sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O Districto de Mossamedes, Moçâmedes, Namibe, Angola: 1892





 
Carta de Angola de 1892 com a delimitação dos quatro distritos: Congo, Luanda, Benguela e Mossâmedes




O Districto de Mossamedes acha-se comprehendido entre os parallelos 13.0, 50' e 17.0, 25' de longitude austral. Confina ao norte com o districto de Benguella, a oeste com o Oceano atlântico, ao sul com as possessões allemáes, das quaes é separado pela porção do rio Kunene, cujo rumo segue na direcção les-oeste desde a Hinga até á foz e a leste estende-se até os limites ainda não difinidos da provinda de Angola.

A parte explorada do districto, a que é habitada pela raça branca, e por isso desperta o interesse descriptivo, abrange uma vasta extensão de território, que se prolonga na linha norte-sul desde o parallelo que passa pelo cabo de Santa Martha ao curso inferior do Kunene e na Unha les-oeste desde a costa maritima ao curso ascendente do mesmo rio até o Lucéke. E esta a zona que pelas suas benéficas condições de clima e riqueza geológica tem sido percorrida, habitada e colonisada pela raça europêa, e a unica que sob o ponto de vista da adaptação da raça branca merece ser conhecida.
O districto de Mossamedes divide-se em duas zonas bem distinctas: uma, que se prolonga de norte a sul com a costa marítima, é baixa, secca e arenosa; e outra, que se segue d esta e d'ella se separa pela cordilheira da Chella (Tyela), abrange toda a vasta bacia do Kunene, é alta, chuvosa e ricamente arborisada; constitue o plan'alto proveitosamente explorado pela raça branca, mercê da benignidade do clima e abundância de elementos de riqueza agrícola e commercial.

A estas duas zonas tão nitidamente separadas pelos seus caracteres geológicos correspondem modalidades climatéricas, que imprimem profundas modificações no modo de ser, nas cousas e nas pessoas.

Zona  baixa. Prolonga-se para o interior na extensão de 100 kilometros aproximadamente até os contrafortes da Chella e alarga gradualmente para o sul até o valle inferior do Kunene constituindo um vasto deserto arenoso. Esta zona eleva-se para o interior por modo insensível attingindo a altitude media de 500 metros nas proximidades da cordilheira da Chella. Distinguem-se n'ella duas fachas de terrenos, que correm com caracteres nitidos no sentido les-oeste: a primeira, litoral, formada por extensa planície de areia solta com alterações de relevo em dunas e ravinas, onde as chuvas são raras e de pouca duração; a segunda, interior, prolongando-se com a Chella, pedregosa, com vegetação que augmenta á maneira que se aproxima do planalto e que marca o limite das aguas permanentes que correm da zona alta.

Os terrenos que formam a zona baixa pertencem pelos seus caracteres geológicos á formação terciária. Encontram-se n'elles grande numero de géneros de conchas e algumas variedades de grés calcarifero com moldes de bivalvas e rochas formadas por uma aglomeração de conchas ligadas entre si por um cimento calcareo. Em muitos logares afastados da costa marítima e em altitudes superiores a 100 e 200 metros encontram-se calhaus rolados de calcareo silicioso e textura porphirica, que demonstram que esta zona em épocas remotas constituía um fundo do mar, que lentamente se foi elevando do seio do oceano. 

A rede fluvial da zona baixa comprehende os valles de S. Nicolau, Giraul (Dyraul), Bero e Koroká, cujos rios na maior parte do anno estão seccos; apenas levam agua durante alguns dias na estação pluvial, quando as chuvas torrenciaes do plan'alto, depois de encherem os afílu entes do Kunene, se despenham eminnumeras cataractas pela Chella abaixo. E' então que enormes massas de nuvens condensadas sobre? a região alta e açoutadas pelo impetuoso vento sueste são arrastadas para a zona baixa do valle de Kapangombe, onde se desfazem em catadupas, que conduzidas por milhares de regatos e ravinas formam enormes massas d'agua, que correm em rápidas e perigosas enchurradas, que enchem e alagam os terrenos marginaes dos valles por espaço de dias e mesmo horas.

Na facha arborisada de Kapangombe, liraitrophe da Chella, as aguas permanecem por alguns mezes por causa da dureza do terreno e por serem os rios na sua primeira porção alimentados pelo excesso das aguas do plan'alto. Na facha arenosa do litoral ellas desapparecem em pouco tempo por infiltração nas areias dos leitos dos rios. D estes o que conserva por mais tempo maior volume d'agua é o Bero, que ferti-lisa os terrenos de Mossamedes. Este rio é o primeiro a conduzir as aguas pluviaes da região alta e o que as conserva por maior espaço de tempo. Resulta esta circurastancia de ser o seu curso entre a Chella e o litoral mais curto e directo, formado em grande extensão por um leito de pedras e principalmente por ter a sua principal origem no plan'alto por intermédio de um a nascente que deriva para elleum grande volume de aguas colhidas na bacia do Jau(Dyau), durante a primeira parte da estação chuvosa do plan alto, de outubro a dezembro, quando ainda não teem cahido as primeiras chuvas na zona baixa; em quanto que os rios de S. Nicolau e Koroka são alimentados pelas chuvas que cahem sobre as vertentes occidentaes da Chella, o que só tem logar na quadra das grandes chuvas da zona alta, de janeiro a abril.
É de notar-se que o regimen pluvial d'esta zona difere considerável mente do da zona alta. N'esta apparecem as primeiras chuvas em setembro e prolongam-se até dezembro, formando a primeira parte da estação chuvosa, chamada das pequenas chuvas. N'esta quadra, dominando os ventos moderados do nordeste, as nuvens formadas por condensação no plan'alto descarregam sobre elle não chegando á zona baixa. Apenas de janeiro a maio, que comprehcnde a quadra das chuvas torrenciaes e dos ventos impetuosos do quadrante do sueste, e que as chuvas attingem a zona baixa e chegam á facha arenosa do litoral produzindo innundações passageiras, que ainda assim são o único recurso para a fertilidade dos terrenos agricultados nas proximidades de Mossamedes, taes são: as hortas do valle do Bero e Cavalleiros e as fazendas agrícolas exploradas nos valles do Giraul, Koroka e S. Nicolau. Lançado no mar o excesso das enchurradas, fica no solo do leito dos rios uma certa humidade que se conserva por espaço de um e dois inezes e um deposito de detritos orgânicos, que constitue um rico adubo aproveitado pelos agricultores que sobre elle fazem as suas plantações em pleno leito dos rios.

Estas fazendas produzem variadas espécies de cultura, taes como: algodão, cana saccharina, cereaes, legumes, hortaliças e arvores fructiferas. Empregam no arroteamento dos seus terrenos, 29 maachinas a vapor e possuem 32 engenhos de moer cana, e outros tantos alambiques para a distillaçáo da aguardente.

Pela disposição natural da zona alta, a sua maior altura corresponde á cordilheira da Chella e d'ahi para o interior desce suavemente para o sul e leste, do que resulta que a maior parte das aguas pluviaes correm ao Kunene; deriva para a zona baixa uma pequena porção, que na quadra das grandes chuvas cae sobre as vertentes occidentaes da cordilheira, fertilisando os terrenos do valle de Kapangombe.

Sobre a facha arenosa do litoral de Mossamedes chove muito pouco, duas ou três vezes por anno. Na facha cultivada em frente á Chella chove durante dois a três mezes, emquanto que na zona alta a estação chuvosa com prebende seis mezes no anno.

Convém observar que tem havido profundas modificações no regimen pluvial da zona baixa, cujas causas são pouco conhecidas. Em épocas remotas chovia regularmente todos os annos em quantidade bastante para encher os leitos dos rios. Os antigos agricultores estabelecidos no valle de Kapangombe e Biballa e os primeiros colonisadores de Mossamedes faliam com saudade dos primeiros annos da sua installação n'este districto, annos de chuvas abundantes e regulares; d'então para cá ellas teem diminuído progressivamente a ponto de passarem períodos de quatro e cinco annos sem cahir uma gotta de agua.

Quando pela infiltração e evaporação desapparece a humidade no leito dos rios e bem assim durante os annos de estiagem, em que as aguas por successivas infiltrações nas areias não chegam a humedecer os terrenos cultivados, recorrem os agricultores á irrigação com agua extrahida de poços praticados a profundidade de 5 a 15 metros. Na villa de Mossamedes todas as casas teem poços, que fornecem agua necessária para os usos ordinários. Esta agua é de má qualidade, pesada, salitrosa, produzindo perturbações digestivas. A existência de uma toalha liquida subterrânea na zona baixa, cujo nivel se mantém constante apezar das vicissi- tudes do regimen pluvial, é um facto incontestável, que nos leva a suppor que cila mantém estreitas relações com a bacia fluvial do plan'alto, que a alimenta como uma parte importante das suas aguas por infiltração atravez de ca- madas porosas, que seguindo as vertentes da Chella se pro- longam e continuam com o sub-solo da zona baixa. E de importância capital para o desenvolvimento das fazendas agricolasdo valle de Kapangomb e investigar com apparelhos próprios e aproveitar por meio de poços artesianos este filão de agua, que todas as razões induzem a crer que tenha a sua origem no plan'alto, cuja altitude media sobre o valle de Kapangombe é de 1600 metros. A agricultura n'esta zona, que foi o principal elemento de prosperidade e riqueza nos tempos áureos do districto, acha-se actualmente em estado de lastimosa decadência por falta de aguas que irriguem os seus fertilissimos terrenos. Os annos de secca succedem-se uns apóz outros com insistência esmagadora espalhando o desanimo por toda esta riquíssima região, cujos agricultores vão rareando, ceifa- dos uns pela morte, e outros obrigados por falta de recur- sos a abandonar a.s suas propriedades, fructo de longos annos de trabalhos. Os mais favorecidos, que ainda assim mantem as suas fazendas a troco de penosos sacrifícios, são os que se estabeleceram nas vertentes da Chella, onde aproveitam as primeiras aguas de pequenos regatos per- manentes, que descem do plan alto e formam as origens dos rios da zona baixa.

E' de urgente e inadiável necessidade proceder a estes estudos, pois que o bom êxito dos poços artesianos é im- portante medida de salvação para em breve espaço de tempo elevar ao primitivo apogeu a agricultura em Mossamedes, única fonte de riqueza da população branca do districto, que se acha abatida e depauperada nos seus re- cursos por tão longa estiagem sem esperança de melhores tempos. O primeiro ensaio a fazer-se deve naturalmente incidir na zona de Kapangombe por estar mais próxima da Chella e oíferecer por isso maiores probabilidades de bom êxito. Se d'esta tentativa sortir o desejado efeito, fácil será por suceessivas investigações animadoras estabelecer um systema de poços artesianos, que colloque a zona agricultada ao abrigo das vicissitudes de um regimen fluvial inconstante, o que concorrerá para desenvolver as propriedades existentes com valiosas culturas, crear novos centros de producção agrícola e animar os proprietários a converter os seus capitães em produetiyas fontes de receita. Esta falta d'agua torna-se sobremodo sensivel na facha de terreno sobre que assenta a estrada que parte de Mossamedes para o plan'alto, passando pelos sitios denominados: Pedra Grande, Pedra do Major, Providencia, Moninho e Kapangombe. Esta estrada é percorrida pelos vagons loers que fazem o transporte das mercadorias e productos agrícolas entre o plan'alto e o litoral, e vice versa; pelos viajantes, car- regadores e manadas de gado para consumo e exportação. Nos annos ordinários, em que não chove, não se encontra uma gotta d'agua nem pasto na maior extensão d'esta facha desde o valle do Giraul até o Moninho, do que resulta morrer á sede e á fome grande numero de bois que pucham os carros e dos que são enviados do plan'alto para exportação e consumo. Cada vagou é conduzido por 20 a 30 bois, dos quaes um terço e ás vezes metade succumbe por falta d'agua — 20 — durante os 10 ou 12 dias de viagem ftitigante por este deserto arenoso, atravez do qual os pesados veliiculos carregados com 100 a 150 arrobas de carga são penosa- mente arrastados pelos pobres bois famintos e sequiosos por entre densas nuvens de suffocante poeira. Está calculado que morrem annual mente n'este deserto 400 a 600 bois, o que representa iim enorme prejuízo para os seus proprietários, que para compensar tão grave dam- no elevam cada vez mais o preço do transporte. Basta saber-se que o preço do transporte de uma arroba de carga do litoral para o plan'alto importava, ha três annos, em I$000 réis e actualmente com a persistência das seccas e mortalidade no gado elevo u-se a 2$200 réis. Independente da perda material do boi, ha a accrescen- tar a perda da somma de trabalho que o boer dispende para amansa-lo e sujeita-lo ao serviço da canga. O boi bravo comprado nos centros productores dos Gam- bos e Humbe importa em 10 ou 15 mil réis e depois de amansado e ensinado vale 25 a 30. Calcule-se do desanimo que lavra entre os boers e portuguezes que vivem do aluguer dos seus carros para o transporte das mercadorias, sabendo-se que durante a estiagem rara é a viagem, em que não fiquem orlando a estrada os cadáveres de um terço ou metade dos seus bois a servir de festim ás hienas e lobos que infestam estas paragens. Para de algum modo atenuar tamanho prejuízo, que ameaça aniquilar a exportação de gado por via de Mossa- medes, pelo excessivo preço a que chegou, e que fere de morte os interesses commerciaes e agrícolas do plan'alto pela exhorbitante carestia e difficuldades de transporte, ordenou o governo o aproveitamento de uns tanques na- turaes cavados em uma grande rocha no sitio da Pedra Grande, a dois dias de viagem de Mossamedes, mandando construir uns paredões que conduzem para elles toda a agua das chuvas que cae sobre a enorme pedra que dá o nomc! a este sitio.

Existe n'este ponto uma casa do governo que serve de pousada aos via.jantes, um curral para abrigo do gado e algumas cubatas, em que residem os soldados do destaca- mento. Os tanques cavados na rocha são quatro e tem bastante capacidade. Quando sobre a rocha caem chuvas torrenciaes, os tanques enchem-se d'agaa, que se conserva por bastante tempo. E' d'esta agua que bebem os viajantes e o gado. Quando ella diminue e seguem-se annos de estiagem o governo só permitte que se tire a porção indispensável para uso dos viajantes, prohibindo que seja dada ao gado e para cumprimento d'estas ordens e vigilância dos poços tem ali um destacamento militar. O que fica dito para a Pedra Grande applica-se ao ponto denominado — Pedra da Providencia, com a diferença de não haver casa para viajantes nem destacamento militar. Encontra-se agua em cavidades das rochas e poças, quando chove; fora d'estas ccmdições anormaes a monotonia do terreno prolonga-se em desesperadora aridez até ao valle do Moninho, em cujas fazendas se encontra agua em cacimbas, que servem para a rega dos terrenos de cultura. A vegetação n'esta facha é rachitica, compõe-se da welvitchla miníbilis, falso cedro, algumas euphorbiaceas, espi- nheiros e acácias, que vegetam nos valles, ravinas e leitos dos rios seccos. Xa faciía de terrenos arborisados, que correra paralle- los aos contrafortes da Chella, a agua existe com abundan- dancia durante a estação das chuvas; nas épocas de estiagem não chega a irrigar a vasta área de terrenos cultivados. O districto de Mossamedes abrange uma arca de 176:250 kilometros quadrados, duas vezes a superficie de Portugal. Divide-se em sete concelhos, dois na zona baixa, que são: os de Mossamedes e Kapangombe, e cinco no planalto: os da Humpata, Lubango, Huilla, Gambos o Humbe, dos quaes os três primeiros formam a área de coloiiisação europêa, que explora os seus férteis terrenos; e os dois últimos, que pelas suas condições de clima nào se prestam á adaptação da raça branca, formam a área de exploração commercial com os indígenas e são os centros de permutação do gado bovino, cuja creação constíitue a principal occupação das raças indígenas, que povoam a riquissima zona do sul do planalto.
Continua...



FONTE "O Districto de Mossâmedes, J. Pereira do Nascimento, 1892






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