasil e Américas, em 1836.

Para os que não sabem, estes eram tempos de reconversão económica de Angola, em que Sá da Bandeira, após a queda do regime absolutista em Portugal, aproveitando-se de uma conjuntura favorável apressou-se a publicar o decreto da abolição do tráfico de escravos em território português. Existia até então em Angola e em várias colónias de África, todo um sistema económico montado na base do negócio legal de escravos para o Brasil e Américas, que se esboroou, e passou a fazer-se na clandestinidade, fugindo ao Decreto abolicionista e às brigadas marítimas portuguesas e inglesas que em perseguição do mesmos, patrulhavam a costa. Era um tempo de falta de braços de trabalho, de fuga de escravos, em que o governo português fora levado a distribuir os escravos libertados de navios negreiros apresados, pelas actividades económicas em formação em que Moçâmedes também recebeu escravos e ex-escravos libertados de navios negreiros apresados, sem os quais a economia do distrito estava em risco de tudo deitar a perder.

As ideias de João Duarte d' Almeida e de Bernardino Abreu e Castro, desagradavam aos grandes comerciantes de tráfico negreiro de Luanda e de Benguela, que não sabiam nem queriam lidar com outro tipo de «mercadoria» se não o escravo. A exportação do marfim, da cera, da goma copal, da urzela não lhes interessava nem aos seus concessionários, uns e outros habituados aos grandes lucros, com pouco esforço. A incapacidade de reconversão conduziu ao desespero as burguesias destas duas cidades, cujos textos históricos nos dizem que eram maioritariamente mestiças que beneficiavam do vil negócio, em conluio sobas e intermediários negros a partir do sertão. Esta organização que envolvia negociantes na sua maioria com interesses no Brasil e que durante séculos alimentou a economia angolana, e a Corôa portuguesa através dos direitos aduaneiros cobrados, envolveu brancos, negros e uma maioria mestiça, gente do lado de cá e de lá do Atlântico que acabaria por entrar em decadência com a vigilância marítima internacional e as pressões por parte do Governo central. Foi apenas em 1869, que foi abolido o estado de escravidão, mas há notícia que o trabalho compelido se arrastou por muito mais tempo e que alimentou a nova ordem a partir de então estabelecida.

A História tem que ser compreendida no quadro da mentalidade e da cultura de cada época.

São algumas memórias que o túmulo de João Duarte d' Almeida evocam. Positivas e negativas, temos que nos confrontar com elas, nunca pondo de parte o contexto e as mentalidades da época!



Parando em frente ao mausoléu de um outro pioneiro da fundação, o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro, diríamos que o 1º médico-cirurgião da terra, cuja vida foi quase toda vivida em Moçâmedes, onde faleceu, embora não estivesse incluido no grupo dos de Pernambuco, Brasil, ali chegados em 1849 e 1850, não se limitou a exercer clínica, entrando para salvar as gentes da terra, tanto no Palácio como na mais humilde palhota dos arredores. Em Moçâmedes o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro mandou construir a célebre casa da ex-Rua Calheiros, de arquitectura de inspiração romântica, em "Arte nova", ou "Arte noveau", que remonta aos primórdios da fundação, quando Moçâmedes pouco mais era que um imenso deserto, a maioria das casas eram ainda precárias, e difícil e até mesmo impossível era a obtenção do material necessário, uma vez que tudo vinha de longe. O movimento "Arte nova", ou "Arte noveau", surgiu em Paris na 2ª metade do século XIX, e espalhou-se pela Europa, Estados Unidos e outros países do mundo, e chegou à África e a Moçâmedes graças a este talentoso 1º médico-cirurgião de Moçâmedes que deixou igualmente um palacete numa Horta vizinha do sítio da Aguada. (1) Em ambos os casos um riquíssimo património. Infelizmente nem no tempo colonial, nem nos dias de hoje, o belo edifício em Arte Noveau, carente de conservação e de restauro, tem recebido a consideração que merece.

Mas há outras facetas da vida deste médico, Lapa e Faro era uma personalidade singular, ele próprio um artista, um artesão, um apaixonado por África, comparado a um Robinson Crusué, pela sua habilidade em todos os ofícios, capaz de cozer a sua própria roupa, seja calça sejam chapéus, como tratar doentes na sua qualidade de médico que comodamente visitava servindo-se de um carro de novo género, que tinha por motor um boi-cavalo, e que havia mandado construir para transportar as pessoas doentes ou fragilizadas, e para frequentar caçadas pelos areais do Deserto do Namibe.
Preferia viver no campo, na sua casa da Horta ou na Quinta dos Cavalleiros, vizinha da de Bernardino, onde tenciona ter-se-ia ocupado da cultura do algodão.

Lapa e Faro acompanhou o major Rudski quando iniciou o primeiro estabelecimento no Porto de Pinda, em 08.12.1854. Além de médico e articulista foi um elemento activo na vida de Moçâmedes, a quem são devidas várias realizações. No Diário da Câmara dos Deputados de 18 de Janeiro de 1878 conta-se ter sido levado a debate o assunto da construcção da casa para o tribunal de justiça, a construção do palácio do governo, estudos para uma ponte de embarque o desembarque, e de uma estrada de Moçâmedes para Huila, e ainda estudos para a construcção da casa para repartição de obras publicas, deposito e observatorio meteorologico, casa para cadeia, casa para escola, hospital, quartel, e para a conclusão da terraplanagem no interior da fortaleza. Cunha Moraes, no seu "Album Photografico Descriptivo", publicado por volta de 1888, sobre as obras do Palácio-residência do Governador de Moçâmedes, iniciados em 1858, por ordem do Governador Fernando da Costa Leal, e concluído trinta e um anos depois, continuado mais tarde, conta que estas decorreram segundo um risco de Lapa e Faro que veio sofrendo várias modificações,.

Quantas memórias e quanta História estes túmulos suscitam !

João Duarte d' Almeida e o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro são apenas dois pequenos exemplos. Há muitos mais!


Pesquisa e texto de MariaNJardim 

Este texto tem direitos de autor. Incorre em
PELÁGIO, devassa da propriedade intelectual, quem daqui o retirar e republicar sem a menção da autora


sábado, 24 de março de 2018

O Que Se Passou No Sul de Angola Ao Nascer Do Século XX















O conteúdo do assunto que trago a este Fio, baseia-se em cartas particulares enviadas pelos expedicionários. São muitas e procurei aproveitar a parte descritiva das mesmas.

Na capitania mór do Cuamato soube-se a 16 de Outubro de 1914 que ocorrera um incidente de gravidade na nossa fronteira de INGA. Tinha penetrado em território português uma força militar Alemã.

Essa força acampou a doze quilómetros do forte de Naulila , nos morros do Calueque.

O alferes Manuel sereno, comandante do posto de Otoquero, recebeu ordens para se dirigir com um pelotão de cavalaria e vinte soldados, para ali, afim de investigar o facto e proceder em harmonia com o que viesse a encontrar, para o que levava as respectivas instruções.

O alferes Sereno chegou ao acampamento alemão às quatro horas da tarde do dia 18. A tropa estrangeira, que acabara de cruzar o Cunene, era constituída pelo comandante, dois oficiais, um sargento, doze soldados europeus e vinte indígenas, todos montados. Receberam o alferes Sereno de forma cortês. Este, perguntou ao comandante alemão o que faziam ali, armados.

- « Venho em perseguição de um desertor e além disso pretendo falar com as autoridades do Humbe para conseguir autorização para ir ao Lubango »

O alferes Manuel sereno convida-o, então, bem como aos outros oficiais, a apresentarem-se ao capitão-mor do Cuamato. O oficial português jantou no acampamento alemão, não sem tomar as suas precauções. Combinaram partir no dia seguinte.

Das nossas vinte praças só oito podiam lutar. Durante a noite conversou-se amigàvelmente. Falou-se na guerra europeia. Os alemães estranharam que Portugal enviasse tropas para o sul de Angola numa época imprópria para a ocupação das terras dos Cuanhamas, e que declarasse que, embora aliado de Inglaterra, não queria de forma alguma hostilizar ou atacar as colónias germânicas.

O alferes Sereno replicou que as forças para ali enviadas se destinavam apenas a guardar as fronteiras.

A isto, respondeu um dos alemães, mostrando-lhe O Século de 15 de Agosto, onde foram inseridas declarações de um dos ministros daquele tempo, feitas no Parlamento, comentando que eram bem claras e que as tropas mandadas para o sul de Angola tinham por objectivo cooperar com a Inglaterra contra a Alemanha.

O oficial português ficou abismado. Ele só recebera jornais até 11 de Agosto. Soube-se mais tarde que era o consul alemão no Lubango, G. Schöss, quem remetia todos os jornais portugueses para a Damaralândia, informando os seus compatriotas de quanto precisavam conhecer, por nossa via.

Na manhão do dia 19, às oito horas, marcham para Naulila o comandante alemão, dois tenentes, um soldado europeu e três indígenas, onde chegaram cerca das nove horas.

O alferes Sereno mandou fazer alto, apearem-se, desaparelhar e dar ração aos animais e determinou que se fizesse almoço para todos. Combinou-se que concluida a refeição se dirigiriam para a capitania-mor do Cuamato.

Pouco depois, quando o oficial português se encaminhava para um barracão onde se deveria servir o almoço, a cento e cinquenta passos de onde se achavam as montadas, um cabo preveniu-o de que os alemães arreavam os cavalos à pressa. Não lhe respondeu e aproximou-se dos animais já prontos.

Nesse momento, montam ràpidamente e esporeiam os cavalos. Sereno deitou as mãos às rédeas da montada do comandante, intimando-o a que não persistisse em fugir.

O alemão puxou ràpidamente da carabina, soltou a patilha a apontou-lha ao peito...
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...O mesmo cabo 95, preveniu o seu superior deste movimento. Sereno deu a voz de " fogo ! "

Cairam logo dois oficiais, o tenente de infantaria e o veterinário. O comandante ficou ileso, mas um soldado, excelente atirador, varou-o com uma bala a trezentos metros. O projéctil incidiu na sela, pela retaguarda, atravessou uma chapa de ferro, penetrou-lhe por uma nádega e saiu-lhe pelo ventre, dobrado como ia o cavaleiro para apresentar um menor alvo.

O tenente de infantaria morreu instantâneamente: o comandante durou alguns minutos; o veterinário só na madrugada seguinte expirou.

O comandante, oficial muito novo e simpático, narrou ainda uma testemunha presencial, ferido de morte, teve a coragem de inutilizar alguns documentos que trazia na carteira, e cujos fragmentos foram encontrados mais tarde. Na refrega caiu prisioneiro um soldado alemão europeu e evadiram-se três praças indígenas.

Na retaguarda deste pequeno destacamento alemão concentravam-se mais forças com veículos. Vinham, segundo o alferes Sereno, receber os géneros de onze carros boers, aprisionados, por ele, durante os vinte e sete dias em que andou " em diligências " pela fronteira alemã.

Quem primeiro rompeu as hostilidades ?

Que aconteceu ao certo no Cuangar ?


Contava-se que após alguns dias de declarada a guerra na Europa, o comandante das tropas alemãs na fronteira visitara o comandante do forte do Cuangar, tenente Durão, comunicando-lhe que se iniciara a Campanha e que era natural que os portugueses, como antigos aliados de Inglaterra, combatessem ao lado desta.

Sendo assim, ele, oficial alemão, estaria no seu posto. O tenente Durão respondeu-lhe que, como oficial português, no seu posto estaria. Dizia-se que ambos eram amigos pessoais.

O tenente Durão tomou logo as medidas necessárias no sentido de evitar qualquer agressão, de surpresa.

Decorrido algum tempo o tenente Durão enviou uma nota ao Governador relatando-lhe que o oficial germânico voltara para o seu posto e lhe participara que Portugal se declarara neutro e que portanto ale iria ali para que se bebesse pela amizade da Alemanha e Portugal. Com isto, as precauções militares finalizavam.

Agora vejamos o que narrou um cabo europeu, natural do Minho, da 15ª companhia indígena;

« Na noite de 31 de Outubro, cerca das 03H00, quando tudo dormia, ouviram-se tiros disparados pelos sentinelas portugueses. As praças levantaram-se desarmadas, pois as espingardas e as munições estavam fechadas na arrecadação do forte. Correram nessa direcção.
Viram, então, pasmados, a bandeira alemã desfraldada no mastro e as peças e as metralhadoras dos assaltantes apontadas para a guarnição, metralhando-a. »

Segundo todas as probabilidades morreram, em resultado do insólito ataque, o comandante do posto, tenente Fonseca Durão, o comandante da 15ª companhia indígena, tenente Henrique Machado, o primeiro sargento Cabral, dezassete soldados indígenas, o negociante português e europeu, Nogueira Machado, a sua mulher e uma filha de três meses.

Cem praças indígenas e quinze europeias, não vendo forma de resistir, internaram-se no mato.

O cabo minhoto andou sózinho durante quatro dias. Só ao quinto dia topou com quatro segundos sargentos que também tinham conseguido escapar. Alguns dos portugueses só levavam ceroulas e iam descalços, tão brusco e inesperado fôra o ataque.

Assim andaram durante quinze dias pelas selvas sustentando-se de fruta brava, até que conseguiram chegar ao forte Calundo...
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...Vejamos agora o que deixou escrito de forma brilhante quem assistiu à sangrenta conjuntura de Naulila, o intrépido alferes João Guilherme de Menezes Ferreira.

« A 5 de Dezembro de 1914, pelas duas da madrugada, marcham do reducto de Moçambique uma bateria de metralhadoras, uma secção de peças Ehrardt e o resto do Esquadrão de Dragões em direcção a Naulila, a oitenta quilómetros do Humbe, afim de se juntarem às forças que nessa fortaleza constituem o núcleo de defesa de Naulila, na região da Inga, fronteiriça dos territórios alemães da Damara ( Unda e Ganguelas ), de modo a formar um destacamento relativamente forte, como os que estavam sendo organizados sucessivamente em todos os pontos de acesso provável do extremo sul de Angola: destacamento do Dongoena, do Cuamato, da Ediva e do Pocólo.

O destacamento de Naulila, com a chegada das unidades atrás referidas, conta as seguintes forças:

- Uma bateria Ehrardt com três peças, comandada pelo capitão Reis

- Uma bateria de quatro metralhadoras

- Um Esquadrão de Dragões com cem cavalos

- A 9ª Companhia de Infantaria 14 com duzentos e cinquenta homens

- Uma Companhia Indígena com cento e cinquenta landins.

No dia 9 recebem-se comunicações oficiais, informando que numerosas tropas alemãs, sob o comando superior do major Frank, se concentram nos territórios dos Cuambes, esperando que chovesse afim de poderem atacar os portugueses no posto de Naulila.

Como medida preventiva, um pelotão de cavalaria posta-se nos morros do Calueque, situados a quatorze quilómetros do forte.

Ponto elevado, serve perfeitamente para observação e atalaia e ajuda como núcleo de primeira resistência, caso o ataque dos alemães se pronuncie pelo lado do Cunene, que desliza por baixo dos morros e onde há um vau importante, designado pelo mesmo nome dos morros. Todos pressentiam que qualquer acontecimento importante se realizaria breve.

No dia 10 chega o tenente-coronel Roçadas com o chefe de estado-maior, idos do Cuamato. São portadores de noticias importantes. Dois lengas, chefes de guerra, enviados pelo soba Cuambe, sempre amigo dos portugueses e odiando o malúlú , termo pelo qual o indígena denomina o alemão, oferecem ao Cambuta , nome cafreal de Roçadas, os seus serviços, e informam que o major Frank atacará dentro de uma semana o acampamento português.

Acrescentam que o inimigo dispõe de numerosa artilharia e metralhadoras e que todas as suas forças vêm a cavalo.

Espalha-se por essa ocasião que o soba do Cuanhama manifestara desejos de que aceitássemos o auxilio de cinco mil guerreiros seus, afim de nos coadjuvar nas hostilidades contra os alemães. Mais corre que não foi aceite a oferta por estar nas instrucções do comandante da expedição a ocupação desse território.

Alves Roçadas não podia seguir outra linha de conducta. No entanto, remete-lhe de presente uma carreta boer carregada de géneros, bem como brinda o soba do Cuambi com três armas de guerra. »...

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...« No dia 11 o capitão Reis trata, em Ordem de Operações, da defesa de Naulila, e toma providências para qualquer caso de alarde. As forças distribuem-se pelos diferentes pontos com probabilidades de serem atacados.

No dia 12, a oficialidade está mais descansada. O capitão Reis prepara-se para repousar um pouco, porque desde que as forças expedicionárias chegam ali, o trabalho é incessante.

O receio de uma investida de surpresa preocupa todos.

É meio dia e meia hora. De súbito irrompe pela secretaria do Destacamento, o tenente Aragão, muito pálido, mas sereno. Perfila-se, faz a continência, dirige-se ao oficial presente, e diz:

- Meu capitão, acaba de chegar uma ordenança de Cavalaria dos morros, participando que o pelotão que ali se encontra está sendo atacado por patrulhas alemãs, a cavalo. V. Ex.ª dá licença que eu saia já com o Esquadrão ?

Esse oficial abraça-se ao tenente de cavalaria e exclama:

- Até que enfim !

O capitão Reis levanta-se ràpidamente e murmura.

- Ah ! Eles estão aí ? Vamos liquidar tudo.

Ouve-se, em seguida, três toques muito agudos, quase aflitivos. É o toque de alarde. Em quatro minutos tudo se encontra debaixo de armas e nas posições de combate. Decorridos cinco minutos sai o Esquadrão como se fosse para uma parada militar, levando à sua frente o tenente Aragão, juvenil, esbelto, com o " ar heróico do cavaleiro Parsifal ".

Então a ordenança que trouxera a participação informa mais pormenorizadamente.

O pelotão de Cavalaria postado nos morros, espalha-se em patrulhas de três homens. Andam em serviço de exploração quando duas destas avistam uns trinta alemães, que pretendem dar de beber ao gado no Cunene. Os nossos rompem logo fogo e retiram sobre os morros perseguidos pelos contrários. O alferes Heitor reúne todas as patrulhas e comunica o acontecido para Naulila.

Nova ordenança vem anunciar que o pelotão Português está sendo acometido por uma força de sessenta cavaleiros alemães e que a fuzilaria retumbe encarniçada nas margens do Cunene. O inimigo fere e aprisiona-nos dois soldados.

Em consequência destes factos, o comandante expede uma ordem ao Major Salgado, que se encontra do outro lado do rio, no cruzamento da estrada que liga Naulila com o forte da Dongoena, a vinte quilómetros, afim de marchar com a sua força, menos uma companhia, a 12ª de Infantaria 14, para o vau do Calueque, com o objectivo de impedir a passagem das forças alemãs.

« Convém explicar o seguinte », escreve o brilhante autor desta narrativa:

« Os escaços três mil homens da expedição europeia, disseminam-se pela comprida linha da nossa fronteira. Assim, a vinte quilómetros de Naulila acampa a força do Major Salgado, com duas Companhias de Infantaria 14, quinhentos homens e duas peças Canet. D'ali a dias devem juntar-se-lhe outras duas peças e o Esquadrão de Cavalaria 9 com duzentos cavalos, o que não se efectua. Esta dispersão de forças necessárias para ocupar toda a linha da fronteira com um efectivo reduzido, obriga os Destacamentos a permanecerem muito afastados uns dos outros e põem-nos em risco de, sendo um deles atacado por forças superiores, experimentar um inevitável desastre

Estando essas forças a quinhentos quilómetros do Lubango, centro dos nossos abastecimentos, é mais dificil e sobretudo mais complicado o serviço de abastecimentos das tropas distribuidas por tão ampla área do que para um ponto só, como de princípio se começara a organizar, devendo todas as forças concentrarem-se no forte do Cuanhama e todos os víveres serem dirigidos para esse ponto»...
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...« Quis o destino que todo esse trabalho se tornasse inútil, pois sendo o objectivo dos expedicionários a ocupação do Quanhama, tiveram que desfazer todos os trabalhos até ali organizados, para, com as suas diminutas forças e fracos elementos, se defrontarem com os alemães, que em 25 de Novembro começam a penetrar no nosso território e a concentrarem-se no Caludi e nos Ganguelas.

As forças germânicas na Damaralândia, em pé de guerra, podiam elevar-se a vinte mil homens bem armados e municiados.

Mesmo que distribuissem forças para o Sul, para a fronteira da União, para deter a marcha dos ingleses, fácil lhes foi, como o fizeram, enviar contra nós uma coluna de seis mil homens, o dobro do efectivo dos portugueses.

Além disso, pelas informações colhidas, averiguou-se que há mais de dois anos os alemães trabalhavam em Moçâmedes, no Lubango e em todos os centros do planalto da Huila, para nos hostilizar. Havia muita gente ao serviço da Alemanha para que mais tarde ou mais cedo saísse das nossas mãos esse " pomo de ouro abandonado ", como os alemães se exprimiam ao referirem-se aquela ubérrima e saudável região. Girava dinheiro a rôdo que corrompia bastantes moradores d'essa região, desde o mais infimo dos indígenas até alguns brancos, que por vergonha falam a nossa lingua.

Assegura-se que o Cônsul alemão no Lubango chegou a obter de um empregado ou sargento, do arquivo da secretaria do governo, uma carta e vários documentos importantes. E a acreditar nos boatos que então corriam, não parava por aqui a sua " curiosidade ". »


Todos presumiram, e com razão, que dado o incidente atrás descrito com o alferes Manuel Sereno, os alemães não se conservariam de braços cruzados.

O comando superior sentia a necessidade de enviar sem demora mais forças para a fronteira, mas...infantaria 14, as metralhadoras e as peças Canet ainda não tinham recebido munições suficientes, o Esquadrão de Dragões não possuia material de bivaque, tal como cozinhas, latas, barracas, etc., nem de guerra, como carabinas, espadas e lanças. Mais, faltavam os géneros que estavam em Moçâmedes.

Desta forma, levando os carros boers a pôr os abastecimentos de Vila Arriaga, estação terminus do Caminho de Ferro de Moçâmedes ao Lubango, dez ou doze dias, não havia tempo de se preparar tudo para que uma coluna forte e bem organizada em todos os serviços pudesse seguir para o Cunene.

Nessas condições, os expedicionários estacionaram no Lubango até fins de Outubro, à espera de víveres e munições em quantidade para empreenderem a marcha...
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..Na manhã de 13 de Dezembro parte para os morros um pelotão de Infantaria 14, sob o comando do alferes Figueiredo. O tiroteio recomeçou

Na véspera, quando o tenente Francisco Aragão chegara ao Calueque e depois da troca de alguns tiros, participam-lhe que ouviram gemidos lancinantes ao longe, gritos de feridos que tinham durado toda a noite e ainda até às onze da manhã do dia seguinte.

Esses queixumes, vindos da margem direita do Cunene, só podiam ser oriundos de soldados nossos. Todos os oficiais do Esquadrão se ofereceram para os ir buscar. Era noite. O tenente Aragão não consentiu na realização dessa generosa oferta e, explicou o porquê:

- « Se os alemães abandonam os primeiros feridos em vez de os levarem para os submeterem a interrogatório é porque pensam fazer-nos uma cilada. Colocaram os feridos naquele local como chamariz. Nós acudimos-lhes, caem-nos encima e aprisionam uma porção dos nossos, descuidados »

Esperam pela manhã. O tenente Aragão divide o Esquadrão em três pelotões e manda apagar todas as luzes. Sobre a madrugada, o pelotão do tenente Matias carrega sobre os alemães, ocultos no caniçado do rio.

O outro pelotão procura e levanta os feridos.

Um sargento dos Dragões aprisiona um alemão e parte um braço a um sargento inimigo, comandante de uma patrulha. Os nossos feridos viriam a contar depois que lhes tinha tirado os arreios e munições, colocando-os no caniçal a servirem de isco à cavalaria portuguesa.

Em 13 de Dezembro apenas se trocaram uns tiros de parte a parte. A 14 desapareceram os alemães. Os portugueses que já tinham iniciado os trabalhos de defesa de Naulila, continuaram no prosseguimento das suas tarefas ainda com mais rapidez.

Alves Roçadas chama mais uma Companhia de Infantaria, ascendendo assim as forças a setecentos homens de infantaria, três peças de artilharoia e metralhadoras e oitenta cavalos.

Interrogado o prisioneiro alemão, soube-se que o major Frank, sem autorização do seu governo, deleberara atacar o nosso acampamento, vingar a morte dos seus camaradas, prender o alferes Sereno e arrazar Naulila. O efectivo de que dispunha orçava por dois mil alemães, oito peças de artilharia e quinze metralhadoras.

No dia 15 houve um falso alarme. À tarde ocuparam-se as posições de combate, então a um quilómetro de Naulila, numa extenção de três quilómetros. Desde esse dia que se passou a esperar pelo ataque. Alves Roçadas veste o seu uniforme de kaki amarelo, o mesmo da Campanha do Cuamato em 1907, e que só envergava nas ocasiões em que se pressentia combate. Os postos avançados são constituidos por Cuamatos, armados pelos portugueses. Depois, verificar-se-ia que se tinham escapulido com os alemães.

Às quatro da tarde do dia 17, os nossos observadores avisaram de que se aproximava uma força germânica de trinta cavalos. Houve novo alarde no acampamento. Guarneceram-se todas as posições.

Às cinco horas, da tarde, chegava o alferes Andrade de Artilharia, vindo dos morros com as últimas informações acerca dos alemães, colhidas por enviados de confiança que entraram disfarçados no acampamento inimigo.

Essas informações condiziam com as informações fornecidas pelo prisioneiro das forças contrárias. Os víveres foram transportados em galeras puxadas por seis parelhas de mulas; o major Frank viria de automóvel e falava-se, ainda, num aparelho de telegrafia sem fio e em dois aeroplanos...

....

...Prepara-se tudo para ser atacado na madrugada seguinte. Nessa noite enviou-se aos morros, ao vau do Calueque, onde se achava a força do major Salgado com duzentos homens de infantaria e duas peças de artilharia e o tenete Aragão com os Dragões, ordem para atacar o acampamento alemão pela madrugada.

É altura para falar, aqui, num norueguês Brot Kurp, um traidor em quem se confiou em demasia. Incumbido de explorar o mato do lado dos alemães, voltou às quatro da manhã do dia 18, muito afadigado dizendo que andara de noite e se perdera, não tendo visto um único soldado germânico. A partir dessa altura não mais apareceria.

Perto das cinco horas da madrugada, houve-se ao longe o rodar rápido das viaturas de artilharia. Roçadas monta a cavalo. Às cinco e um quarto, retumbou o primeiro tiro e uma granada de artilharia passou por cima do Estado-Maior. Ouviu-se intensa fuzilaria no nosso flanco esquerdo, exactamente na parte mais fraca.

Foi desse lado que começou um ataque violentíssimo da artilharia e metralhadoras por parte dos alemães. Foi exactamente o contrário do que informara o norueguês. O Chefe do Estado-Maior ordenou que o flanco direito português avançasse de forma a atacar os alemães pelo flanco e retaguarda. Roçadas tirou os Pelotões do flanco direito e com eles dirigiu-se para o local mais ameaçado pois ali só se encontravam sessenta homens. Este rasgo de intrepidez ficou prejudicado, porque um dos Pelotões fraquejou.

O fogo de artilharia alemã era muito intenso, as metralhadoras faziam tais estragos nas nossas fileiras, que algumas praças indígenas retiram antes de chegarem às trincheiras. Por outro lado, o inimigo, vendo esboçada a nossa primeira investida pelo flanco e retaguarda, estendeu a sua linha e colocou a artilharia de forma a bater todas as posições dos portugueses. Ao fim de uma hora de bombardeamento o forte de Naulila estava arrazado e em chamas.

Os alemães crivaram o local onde se encontrava o estado-Maior de balas e de granadas. Os projécteis assobiavam em todos os sentidos. Soldados e oficiais caíam por todos os lados. as nossas metralhadoras tinham as suas munições quase esgotadas. as mulas espantadas fugiam em várias direcções. Naquele momento, uma metralhadora encravou-se; a guarnição tirou-lhe as peças principais e abandonou-a. Os alemães, desesperados com a mortandade produzida nas suas fileiras por aquelas armas, envidavam todos os esforços para as inutilizar. Um Pelotão de landins fugiu, mas nessa altura os alemães recuaram.

Os oficiais e soldados das nossas metralhadoras portaram-se com extraordinária bravura. Operaram verdadeiros milagres para não as deixarem cair nas mãos dos alemães. Uns e outros carregaram com cunhetes, pucharam-nas a braço e conseguiram trazê-las para a retaguarda, para trás de uma elevação de terreno.

Neste preciso momento delibera-se fazer um contra-ataque...
...Alves Roçadas mandou avançar para serem reconquistadas as nossas posições. De facto, estando já os alemães a cinquenta metros das trincheiras, pronunciou-se da nossa parte uma vigorosa ofensiva à arma branca, gritando todos cheios de entusiasmo ao verem os adversários retirarem. Não tardou, porém, um quarto de hora em que as metralhadoras e os canhões alemães, que se tinham calado, iniciassem de novo um fogo mortífero sobre os portugueses. Cuidando de uma das nossas peças só estava um cabo e o tenente Lobo.

O capitão Patacho e o alferes Menezes agarraram nos cunhetes e, apesar do seu enorme peso, puseram-os a salvo. A partir de agora a retirada tornou-se imperiosa. Roçadas tentou um último esforço, com o pelotão que ficou dentro do forte, com dois, reduzidos, de infantaria 14 e um de landins, este comandado pelo tenente Stokler.

Apesar da convicção de que seriam todos mortos ou aprisionados, mandou colocar uma peça de artilharia junto do forno onde se cosia o pão. Com esses cento e cinquenta homens, não mais, brancos e indígenas, arremessaram-se numa furia louca para a frente.

O triunfo não quis coroar esta última tentativa. A cavalaria germânica apareceu no flanco direito a cinquenta metros.

Iniciou-se o movimento de recuo. Atravessou-se o rio na melhor ordem, apesar do violento fogo dos adversários. É a única peça do tenente Lobo que protegeu a arriscada manobra e deteve a cavalaria disposta a carregar.

Houve desfalecimentos no renhido combate, mas em número tão pequeno e em casos tão isolados, que de pronto foram resgatados por brilhantes rasgos de heroísmo.

Os nomes do tenente Bettencourt de artilharia, ferido num braço e numa perna e que continuou a combater; a morte intrépida dos capitães Homem Ribeiro e Albano de Melo; o valor demonstrado pelos capitães Cunha e Patacho, alferes Menezes Ferreira, alferes Figueiredo do 14, chefe do Estado Maior capitão Maia Magalhães; a serenidade do capitão de artilharia Esteves; a fria coragem de Alves Roçadas; o admirável comportamento do Esquadrão de Dragões comandados pelo tenente Cunha Aragão e os alferes Alves e Andrade, o primeiro morto e os segundos feridos, para além de muitos outros, ficarão gravados para sempre nas páginas mais fulgurantes da história do Exército Português.

Vejamos, agora, como alguns oficiais narraram o episódio da carga dos Dragões, que só por si representa uma sublime manifestação do valor Lusitano.

« O tenente Francisco da Cunha Aragão ( Alves Roçadas, ao que tudo indica, tencionava propor a sua promoção a capitão POR DISTINÇÃO ) planeou apossar-se da artilharia alemã. Para o conseguir executou ousadas evoluções e chegou de uma vez a acometer as tropas germânicas pela retaguarda. Numa das investidas, soltas as rédeas, os Dragões cravaram as esporas nas ilhargas das montadas e por entre o vibrar metálico dos clarins e a gritaria rouquejante dos soldados, correram a toda a velocidade, envoltos em nuvens de poeiras, de estandarte desfraldado ao vento e de lança em riste.

Os alemães, espantados com tanta audácia, esporeiam os cavalos e preparavam-se para deterem a temerária investida unindo e reforçando as fileiras. A Infantaria inimiga formou um quadrado, protegida pela cavalaria, mas os nossos Dragões nem hesitaram.

Negros, queimados pelo sol tropical, cobertos de suor e de pó, espicaçaram doidamente os cavalos, que galopavam desesperados e doridos.

O espaço que separava as duas forças, desaparece.

O primeiro choque foi FORMIDÁVEL, IRRESISTIVEL. Semeou a morte e o exterminio. Nada lhe resistiu. O quadrado alemão foi rôto em vários pontos. Rolaram no chão, varados pelas lanças dos nossos, vários peões e cavaleiros contrários. As linhas germânicas foram, por momentos, desbaratadas. A superioridade do número de efectivos, permitiu-lhes reconstitui-las, não sem sérias dificuldades. No entanto a morte ceifou alguns dos nossos.

Bastantes foram os que cairam para não mais se erguerem, tendo na sua queda a acompanhá-los apenas o rápido olhar de despedida do seu camarada mais próximo, a quem a morte do companheiro novos alentos deu para a luta. O tenente Aragão, comandante desses bravos, tombou mortalmente ferido.

Ao resvalar da sela teve ainda para os soldados as seguintes palavras:

- " Para a frente, rapazes ! Não desanimem. Combatam e cumpram o seu dever, que eu já cumpri o meu."

E, abandonando as rédeas, caiu inanimado.

Para terminar:
Um simples Dragão perdeu o cavalo. Combateu algum tempo a pé. Quando a retirada se tornou inevitável, um camarada ofereceu-lhe a montada e convidou-o a segui-lo. Ele, teimosamente, heróicamente, recusou e exclamou:
- " Quero morrer onde me mataram o cavalo "
E lá ficou »
HOMERO NÃO ESMALTOU OS CANTOS DA ILIADA COM MAIS ASSOMBROSOS CARACTERES.

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UM GRANDE ABRAÇO A TODOS VOCÊS

JORGE DEYLLOT
in MAZUNGUE

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VER TB INFORMAÇÔES DETALHADAS IN O PORTAL DA HISTORIA

JOSÉ JOAQUIM DE PINHO e a colonização de Moçâmedes


                                                                                          



JOSÉ JOAQUIM DE PINHO, natural de Aveiro, Terra da Feira, c. de 1820, foi  componente da Primeira Colónia de portugueses que, saídos de Pernambuco, em Maio de 1849, na barca brasileira "Tentativa Feliz", acompanhada do brigue de guerra português "Douro",  chegou a Moçâmedes a 4 de Agosto do mesmo ano, para dar inicio ao povoamento branco do distrito. 

JOSÉ JOAQUIM DE PINHO foi, pois, um dos pioneiros da fundação da cidade de Moçâmedes,  onde foi proprietário de terras na região, de entre elas a fazenda da Várzea da Boa Esperança.  Viria a  falecer em Moçâmedes, em 27.11.1875, encontrando-se os seus restos mortais, junto com os da sua mulher, sepultados sob um mausoléu no cemitério local, mandado erguer pelos seus filhos.




 "Aqui jazem os restos mortaes de JOSÉ JOAQUIM DE PINHO, natural de Aveiro, e sua esposa D. Maria dos Anjos Pinho, natural da ilha de S. Miguel, falecidos, aquelle em 27 de Novembro de 1875, e esta a 1 de Maio de 1873. Seus filhos lhe mandaram erigir este mausoléu com prova de muita estima. Eterna recordação."

                                                                                                             
ALGUMA GENEALOGIA DE JOSÉ JOAQUIM DE PINHO
recolhida de Genea


Era filho de José Joaquim de Pinho e de Maria de Jesus Rodrigues  (in Genea=  filho de José Joaquim de Pinho e de Augusta Gomes). Casou com Maria dos Anjos Rodrigues,  natural da Ilha de São Miguel  (filha de António Rodrigues e Maria de Jesus Rodrigues, naturais dos Açores, São Miguel), falecida em Moçâmedes a 01.05.1873. 

DESCENDENTES:


José Joaquim de Pinho teve uma primeira união da qual nasceu Clara Pinho:
                                                  
1. Clara de Pinho
                                                                                     (nascida em Moçâmedes)

Clara de Pinho casou com Trindade e dessa união nasceram os seguintes filhos:
                               
1. Rita Pinho Trindade de Soares

2.  Alexandrina P. Trindade Faria
3. José de Pinho Trindade (pai de José Moreira de Pinho Trindade,  proprietário do «Jornal o Namibe», pai de Georgina Zulmira Alves Trindade, Clara Bela Alves Trindade, Roberto Alexandre Alves Trindade e Carlos Alberto Alves Trindade

4. Manuel de Pinho Trindade
5. Clara de Pinho Trindade



Do casamento de José Joaquim de Pinho e Maria dos Anjos Rodrigues nasceram :

2. Joaquim José de Pinho, nascido em Moçâmedes a 20.06.1869;

3. Perpétua de Pinho, nascida em Moçâmedes em 21.07.1871;

4. Maria da Conceição de Pinho (foto abaixo), nascida em Moçâmedes a 30.5.1872, casou com Emídio Augusto Pimentel de Figueiredo, que também se assinou Emídio Augusto  Pimentel Teixeira Simões de Sousa, ( da Casa dos Pimentel Teixeira de Maçãs de D. Maria e primo do chefe da 1ª colónia de Pernambuco,  Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro), que vindo de Portugal, era então proprietário de fazendas em Moçâmedes; 

5. Amélia de Pinho n. em Moçâmedes, Santo Adrião, a 20.6.1869 ( irmã gémea de Manuel Joaquim), que casou com Alfredo de Oliveira Luso, ambos falecidos em Lisboa, (onde possuíam uma casa na Rotunda do Marquês de Pombal) e proprietários da Qtª. d`Além, em Torres Vedras. 
Nota: 

A folhas 4 v. e 5 do livro de Casamentos da freguesia de Santo Adrião, conselho de Moçâmedes, relativo ao ano de 1889, com o Nº 6 :

" Aos vinte e tres dias do mês de Junho de mil oitocentos e oitenta e nove, nesta Vila e freguesia de Santo Adrião de Moçâmedes, diocese de Angola e Congo, e casas do falecido General Honorato José de Nendonça, compareceram perante mim os nubentes que sei serem os próprios, Alfredo de Oliveira Luso e D. Amélia Pinho, com todos os papéis do estilo correntes e sem impedimento algum canónico ou civil para o casamento, ele, de idade de vinte e um anos incompletos, natural da freguesia de Santo António do Recife, Província de Pernambuco, Império do Brasil, filho de Joaquim Antero de Oliveira Luso e de D. Filonila da Costa Luso e ela de idade de dezanove anos, solteira, natural desta freguesia de Moçâmedes, filha legítima de Joaquim José de Pinho e de D. Maria dos Anjos de Pinho, os quais nubentes se receberam por marido e mulher e eu os uni em matrimónio, procedendo em todo este acto segundo o Rito da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica, Romana. Foram testemunhas presentes, que sei serem os próprios:- o comendador Manuel José Alves Bastos, sua esposa D. Amélia do Carmo Torres Bastos, António Florentino Torres , negociante, a sua esposa D.Maria Júlia de Mendonça Torres, todos residentes nesta freguesia de Santo Adrião de Moçamedes. E para constar, lavrei em duplicado este assento que, depois de ser lido, conferido e achado conforme, assino com os nubentes e tetemunhas presentes. Era ut supra. (...) Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, arcipreste".In Geneallnet

6. Manuel Joaquim de Pinho* 20.06.1869

7. Jacinto de Pinho
                            
                                                      
Do ramo Maria da Conceição de Pinho e Emídio Augusto Pimentel de Figueiredo (conf.Genea): 


 Maria da Conceição de Pinho 30.05.1872, 
Moçâmedes. Casou com Emídio Augusto Pimentel
de Figueiredo 
Emídio Augusto Pimentel
de Figueiredo casado com Maria da Conceição de Pinho 


Descendência :  



                1. Silvina de Pinho Pimentel de Figueiredo
                 (casou com Joaquim Augusto da Costa Simões Canova* 1891)
2. Joaquim José Simões Pinho de Figueiredo
Moçâmedes, Santo Adrião, 23.19.1893+ Cascais, Parede 1976
Casou em Cascais 1918 com Ida de Almeida Ramil

3. Maria da Conceição Simões Pinho Freire de Figueiredo 
* Moçâmedes, Santo Adrião 06.07.1903. Casou com José Braz Simões c.1900

Em 1969, a Agência-Geral do Ultramar editou o n.º 8 da sua colecção «Figuras e Feitos de Além-Mar», intitulado «Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Fundador de Moçâmedes», do autor o Padre José Vicente, que à mesma figura já tinha dedicado alguns artigos no jornal regional «A Comarca de Arganil», de que era redactor em Lisboa. Nesse livrinho, encontra-se um recorte do «Diário de Notícias» com a notícia do óbito da escritora e publicista Maria de Figueiredo (* Mossâmedes 1906 + Lisboa 26-12-1971), cujo nome completo – D. Maria da Conceição Pinho Simões Pimentel Teixeira Freire de Figueiredo. Presume-se seja  a mesma Maria da Conceição Simões Pinho Freire de Figueiredo


 
             4. Maria Maximina de Pinho Pimentel Figueiredo
  * 1889 + 1972
       Casou com Joaquim Salgueiro Rêgo


5. Maria Rosa de Pinho Pimentel Teixeira
1896-1973
Casou com Tomás de Aquino Vaz Pereira Simeão

*

(1) Cfr pp. 480 da obra «Moçâmedes», da autoria de Manuel Júlio de Mendonça Torres, que inclui também fotografia José Joaquim de Pinho, vem publicado, em extra-texto, entre pp. 358 e 359, os seguintes dizeres: "José Joaquim de Pinho, natural de Aveiro, componente da Primeira Colónia, foi proprietário duma fazenda situada na várzea da Boa Esperança. Faleceu em 27 de Novembro de 1875. Repousa, sob gracioso mausoléu, no cemitério da cidade" (sic).

Também em extra-texto, entre pp. 326 e 327, vem publicada a fotografia de seu primo Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, chefe da Primeira Colónia, referindo-se que se trata da reprodução de uma fotografia, no verso da qual se lêem algumas notas biográficas, de entre as quais cito as seguintes palavras: "Homem (...) pugnador incansável dos benefícios dos pobres e dos órfãos... e mais útil aos estranhos que a si próprio" (sic).


Encontrei em GeneallNet a seguinte informação que passo a transcrever:

 "...A mãe da minha avó Maria da Conceição de Pinho, chama-se Maria dos Anjos e morreu muito cedo, de parto. O pai, José Joaquim de Pinho, era natural de Ovar , ou Ilhavo ( Nota minha:- segundo a certidão de nascimento de Maria da Conceição, n. em Moçamedes em 1872, da qual possuo uma cópia, o pai nasceu nas Terras da Feira), e também morreu novo, mas morto por um criado negro, bêbado, que lhe espetou uma faca durante um banquete (...) Tinha vindo para Moçamedes , com cerca de 20 anos, acompanhado por um seu conterrâneo, Manuel Torres. Quando morreu, os filhos e filhas ( minha avó , Maria Amélia , Perpétua e Jacinto ), ficaram a viver em casa de Manuel Torres e sua mulher , Maria Torres. Este tinha um filho António Torres (...) fim de citação. (ass. Luis Piçarra)
"...Para já, chamou-me a atenção a certidão de casamento entre os nossos tios já remotos, Alfredo de Oliveira Luso e Maria Amélia de Pinho, pois julgo que as informações que possuis, apontam para ele ter nascido em Moçâmedes. No entanto não é o que consta do assento de casamanto de que tenho uma fotcópia que passo a transcrever. A folhas 4 v. e 5 do livro de Casamentos da freguesia de Santo Adrião, conselho de Moçâmedes, relativo ao ano de 1889, com o Nº 6 :

" Aos vinte e tres dias do mês de Junho de mil oitocentos e oitenta e nove, nesta Vila e freguesia de Santo Adrião de Moçâmedes, diocese de Angola e Congo, e casas do falecido General Honorato José de Nendonça, compareceram perante mim os nubentes que sei serem os próprios, Alfredo de Oliveira Luso e D. Amélia Pinho, com todos os papéis do estilo correntes e sem impedimento algum canónico ou civil para o casamento, ele, de idade de vinte e um anos incompletos, natural da freguesia de Santo António do Recife, Província de Pernambuco, Império do Brasil, filho de Joaquim Antero de Oliveira Luso e de D. Filonila da Costa Luso e ela de idade de dezanove anos, solteira, natural desta freguesia de Moçâmedes, filha legítima de Joaquim José de Pinho e de D. Maria dos Anjos de Pinho, os quais nubentes se receberam por marido e mulher e eu os uni em matrimónio, procedendo em todo este acto segundo o Rito da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica, Romana. Foram testemunhas presentes, que sei serem os próprios:- o comendador Manuel José Alves Bastos, sua esposa D. Amélia do Carmo Torres Bastos, António Florentino Torres , negociante, a sua esposa D.Maria Júlia de Mendonça Torres, todos residentes nesta freguesia de Santo Adrião de Moçamedes. E para constar, lavrei em duplicado este assento que, depois de ser lido, conferido e achado conforme, assino com os nubentes e tetemunhas presentes. Era ut supra. (...) Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, arcipreste" (ass Luis).


 De GeneallNet transcrevo para aqui esta troca de correspondência que pode interessar:

 "...Caro Fernando:

Essa referência ao vosso primo Manuel Júlio de Mendonça Torres, fez-me lembrar que tinha umas notas, escrita já aqui há alguns anos , por,essa minha tia mais mais nova de qu já falei, onde se mencionava alguém de apelido Torres.

Acabei por encontrá-las, no meio da papelada e passo a transcrever a parte que pode interessar -(...) A mãe da minha avó Maria da Conceição de Pinho, chama-se Maria dos Anjos e morreu muito cedo, de parto. O pai, José Joaquim de Pinho, era natural de Ovar , ou Ilhavo ( Nota minha:- segundo a certidão de nascimento de Maria da Conceição, n. em Moçamedes em 1872, da qual possuo uma cópia, o pai nasceu nas Terras da Feira), e também morreu novo, mas morto por um criado negro, bêbado, que lhe espetou uma faca durante um banquete (...) Tinha vindo para Moçamedes , com cerca de 20 anos, acompanhado por um seu conterrâneo, Manuel Torres. Quando morreu, os filhos e filhas ( minha avó , Maria Amélia , Perpétua e Jacinto ), ficaram a viver em casa de Manuel Torres e sua mulher , Maria Torres. Este tinha um filho António Torres (...) fim de citação.

Estou convencido que este António é um António Florentino Torres, casado com Maria Júlia de Mendonça , proprietário em Moçamedes e que tem precisamente um filho Manuel de Mendonça Torres.
É curioso, que para além de eu me lembrar de os meu avô contar esse episódio da morte do seu proprio avô, Joaquim de Pinho, lembro-me que existia então ainda, guardada por baixo dumas toalhas no fundo da gaveta de um aparador da casa de Jantar da casa da Corriola , um enorme facalhão em prata, de serviço de mesa, bem afiado que tinha servido não só para matar o meu trisavô, como em seguida pra os outros empregados esquartejarem logo de seguida o autor do crime, e que eu, às escondidas ia mirar com "respeito"... Entretanto alguém lhe deu sumiço!

Mas voltando ao assunto, para além disso também me recordo de ouvir falar num tal Eng.º Torres que terá tido um papel importante na construção do caminho de ferro de Benguela e tinha sido amigo do meu bisavô Emídio Pimentel de Figueiredo.

No próximo fim de semana vou ver se tenho uma conversa com a minha tia, que já tem 75 anos e talvez me saiba explicar a ligação aos Luso.

Um abraço
Luís"




Ainda sobre esta familia e colaterais muitos elementos poderão ser colhidos  AQUI   Aqui  AQUI



Moçâmedes/Genealogias
Pesquisa e composição do texto de MariaNJardim

sexta-feira, 10 de março de 2017

Moçâmedes e o OBELISCO a Sá da Bandeira


     


Nesta altura (anos 1930) o Obelisco ficava situado muito perto do edificio da Alfândega, no local onde foi mais tarde erguido um Quiosque
 
O obelisco de Moçâmedes em homenagem a Sá da Bandeira
 

 A praça junto do Bairro da Facada, para onde foi transferido o Obelisco a Sá da Bandeira, simbolo da liberdade relacionado com a abolição do tráfico de escravos para o Brsil e Américas, e onde se encontra presentemente
http://www.africanos.eu/ceaup/uploads/EB087.pdf
 
Vista parcial da cidade de Moçâmedes nos anos 1970, com a Praça e o Obelisco a Sá da

Este obelisco, que nos habituámos a ver em Moçâmedes e nesta praça, situada numa zona entre a Rua das Hortas, a Rua Calheiros e a Rua Mendes Leal, foi erigido em 1869, no centro da então "Praça Sá da Bandeira", em memória do Marquês de Sá da Bandeira, que em 1836 tomou importantes medidas legislativas sobre a abolição do tráfico de escravos e a protecção do comércio entre as colónias e Lisboa.

A "Praça Sá da Bandeira" era uma enorme praça que tinha por epicentro o local mais tarde ocupado pela Escola Portugal (Escola 55 de Fernando Leal). Ainda mais tarde, não sabemos quando, o obelisco foi transferido para a Avenida da República, e colocado numa zona próxima do edifício da Alfândega (lado norte), onde ficavam os primitivos Correios Telégrafos e Telefones, tendo como vizinho um pequeno quiosque de ferro que existia na Avenida antes da construção do quiosque definitivo. E ali permaneceu até que em meados dos anos 1940 foi de novo transferido para o local onde ainda hoje se encontra. O transporte do obelisco Sá da Bandeira da Avenida da Republica para esta praça foi efectuado, sobre vagonetas que deslizavam sobre carris (linhas férreas) que para o efeito se estenderam temporariamente pelas ruas da cidade, fazendo a ligação entre os dois locais. O obelisco no Jardim da Avenida da República, junto do edifício da Alfândega, em 1935. Um pouco mais à dt, o primitivo coreto

Em relação a este obelisco e à primitiva "Praça Sá da Bandeira", num artigo publicado por Manuel Júlio de Mendonça Torres no Boletim Geral do Ultramar XXX - 348 e 349, de Junho-Julho de 1954, págs. 125 a 129, na parte dedicada aos edifícios e obras municipais existentes neste ciclo, sob a designação "Conspecto imobiliário do Distrito de Moçâmedes no ciclo de 1850 a 1879", podemos ler:

"...Consta no Relatório do governador Costa Cabral, de 19 de Junho de 1877, que num dos ângulos da Praça Sá da Bandeira se erguia um pequeno prédio, já concluido, "servindo de Casa da Câmara". Supomos que a casa a que se refere Costa Cabral é aquela em que hoje está instalada a Administração do Concelho. Só muito mais tarde é que a Câmara Municipal fora definitivamente instalada no edifício em que funciona hoje os serviços dos Paços do Concelho. Devia ter ficado pronto e a funcionar, segundo o Graça, de 13 de Julho de 1869, no dia 1 de Janeiro de 1870. Outro ângulo da Praça estava ocupado pela casa, já em paredes e telhado, destinada a "Casa do Tribunal".

"...Observava Costa Cabral que esta casa, cuja conclusão já pouco importaria era indispensável, por ser Moçâmedes sede de comarca. Informava também que as dimensões desta casa eram acanhadas para ter o destino que lhe estava dado; faltavam divisórias, como sala para julgamento, gabinete para juiz e delegado, dois cartórios, sala para réus e outra para testemunhas; para tudo isto não tinha capacidade. Desconhecemos se foi nesta casa que funcionou o primeiro tribunal da comarca. No terceiro ângulo, alvitrava o governador seria construida uma casa com condições de "Escola para o sexo masculino", mas nada se fez. Sobre o assunto, refere, já expusemos o que bastava no capítulo "Os serviços de instrução". E continua: no quarto ângulo tinha sido construida uma casa, que já estava em paredes, destinada a "Cadeia". Era impróprio o lugar porque nessa casa se haviam de aglomerar indivíduos de hábitos desmoralizadores, sendo, portanto, inconvenientíssima a vizinhança, se na mesma praça fosse construida a Escola, como se pensou.

"...Segundo o relatório do governador Graça, de 13 de Julho de 1869, a "Praça de Sá da Bandeira" media 14.000 metros quadrados. Parece-nos exagerada tal área. Presumimos que esta praça tivesse sido limitada pelo gradeamento colocado tempo depois, ficando, por este motivo, situados fora dela os edifícios construidos em cada um dos seus ângulos.

"...A Praça Sá da Bandeira, de vastas dimensões e confinada pelo seu aparatoso gradeamento, fora aberta no local onde hoje se erguem a "Escola Portugal" e algumas outras edificações. No centro via-se, erecto, um obelisco dedicado à memória do estrénuo libertador dos escravos nos nossos domínios ultramarinos. Há muitos anos, mas ainda nos nossos tempos, efectuara-se definitivamente a retirada dos gradeamentos e fora, outro ssim, transladado o obelisco para a Avenida da República. próximo do sítio quase fronteiro ao antigo edifício dos Correios. E, ultimamente, há bem poucos anos, determinou a Câmara a deslocação daquele monumento para uma praça que havia sido aberta a Nascente da cidade, entre as ruas Calheiros, Hortas e Mendes Leal.

O monumento erigido à memória de Sá da Bandeira compõe-se de uma coluna quadrangular de pedra, adelgaçada na extremidade, assente sobre um pedestal, também de pedra, em cujas faces se lêem as inscrições seguintes: AO DEFENSOR DA LIBERDADE  1869 .  ATAQUE AO ALTO DA BANDEIRA EM 8 DE SETEMBRO DE 1832.1 AO PROTECTOR DAS COLÓNIAS O GENERAL SÁ DA BANDEIRA  "


Quem foi o Marquês de Sá da Bandeira?

Sá da Bandeira (Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, 1.º barão, 1.º visconde e 1.º marquês de) no decurso da vigência do Partido Progressista,  através da lei de 10 de Dezembro de 1836, aboliu o tráfico de escravos para o Brasil e Américas em todos os domínios ultramarinos. Tal abolição ficou a dever-se, por um lado, à penetração em Portugal dos ventos de Liberdade e Igualdade nascidos com a revolução francesa que contribuiram para revolução de 1820, para a queda do absolutismo e  triunfo definitivo do liberalismo em 1834, com o fim das lutas pela sucessão  ao trono que culminou com a fuga para o exílio de D. Miguel. Mas foram sobretudo as pressões da Inglaterra, não tanto por razões humanitárias,  mas devido à revolução industrial e ao interesse daquela potência em exportar as novas máquinas a vapor, que ao aliviarem o trabalho humano permitiram  passar a encarar o escravo liberto como um potencial consumidor. Portugal não possuia condições para se impôr aos traficantes, e foi com  a celebração, em  3 Julho de 1842, do tratado luso-britânico para a abolição total do tráfico que as marinhas dos dois países passaram a colaborar nessa empreitada, com o direito recíproco de visita aos navios suspeitos de negreiros.
O tráfico, é preciso que se diga, envolvia brancos, na maioria luso-brasileiros, mas também negros e mestiços, que dele tivaram o proveito e formavam uma burguesia em Benguela e em Luanda.  É claro que a coroa portuguesa também arrecadava lucros atraves de licenças e impostos, mas o envolvimento dos luso-brasileiros foi tal que muitos governadores iam do Brasil,  e já após a independência da colónia brasileira, em 1822, o governo do novo país chegou a enviar para Angola 3 navios de guerra para proteger os navios negreiros que operavam na área, na defesa do tráfico. O facto é que brasileiros ali dominarm por muito tempo, ocupando cargos da administração civil e milita, e muitos deles tinham sido enviados para Angola como degredados, tendo aos poucos se estabelecido,  alcançando poder e prestígio. Já em 1835, seria um brasileiro um dos líderes de uma revolta, em parte motivada por rumores, de que Portugal tentaria abolir o tráfico de escravos. O desespero das burguesias urbanas de Luanda e Benguela, que concentravam nas mãos a ligação ao comércio internacional foi tal, que se chegou mesmo a pretender unir Angola ao Brasil.A exportação em grandes quantidades de marfim, cera,  goma copal, urzela não interessava aos traficantes nem aos seus concessionários, uns e outros habituados aos grandes lucros, com pouco esforço, oferecidos pela escravatura. O tempo pós 1836, foi um tempo em que famílias influentes emigraram para o Brasil e com elas levaram  os capitais que detinham.  A lei de 10 de Dezembro de 1836 proibiu a exportação de escravos em todos os domínios ultramarinos,  e puniaos transgressores com severas penas que incluiam o degredo, multas, a incapacidade de servir em empregos nacionais e trabalhos públicos, mas continuava a permitir a importação terrestre, o que tornou  possível, numa primeira fase, o fornecimento de mão-de-obra à colónia.   

Moçâmedes felizmente quando foi fundada já o tráfico, ilegalizado, estava a ser perseguido. E a sua fundação esteve intimamente ligada à abolição, não obstante o processo moroso que se arrastou até  que  Brasil encerrasse seus portos à importação de escravos, em 1951, favorecendo a comercialização de produtos lícitos, e o tráfico fosse decisivamente reprimido através da vigilancia marítima internacional, chegando ao fim.  Daí a simbologia deste OBELISCO  que aqui expomos! 

Pesquisa e texto de MariaNJardim


1 Efeméride: Em 8 de julho de 1832, o Exército Libertador, desembarcando nas praias do Mindelo em 8 de julho desse ano,
 http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/terra-de-oportunidades
Terra de oportunidades - Revista de História
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E aqui:  O Pensamento Estratégico Nacionaldatado de Julho 2006 . Autor. Mendo Castro Henriques na parte respeitante a Sá da Bandeira: