quinta-feira, 27 de maio de 2010

Luz Soreano, o promotor da colonização de Mossamedes: 1849


Luz Soriano quando escrevia a História da Guerra Civil 1866-1890.  

Colocado como chefe da repartição de Angola da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar de Outubro de 1842 até Junho de 1851, Luz Soreano deixou escrito sobre a sua contribuição para a colonização de Moçâmedes em "Revelações da Minha vida e Memórias de alguns Factos e Homens meus". Eis alguns:

...Reconhecendo que as nossas provincias d'Africa nada mais tem sido desde a sua descoberta até ao nosso tempo do que um simples viveiro de escravatura para a América, e feitorias commercia es, de não grande monta para a Europa, busquei, tanto quanto em mim cabia, vêr se á provincia de Angola dava uma mais subida importancia do quo aquella, que até então tivera. É sabido que o clima d'Africa é bastante damnoso aos europeus, e tanto mais, quanto mais se aproximam da equinocial. Dizia-se que no interior do paiz alguns pontos havia, proprios para colonisação europêa, o que na pratica se não verificou, pelo malogro de algumas tentativas desta especie, provindo isto, tanto da falta das indispensaveis cautelas no transporte dos colonos, como da insalubridade de taes pontos, como aconteceu com o presidio do duque de Bragança, como acontece com o Bembe, e como acontece com o Ambriz. Revendo o cartorio da antiga secretaria do ultramar, onde Ioda a correspondencia de Angola õ posterior ao meado do seculo passado, vi que o clima de Cabinda, ao norte do rio Zaire, ponto .onde se começara a levantar um forte, por auxilio de uma expedição, que para alli sahira de Loanda aos 17 de julho de 1783, estava effectivamente incluido na regra geral da insalubridade para os europeus, apesar da fama, que tivera em contrario, attenta a grande mortalidade, que alli soffreu a força expedicionaria. Vi mais que a politica de alguns gabinetes estrangeiros, e particularmente o inglez, nos contestava fazer por aquella parte effectiva a nossa auctoridade, como o demonstrou a expedição naval, que a França empregou contra a nossa expedição de Cabinda, onde em 1784 fez demolir o forte, que alli começámos a levantar. A este estado de insolita e inesperada hostilidade, seguiram-se as nossas reclamações, das quaes resultou a convenção de Madrid de 30 de janeiro de 1786, pela qual a França declarou respeitar os direitos, que a coroa deste reino pertendia ter áquella parte da costa africana. Todavia a Inglaterra tem sido para nós mais severa sobre este ponto do que a propria França, a Inglaterra, que pelos tratados de 19 de fevereiro de 1810 e 22 de janeiro de 1815, e convenção addicional de 28 de julho de 1817, reconheceu formalmente a reserva dos direitos da coroa de Portugal aos territorios da Africa Occidental, comprehendidos entro o quinto gráu e doze minutos, e o oitavo gráu de latitude meridional. Era ella a unica potencia, que com frivolos pretextos nos tem ultimamente embaraçado fazer effectiva a jurisdicção portugueza nos citados territorios. Conseguintemente intendendo que, tanto por esta causa, como pela insalubridade do clima dos territorios ao norte de Loanda, as nossas tentativas coloniaes haviam de ser sempre infructuosas, ou mal succedidas, dediquei desde então toda a minha attenção aos territorios ao sul de Benguella, não só porque alli ninguem nos contestava o nosso dominio, mas sobre tudo por ver que, estando já bastante distantes do equador aquelles territorjos, era de suppor que o seu clima fosse já mais analogo ao do Cabo de Boa Esperança, e por tanto ao da Europa. Reputei eu tanto mais urgente a occupação destes territorios, quanto que em França algum viajante instava com o seu governo para os mandar invadir. No quarto volume, documento n.° 13, da viagem que Mr. João Baptista Douville fez a Angola em 1827, vê-se apparecer alli bem descripto o porto e o sertão de Mossamedes. Mais se vê ter elle fortemente despertado a attenção do governo francez por meio de uma memoria, dirigida ao ministro das colonias, sobre aquelle porto, rogando-o encarecidamente para que nelle mandasse levantar um presidio para degradados. Douville dizia haver alli agua doce, serem risonhas as margens do rio, que o avisinham, serem pacificos os povos dos sertões limitrophes, e finalmente ter observado que a temperatura das costas pelas duas horas da tarde de um dia de dezembro de 1827 era de 23 a 24 gráus de Reaumur, achando igualmente que a 10 leguas da costa sobre um monte elevado, a temperatura era de 19 gráos, no mesmo momento em que o thermometro marcava 22 sobre a costa. A leitura de tudo isto convenceu-me cada vez mais da urgencia de se segurar a todo o custo o porto e o sertão de Mossamedes, antes que o governo francez annuisse ás instancias de Douville, e nos expellissem do sul de Angola pelo mesmo modo por que nos tinham expellido do norte.

Com a leitura da viagem deste francez coincidiu igualmente achar eu no archivo da secretaria do ultramar um officio do barão de Mossamedes, que depois foi conde da Lapa, descrevendo a importante exploração, que em 1785 mandára fazer aos sertões do sul de Benguella. A respectiva expedição sahira de Loanda aos 12 de junho d'aquelle anno, e posteriormente de Benguella, dirigindo-se á chamada Angra do Negro, á qual desde então se poz o nome de Mossamedes por obsequiosa memoria de quem ordenára a expedição. Tanto a descripção desta bahia, como a da grande serra e valle do Bumbo, que d'ella dista tres dias de viagem, segundo as ultimas participações, e 28 leguas (é distancia excessiva) segundo o cumputo do chefe da expedição, o famoso sertanejo d'aquelle tempo, Gregorio José Mendes, são de attrahir a attenção do mais impassivel leitor, circumstancia que em mim se deu no mais alto gráu. Apesar dos esforços do conde da Lapa, a bahia de Mossamedes continuou a permanecer no total esquecimento do nosso governo, para d'elle sahir no nosso tempo. Para aquelle porto se emprehendeu uma outra expedição em 1839, ordenada pelo vice-almirante, Antonio Manuel de Noronha, que para ella commissionou a corveta Izabel Maria, do commando do meu fallecido amigo, Pedro Alexandrino da Cunha, que então era capilão-tenente da armada. A corveta foi até á vasta Bahia dos Tigres, d'onde voltou para o norte, por se não verem n'aquellas costas, quer olhando para o interior do paiz, quer para o sul, senão vastos campos de areia solta, sem terem um só vegetal, vindo finalmente ao porto de Mossamedes, cujo aspecto e vantagens foram muito elogiados pelo commandante deste vaso O. Ao vice-almirante Noronha succedeu-lhe, como governador de Angola, Matiuel Eleuterio Malheiros, que em fe ver eiro de 1840 mandou levantar um forte em Mossamedes, dando-lhe por governador o tenente de artilheria de Benguella, João Francisco Garcia Moreira, que para lá partiu com 26 praças de pret, e duas peças de artilheria. Entretanto o forte quasi que não passava dos alicerces, quando alli tocou em fms de setembro de 1842 o governador geral d'aquella provincia, José Xavier Bressane Leite, successor de Malheiros. As noticias officiaes de Mossamedes, que a instancias minhas se pediram a Bressane, e ao seu successor, Lourenço Germak Possollo, e as repetidas ordens, que pelas minhas rogativas para alli expediram os ministros da marinha com quem servi, para se dar importancia áquelle*porto, cada vez me convenceram mais de que elle não só era salubre, mas que até tinha

(i) Os que quizerem ver o interessante relatorio desta viagem, consultem os Ensaios Statisticcs de Lopes Lima no volume 3.°, parte de Benguella, png. i i e seguintes, ou o n.° i- dos Annaes Maritimos o Coloniaes de 1845.
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todos os elementos de se constituir n'um importante ponto commercial, com relação aos sertões, que o avisinbam, apesar de estar cercado de areias, como é todo o littoral de Angola. Todos estes sertões se apresentaram aos officiaes de marinha, que os visitaram, com os mais lisongeiros auspicios para o estabelecimento de colonias europeas, particularmente a liuilla, Gambos, e Humpata, a mais de 30 ou 40 leguas de Mossamedes, todos situados além da notavel serra de Chella, cujos territorios tem logaresmuito ferteis, e de excellente clima. De todos estes sertões o da Huilla foi o que por si teve melhores informações, considerandose como um paiz muito apto para o estabelecimento de caudelarias, em razão das vastissimas pastagens, que tem, onde os indigenas pastoream numerosas manadas de gado vaccum.
Attentas pois todas estas vantagens, não admira, que me deixasse preoccupar por todas as descripções, que me chegaram á mão, e incessantemente instasse com todos os ministros da marinha e ultramar para que não deixassem ficar em abandono um porto, que tanto se recommendava para uma colonisação europea. Com a falta de recursos, que para tal lim se dava, coincidiu tambem o esmorecimento de alguns especuladores, por não terem correspondido ás suas vistas os interesses das feitorias commerciaes, que lá tinham mandado estabelecer. Bem longe disto me desvanecer das ideas, que concebi em favor de Mossamedes, cada vez mais me convenci da necessidade da sua colonisação, pela firme persuasão de que a rivalidade de Benguella era uma das poderosas causas do malogro de similhantes feitorias. Mas quando os interesses commerciaes, e os da projectada colonisação não correspondessem ainda assim á minha espectativa, intendia que mesmo neste caso era indispensavel assegurar Mossamedes, pela urgente necessidade que tinhamos de assegurar todo o littoral, que vae desde a enseada de Moeni-Calanga, assente em doze gráus e cinco minutos de latitude sul, e que de facto se considerava então como o ultimo limite á beira-mar do districto de Benguella, até á bahia de Mossamedes, assente em quinze gráus e dez minutos. Com a occupação defmitiva de mais estes tres gráus, ou 54 leguas de costa, mais outra vantagem tinhamos, tal era a de assegurar igualmente no interior do paiz os sertões correspondentes a esta occupação do liltoral, e tanto mais, quanto qtiiytK nosso presidio de Quilengues se achava quasi abandonado pela viva guerra, que então os negros lhe faziam. Além do que fica exposto, linha, e ainda presentemente tenho a crença de que dentro de um seculo ou seculo e meio, aquelles nossos sertões terão de ser demarcados com relação aos dominios dos Boêrs, ou as possessões inglezas da colonia do Cabo da Boa Esperança, c tratar de obviar desde já futuras contestações, assegurando de facto o que de direito nos pertence, aconselhava-o a prudencia, e exigia-o a politica. Por conseguinte, encarada por qualquer modo que fosse esta questão, era para mim manifesta a necessidade de tornar cada vez mais forte a occupação da bahia de Mossamedes, necessidade reclamada por todas as considerações, que sobre este objecto se podiam fazer.
Obvias eram portanto as razões, que me levavam a cuidar com lodo o empenho na segurança d'aquella bahia, e tão obvias e patentes, que todos os ministros, com quem disto tratei, as julgaram sempre attendiveis, e effeclivamente as attenderam, tanto quanto estava ao seu alcance, não emprehendendo coisa mais séria pela inteira falta de meios pecuniarios, que o orçamento geral do estado lhes não facultava. D'uma grande somma de escravos, apresados a bordo do brigue brasileiro Caçador, ordenou-se em 4 do agosto de 18í4 que cincoenta casaes marchassem como libertos para Mossamedes, a fim d'alli se empregarem nos trabalhos da agricultura. Mais se ordenou em 22 d'aquelle mez que em Mossamedes se organisasse uma companhia de linha debaixo do mesmo plano, que a dos mais presidios da provincia, devendo entrar nella não sómente os brancos, mas lambem os homens de cor. Para este fim auctorisou-se o respectivo governador geral a nomear para ella os officiae?, que precizasse. Em conformidade com estas medidas foi para Mossamedes alguma artilheria, e outros mais objectos, necessarios para se guarnecer o respectivo forte, pondo-o em estado de fazer respeitar o porto, quer por mar, quer por terra. Finalmente d'uma grande porção de degradados, que a charrua Princeza Real conduziu para Angola em setembro de 1845, ordenouse que quarenta desembarcassem em Mossamedes para fazerem parte da respectiva companhia de linha, devendo o commandante da charrua deixar alli com elles a maior porção de mantimentos,
que lhe fosse'possivel. Sei muito bem que o porto de Mossamedes é geralmente cercado de areas e alturas agrestes, como todas as costas d'aquellas paragens, e por conseguinte destituido de grandes porções de terreno vegetal. Sabia igualmente que, no tempo a que me refiro, o commercio do sertão limitrophe ainda para elle não estava encarreirado, de que resultára o facto, já citado, de haverem alguns especuladores mandado retirar algumas feitorias, que lá tinham estabelecido. Alguns officiaes de marinha houve, que fortemente murmuraram da presistencia do governo em querer dar importancia a um ponto, que, segundo elles, a não podia ter por aquellas circumstancias. Eu mesmo, entrando casualmente n'uma casa de pasto, ouvi estarem-se fazendo ao governo por aquelle motivo censuras um pouco asperas e desabridas; mas pela minha parte nenhum peso lhes dei, não só pelas razões, que já acima expuz, mas tambem pela convicção, que tinha, de que o tempo havia de atenuar no todo, ou em parte o que dizia respeito aos inconvenientes allegados, como actualmente vae acontecendo, não perdendo da lembrança de que area.es são igualmente os territorios de Loanda, e além disso sem agua potavel, o que não acontece a Mossamedes, e nem por isso deixa de ser aquella cidade a mais importante povoação da Africa Occidental. Os cuidados, quo prestei á segurança do novo porto, não me embaraçaram de attender á dos seus sertões limitrophes, convencido que o dominio das costas é sempre ephemero, em quanto se não asseguram os seus respectivos sertões. Com estas vistas de assegurar o littoral e interior de Mossamedes se mandaram embaixadores aos regulos do Bumbo e da Huilla para se presentearem, e se levarem a prestar vassalagem á coroa portugueza, como praticaram, assentando-se com elles pazes, confirmadas pelos competentes tratados. Para garantir o dominio da Huilla, talvez o mais importante dos sertões de Mossamedes, como já disse, para lá se mandou ir a gente de que foi possivel dispor, e que ao principio consistiu em um sargento com quatro paisanos com uma mulher e seis casaes de libertos. Mesquinho era similhante presidio; mas em fim já era um nucleo para maiores empresas de colonisação, quando no futuro se quizessem levar a effeito. Os trabalhos a que me entreguei para a segurança e colonisação de Mossamedes, não se reduziram sómente aos do um simples official de secretaria do ultramar, chefe de repartição; mas até a tomar tambem sobre mim os de escriptor publico. Nas vistas pois de provocar alguma emigração para Mossamedes confeccionei uma memoria, descriptiva deste porto, das suas vantagens para a navegação e commercio, da salubridade do seu clima, o melhor de toda a provincia de Angola, e fmalmente das vantagens e fertilidade dos sertões lemitrophes. Esta memoria acha-se impressa no n.° 3 da 6.a serie dos Annaes Maritimos c Cotoniacs do anno de 1846.
Sem embargo do que fica exposto confesso que da minha parte havia ainda bastante falta de confiança na proficuidade dos esforços, empregados para a segurança e colonisação de Mossamedes, por que em fim desanimado o commercio de tirar d'alli as vantagens, que dos mais pontos da provincia tirava, o progresso da colonisação havia de ser sempre ephemero. Uma circumstancia imprevista veio porém fortificar e engrandecer aquelles meus esforços. Os partidos politicos, que em differentes pontos do Brasil se debatem, e particularmente em Pernambuco, tornam-se geralmente oppressores dos portuguezes ali i residentes, aos quaes os brasileiros perseguem por toda a forma ao seu alcance. Offendidos e desgostosos por aquella causa muitos dos nossos concidadãos, que se achavam em Pernambuco, lembraram-se de ir fundar na nossa Africa uma colonia agricola, e neste sentido officiou um delles ao nosso governo na data de 13 de julho de 1848, communicando-lhc aquella resolução, e pedindo se lhe enviassem as memorias, relatorios, ou quaesquer escriptos, que no ministerio do ultramar houvessem, descrevendo os pontos, que na nossa Africa se olhavam como adequados para aquelle fim. Entre os documentos collegidos, e mandados para Pernambuco, foi lambem a minha memoria, e por ella é que se guiaram os que se resolveram a ir fundar na nossa Africa a sua projectada colonia. O governo nomeou uma commissão em Pernambuco para tratar dos aprestos, adequados ao embarque dos colonos, auctorisando-a a sacar pelas respectivas despesas, e remettendo-lhe além disso ordens da commissão liquidataria das companhias do Grã-Pará e Maranhão, Pernambuco e Parahiba, para pelo seu respectivo cofre se fazerem os precisos adiantamentos. Para occorrer a"s despesas de todos estes arranjos, o governo fez tambem uma proposta ás cortes, da qual resultou a carta de lei de 3 de julho de 1849, pela qual foi auctorisado a despender até á quantia de dezoito contos de réis com a colonia de Mossamedes. A bordo da galera brasileira, Tentativa Feliz, comboiada pelo brigue de guerra Douro, sairam fmalmente de Pernambuco em 23 de maio do mesmo anno 1849 coisa de 300 colonos de ambos os sexos, chegando todos ao logar do seu destino no dia 4 de agosto. Para governador daquelle ponto fora nomeado um official de marinha de muito bom nome, reputação e intelligencia, tal como o capitão de fragata, Antonio Sergio de Sousa, ao qual se deram umas instrucções, por mim feitas e elaboradas, as quaes, verdadeiramente fallando, nada mais são do que uma segunda memoria, complementar da primeira, sobre o modo de realisar a colonisação de Mossamedes. Alguns engenhos de assucar, comprados por conta do governo, acompanharam esta primeira expedição colonial, á qual se seguiu depois uma segunda, que de Pernambuco saiu no dia 13 de outubro de 1850 a bordo da barca Bracharense, igualmente comboiada pelo dito brigue Douro, chegando a Mossamedes no dia 26 de novembro. As despesas desta segunda expedição não as costeou o governo, mas sairam do producto de uma subscripção, tirada por entre os cidadãos portuguezes, residentes em Pernambuco.
Por infelicidade dn colonia do Mossamedes muitos individuos acompanharam estas duas expedições, sendo inteiramente inuteis para uma empresa destas, d'onde resultou que, chegados ao seu destino, immediatamente abandonaram a colonia, infundindo assim um grande desalento pelas murmurações e queixas, que imprudentemente levantaram, algumas vezes com razão, outras sem ella. Além destas, outras contrariedades experimentou a colonisação de Mossamedes, sendo a de maior vulto a guerra, que por uma mal intendida rivalidade lhe levantaram os commerciantes de Loanda c de Benguella. A estes males se vieram depois reunir uma espantosa esterilidade, resultado da fnlta de chuvas e innundações do rio Bero, o mau sustento que o estado fornecia* aos colonos, a mortalidade que por estas causas os perseguiu, a ignorancia dos tempos de semear, e finalmente a falta de sementes. A natural consequencia do tudo isto foi o desalento de quasi todos
os colonos, c o imminente risco de se perderem todos os esforços e despesas, que para tão importante fim se tinham feito. Felizmente o tempo e a presistencia de alguns dos referidos colonos por tal modo venceu estas contrariedades, que hoje já nenhum receio me infunde a colonisação de Mossamedes, cujo progresso tem sido bastante sensivel nestes ultimos annos. A agricultura tem alli tido um successivo augmeuto, particularmente depois que a pratica tem feito conhecer, que as especulações commerciaes nem sempre são tão solidas e proficuas, quanto o amanho das terras. Quatro engenhos de assucar se acham presente"mente montados no districto de Mossamedes, um na povoação deste nome, que o decreto de 26 de março e a carta regia de 7 de maio de 1855 elevaram á cathegoria de villa; outro no Bumbo, onde ha o melhor estabelecimento agricola da colonia, com relação á cultura da canna sacarina e da mandioca ; outro na Equimina, assentando-se o quarto no sitio da Boa Vista, em local onde ha bastante canna, com a outra vantagem de offerecer bons commodos aos lavradores. Além da cultura da canna, os colonos de Mossamedes tambem se tem entregado á cultura do algodão, cuja plantação não tem lido maior desenvolvimento em razão das más colheitas, que houveram ultimamente, não pagando o trabalho do agricultor. Os generos necessarios ao sustento dos colonos não só chega já para alli se manterem, mas até mesmo para exportação, em vista das remessas, que d'alli se tem feito para Loanda, e do que já se vende aos navios balieiros americanos, que em numero consideravel frequentam aquclle porto, para receberem refrescos de vegetaes e gado, do qual tambem ultimamente se tem feito alguma exportação para a ilha de Santa Helena. O facto é que em quanto em quasi toda a parte da provincia de Angola se fez consideravelmente sentir a falta de subsistencias nos annos de 1856, 1857, e 1858, no districto de Mossamedes não só houve para as necessidades dos seus moradores, mas até alguma coisa se exportou dos generos alimenticios. Com tudo isto ha coincidido o desenvolvimento do fabrico do azeite de peixe, pelas muitas feitorias de pesca, que lá se tem estabelecido, o accrescimo das construcções urbanas, e o incessante pedido de terrenos para mais casas.
Segundo a memoria, lançada nos annaes do municipio de Mossamedes, com relação ao anno de 1857, vê-se que a mortalidade fora nulla nos ultimos colonos, idos para aquelle ponto, quando n'outro tempo regulava na razão de 20 por cento. Nos mesmos annaes, com relação ao anno anterior de 1856, se lia já o seguinte, debaixo do ponto de vista de salubridade: « O clima de Mossame«des é hoje um paraiso, em comparação do que ainda era no « anno de 1850; é seguramente o melhor de toda a Africa, é su«perior ao de todo o Brasil, superior ao de muitos logares de « Portugal, e igual ao melhor e mais temperado deste ultimo paiz.» Todo o territorio da circumferencia da villa é agreste e montanhoso, como já disse, sendo apenas susceptivel de cultura nas margens de alguns rios. No Bumbo, distante a E N.E. tres dias de viagem de Mossamedes, já se encontra uma vegetação muito desenvolvida,, tendo arvores e matas não somenos ás do Brasil, com bellas madeiras, tanto em qualidade, como em dimensões. O paiz do Bumbo consiste n'um extensissimo valle, que a E., ou nascente, tem a serra de Chella, assaz elevada, correndo do norte ao sul. A escabrosidade desta serra a torna de difficil subida, tendo para o conseguir de se passar pela beira de muitos precipicios. Galgada a serra, encontra-se o sobado da Umpata, cujo terreno é fertilissimo, e abundante de aguas, com bellissimas campinas, onde os respectivos pretos cultivam milho, massamballa, massango, batata ingleza, e outros legumes, havendo aqui e no Bumbo bastante gado vaccum, e ovelhum. A duas ou tres legoas de distancia da Umpata, c na direcção de E., está o sobado da Huilla, paiz que igualmente tem ferteis terrenos, sendo cortado por muitas ribeiras e rios, cujas margens tem bellas pastagens, onde os indigenas pastoream bastantes manadas de gado vaccum. Ao sul da Huilla fica o sobado do Jau, cujos terrenos, apesar de mais extensos, são todavia de vegetação menos luxurienta, que os da Umpata e Huilla. Outros sobados se seguem ainda, como Mucuma, Hay e Cambos, sendo este um dos maiores em população. A E. dos Cambos encontramse as povoações de Mulondo, Camba e Humbe, na margem d'aquem do Cunene, que por estas terras corre n'uma curva, para ir desaguar no Oceano, pela bahia dos Tigres. O mais extenso e povoado dos sertões, além do Cunene, é o Coanhama, onde poucos brancos tem ido em procura do marfim, que alli se diz abundante. A E SE.
do Coanhama fica a terra do Donga, d'onde em distancia de 4 a 5 dias de viagem para o S. se encontram as grandes minas de cobre, que abastecem todos os sertões limitrophes. Deste metal, que os indigenas fundem, formam elles um vergalhão de um quarto de pollegada de grossura, com cinco palmos de comprido, de que fazem bracelletes para as mulheres, e que enrolado nos braços, a começar do pulso, vae em espiral até ao cotovello.
Por esta rapida descripção do littoral e sertões do districto de Mossamedes poderá-o leitor ajuisar do importante serviço, que fiz ao paiz, em provocar, tanto como empregado, como escriptor publico, a colonisação de um ponto com que assegurei á coroa portugueza tão vastos e ferteis territorios. A este impulso, que provoquei, quanto em mina coube, se tem posteriormente seguido as proficuas medidas, que se tem ultimamente ordenado para aquelle ponto. Considerando a Huilla, em vista das informações, que d'alli lhe tem vindo, como o mais adequado ponto para nelle se fundar uma colonia agricola, para alli se mandaram, a bordo do brigue Sado, vinte e nove colonos allemães, que, por arribada do navio, que do Baltico os conduzia para a America, tinham entrado no Tejo. Chegados a Mossamedes, de lá partiram para a Huilla, cujo terreno lhes agradou summamente, vendo-o tão cortado de ribeiras, e riachos, um dos quaes passa pela frente, e outro pela retaguarda do local das suas respectivas habitações. Escolhida uma varzea fertil, e pouco distante da respectiva fortaleza, deu-se começo á povoação desta nova colonia, procedendo-se ao alinhamento e demarcação das ruas no dia 19 de julho de 1858. O nome de Vista Alegre foi o destinado para esta nova e esperançosa povoação. Pelas recentes noticias, que o governador de Mossamedes dirigiu ao ministerio da marinha e ultramar, datado da Huilla aos 15 de julho do mesmo anno 1858, soube-se que n'aquelle ponto se achava elle residindo para regular os negocios da colonia portugueza o allemã. Entre as obras, a cuja construcção procedéra para beneficio d'ella, figuravam : l.° um moinho de agua paia cereaes; 2.° uma olaria para fabricar tijolo e telha; 3.° uma fabrica de cortumes, propriedade particular; 4.° finalmente uma machina movida por agua para serrar madeira. O mesmo governador affirmava que as colheitas do trigo se podiam alli obter tres em cada anno, em março, maio, e dezembro, semeando-se em janeiro, março, e outubro, c que todos os productos da Europa alli se podiam aclimatar C). Quanto ao estado sanitario dos colonos não podia ser melhor, prova evidente da benignidade do clima. Do Rio de Janeiro linham ido para Mossamedes, a bordo do patacho Paquete do Loanda, dezeseis passageiros, alguns d'elles abastados, nas vistas de se estabelecerem no interior do districto, dedicando-sc á agricultura. Pelos ditos passageiros constava que da mesma cidade do Rio de Janeiro outros mais individuos sabiriam em breve com aquellas mesmas vistas. Para maior segurança dos territorios de Mossamedes mandou-se estabelecer um pequeno forte i.m Porto Pinda, ao sul de Cabo Negro, e na sua proximidade. Por decreto de 15 de julho de 1857 se organisou a força militar da provincia de Angola, devendo ter em Mossamedes o seu respectivo quartel o batalhão de caçadores n.° 3, creado segundo o referido decreto. A primeira companhia deste batalhão sahiu directamente do Lisboa para Mossamedes no 1.° dia de outubro de 1858 a bordo da nau Vasco da Gama. indo na força de 104 homens, incluindo os seus respectivos officiaes, 50 mulheres, e 44 menores. Toda esta força foi destinada a constituir a colonia militar da Iluilla, em conformidade com as portarias, expedidas pelo ministerio do ultramar em 26 de dezembro de 1857. Levava esta colonia comsigo tres contos de réis em dinheiro para as primeiras despesas da sua sustentação, o seu competente armamento, 21 peças de artilheria, polvora em proporção, e mais petrechos ile guerra, importando os objectos militares em 7:262£287 réis, o os não militares em 1:7630337 réis. Já antes da sabida desta força outra tinha partido em 4 de maio de 1858 a bordo do brigue Forttmato com destino á guarnição de Mossamedes. Compunha-se esta ultima força de 80 praças ao todo, não fallando em 400 degradados, nas mulheres e filhos de muitos destes, que tambem foram para Angola na mesma nau Vasco da. Gama. Todas estas providencias devem constituir Mossamedes a segunda povoaçao (I) Sem embargo de todas estas vantagens, os colonos allemães, desavindose cuiu o governador de Mossamedes, allegado falta de cumprimento nas promessas, que se lhes fizera, abandonaram a colonia, subindo alli para a America em 1839, perdendo o governo as consideráveis despesas, que com elles tinha feito". Era má gente, c impropria para esta colonisação de Angola, e pude ser que dentro em poucos annos seja a primeira, segundo as lisongeiras noticias, que d'alli tem vindo depois da chegada de todos estes reforços. 

A estatistica d'aquelle ponto em 1857 era a seguinte: fogos na villa de Mossamedes, Aguada, Boavista, Cavalleiros c Macalla, 91. Predios na villa C8, sendo 34 de pedra, M de adobe, e 23 de pau a pique. As cubalas de palha eram 6. Em construcção estavam 4 predios de pedra, c 14 de adobe. Os predios da Aguada eram 16 de todo o genero, na Boavista 33, nos Casados 5, e nos Cavalleiros e Macalla 3. A população livre era de 275 individuos, sendo 132 brancos maiores e menores do sexo masculino, 81 ditos do sexo femenino, sendo o resto composto de pardos e pretos. Os libertos eram 99, o a população escrava montava a 837 individuos, vindo assim o total de todas as classes e sexos a elevar-se a 1:211 pessoas, só na villa de Mossamedes. Á vista pois do exposto concluo que se me não cabe a exclusiva gloria desta esperançosa colonisação em totalidade, cabe-me seguramente em grande parte, sendo eu o que mais que ninguem me empenhei em achar nos vastos dominios de Angola algum sertão, que pelo seu clima, e fertilidade se prestasse ao estabelecimento de colonias agricolas, que com o andar do tempo nos supprissem a falta, que nos fez a separação do Brasil, dando animação, e vida ao nosso frouxo e decadente commercio. Se preenchi ou não as vistas a que me propuz, o tempo é quem o ha de dizer, e sendo pela affirmativa, como julgo que será, tenho para mim que paguei bem à minha patria, não só as despesas, que fizera com a minha educação, mas até o ordenado com que me tem retribuido o meu trabalho como official ordinario da secretaria da marinha e ultramar. Talvez que depois de morto me venham então as honras posthumas, quando já para nada me servem, nem ao menos para me desvanecer com ellas.
Posto que não tão importante como o precedente, um outro serviço prestei ao meu paiz, na firme crença de ter sahido fora das minhas obrigações ordinarias de empregado secundario no ministerio em que tenho servido. Um navio estrangeiro foi abandonado pelo seu capitão n'uma das nossas provincias d'Africa, por duvidas que teve em se submetter aos regulamentos flscaes, lavrando deste abandono um termo, que lhe serviu de titulo para reclamar de Purtugal o pagamento de perdas e damnos, e o de lucros cessantes, com o de tudo o mais, que julgou a bem dos seus interesses, allegando de injustas e parciaes as exigencias, que as auctoridades da respectiva alfandega lhe fizeram. Dentro em pouco tempo dirigiu ao nosso governo a competente reclamação o ministro da nação a que o navio pertencia, tendo eu de responder á energica e altiva nota, que para este fim o referido ministro formulára, e na qual se continham expressões e argumentos de um desafogo, proprio de quem tem por si a força. Vendo eu que se a informação pedida pelo ministerio dos negocios estrangeiros ao da marinha se limitasse somente a dar os simples esclarecimentos, que se exigiam, de certo que pagariamos a importancia da reclamação em questão, entreguei-me de todo o coração e zelo pelo bem do paiz, não a ministrar apenas aquelles esclarecimentos, roas a redigir de facto uma verdadeira nota, que servisse de resposta á do minislro reclamante, nota que elaborei com muito trabalho e esforço da minha intelligencia, expondo fortes e energicos argumentos, para que me foi necessario consultar a nossa legislação fiscal, e ir por mais de uma vez pessoalmente á alfandega grande de Lisboa, para alli me informar das praticas analogas ao caso acontecido em Africa. Pelo officio, que elaborei sobre este ponto, se pode bem ver, ou no ministerio da marinha, ou no dos estrangeiros, o patriotico zelo com que então me conduzi. Verdade é que o ministro reclamante redarguiu á resposta, que se lhe dera, por meio d'uma segunda nota, tanto ou mais forte do que a primeira, de que resultou pedirem-se com ella novas informações, ou antes pedir-se a replica a esta segunda nota ao ministerio da marinha. E posto que já se tivessem dado todos quantos esclarecimentos se podiam dar, quando a questão se reduzisse somente a esclarecimentos, enchi-me de novos brios para rebater as razões de um estrangeiro orgulhoso e insolente, o que fiz com não menos zélo e dedicação pela causa publica com que da primeira vez o fizera. Os argumentos de que me servi, e os trabalhos a que de novo me enUeguei constam do respectivo officio, enviado pelo ministerio da marinha ao dos negocios estrangeiros, officio que até hoje ficou sem resposta da parte do ministro a quem se dirigiu, )le que resultou evitar eu por este modo ao thesouro portu
gucz o pagamento de uma avultada somma, que talvez pagasse, se não fora o meu allegado zelo e dedicação pela causa publica. Muito maior gloria me coube a mim na sustentação desta questão, do que a que retirou o nosso governo em 1858 na do celebre apresamento da barca franceza Charles et Georges, que sendo evidentemente negreira, e encontrada com todas as provas disso, infringindo as leis do paiz na bahia da Conducia, em Moçambique, o gabinete francez, appcllando vergonhosa e indignamente do campo da razão e da legalidade para os argumentos da força e allegações de um despotismo insolente, não se pejou de enviar duas naus suas ao Téjo, com a intimação, que nos mandou fazer, de se lhe entregar a referida barca dentro de quarenta e oito horas, como effectivamente aconteceu em 23 de outubro de 1858. Não se limitou sómente a esta entrega o jugo, que a França nos impoz por tal motivo, porque além delia, tivemos tambem de lhe pagar a enorme somma de 62:828$100 réis, como indemnisação da captura em questão, sendo ella todavia mais justa do que a materia, que eu tive de defender no caso acima citado. Não digo que a correspondencia do nosso governo sobre a entrega da barca Charles et Georges fosse mal conduzida, mas o facto é que delia não se lirou o resultado da que me passou pelas mãos doze ou treze annos antes, sendo a consequencia disso supportar a nação portugueza um vexame, que tanto deu que fallar em toda a Europa, e tamanho desaire nos acarretou, vexame e desaire de que eu a livrei, alóm do pagamento da respectiva somma, mettido em questões de peor aspecto, que a da citada barca. Eis-aqui pois mais outra prova da minha affirmativa de ter pago ao estado as despesas, que fez com a minha educação, e o ordenado com que me retribuiu o trabalho do meu emprego de official da secretaria da marinha, donde resulta ter igualmente pago á patria o nascimento, que a sorte me deparou no gremio da nação portugueza. Deste modo desempenhei pois as funcções do meu antigo logar de chefe da repartição de Angola, que exerci desde novembro de 1842 até junho de 1851, em que dellc fui demiltido, pela razão e modo por que se vae vêr.

1 comentário:

Casa de Mossamedes - Turismo de Montanha e Eventos disse...

Bom dia gostei muito do vosso blog,

Atenciosamnete
António Borges

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